Todos os Mortos

Decolonialismo cultural, religioso e ideológico

por

24 de outubro de 2020

Uma leitura decolonialista se engrandece ainda mais através do subtexto. A começar pelo nosso exemplar que conseguiu ingressar na corrida pelo Urso de Ouro: “Todos os Mortos”, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que se passa logo após a abolição da escravatura, em 1899. Demonstrando que o Brasil não mudou suas políticas públicas, de fato, para incorporar e conviver com a pluralidade, e sim manteve a mentalidade do racismo estrutural.

Na verdade, há duas histórias se digladiando ali dentro, como se numa crônica sobre os conflitos inerentes à dicotomia clássica do livro “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre – às vezes dando mais voz à Casa Grande do que o necessário, mas reconhecendo a importância de ver o lugar da branquitude a enlouquecer sem o sustentáculo exploratório. Poderia até ser considerado uma falha, no entanto, ainda assim, uma falha necessária, como a própria história escamoteada de nosso país.

Independentemente disso, a maior contribuição deste longa-metragem está numa especialidade atual do audiovisual brasileiro, que é dar imagens e corpo à teoria decolonialista. Essa parte é focada com primor na personagem da revelação Mawusi Tulani, cuja família é quem vai trazer ao filme de época, a princípio barroco e naturalista, o elemento que faltava: a pegada de gênero do cinema fantástico e de horror psicológico, que costuma ser a assinatura de um dos diretores, Marco Dutra, como em filmes como “Quando Eu Era Vivo” e “As Boas Maneiras” (este codirigido por Juliana Rojas, que é a montadora de “Todos os Mortos”).

E é através de Mawusi que surge a ancestralidade de cultura e religião de matrizes africanas, o que também desdobrará a brilhante trilha sonora numa dialética tensionada ainda entre as músicas eurocêntricas do piano da personagem “sinhá”, encarnada com vigor por Carolina Bianchi, e o canto popular da cozinheira interpretada por Andréa Marquee (será que o elenco feminino tem chances de ganhar melhor atriz de forma coletiva? Não é tão raro em Festivais…).

*Originalmente publicado na Revista Fórum durante a Berlinale 2020, ora atualizado e expandido para a 44ª Mostra de SP:

https://revistaforum.com.br/noticias/decolonialismo-cultural-religioso-e-ideologico-por-filippo-pitanga/