Toni Erdmann

Os 12 trabalhos de Hércules e a reconciliação com seu pai Zeus. Mas aqui, Hércules é uma mulher!

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23 de outubro de 2016

Premiado pelo júri da crítica no Festival de Cannes 2016 e como melhor filme do ano pela FIPRESCI  (Associação Internacional de Críticos), há algo especial para além da comédia que anda fazendo todos rirem com “Toni Erdmann” de Maren Ade. Sim, para um filme alemão do raro gênero comédia levado a sério, este conseguiu pegar todos de surpresa com humor acertadamente atípico, tanto através do naif quanto do nonsense. Mas há uma crônica político-social engendrada numa sutil camada trágica de perda, onde o velho se torna desvalorizado perante a correria do novo, como o capital esmagador das megacorporações para quem a protagonista trabalha, e que testa seus vínculos familiares com seu pai para o qual não possui mais o precioso tempo a dispor. Por essas e outras que o filme é o selecionado da Alemanha para concorrer ao Oscar 2017 na categoria língua estrangeira, e por enquanto é o franco favorito.

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A história é como uma analogia aos 12 trabalhos de Hércules, alcançando a reconciliação com seu pai Zeus, porém o diferencial é que, aqui, Hércules é uma mulher! Uma workaholic ambiciosa que negligencia a própria família e recebe a visita de seu esquisito pai, o tal Toni Erdmann do título, um dos apelidos/facetas que ele usa, como um Zeus jocoso, múltiplo e velho, carente e cheio de piadinhas sem graça e onipresentes que fazem o público rir mais dele do que com ele, gerando uma simpatia agridoce. Mas o verdadeiro contraponto está nas expressões duras e impassíveis da filha interpretada com segurança ímpar por Sandra Hüller, que não tem mais lugar para o pai em sua vida moderna, muito pelo contrário, ele vira a trágica antítese de tudo o que ela acredita. Como toda boa lição histórica de comédia, não adianta possuir mil personagens em tela tentando fazer rir ao mesmo tempo, pois um cancelaria o outro, e sim, como diria Charlie Chaplin, para cada sorriso deve haver uma lágrima, pois só assim o espectador irá valorizar o contraste. É por isso que a máscara do teatro grego desde a Antiguidade possuía dois lados, tanto o da comédia quanto o da tragédia, muito próximos, pois eles sabiam que era do absurdo da perda que rimos de nossas próprias desgraças expiadas na vida dos outros.

Como, por exemplo, a cena tão sutil onde o pai tenta de tudo para agradar os amigos da filha numa boate e ela, indiferente, solta uma pequena e quase imperceptível lágrima da dor que o passado com aquela pessoa faz parecer muito mais complicado do que as risadas fáceis que ele tenta tirar. E por isso grandes duplas do cinema geralmente são compostas por um humorista e um personagem ranzinza e rabugento, no caso específico aqui, a filha machucada e recalcada, presa e tão recatada como suas roupas. Aliás, o figurino condizente em tons escuros e sóbrios e a direção de arte de seu apartamento estéril e rico fazem um contraste com o humor colorido. Bem como as várias idas e vindas de trabalho no carro da empresa, lado a lado, filha e pai no mesmo plano, simbolizam a longa jornada da vida sem muitos pontos de fuga, onde o que importa mais são as trocas pelo caminho e não o destino em si.

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Mas existe um subtexto sócio-político muito interessante e representativo da Europa atual escondido sob a comédia do filme. Ele está desde as cenas de visitas ao patrões, onde a simplicidade do absurdo do pai conquista os maiores capitalistas do mercado, simplesmente porque eles próprios são vazios e não sabem mais o que fundamenta ou justifica seu Império, contradizendo os anos de estudo e experiência que a filha estava ali para representar (numa ótima discussão sobre recursos nacionais ou estrangeiros, no apagamento da cultura interna de cada país ‘globalizado’); tanto quanto nas cenas de visitas aos empregados da base da pirâmide, onde as piadas sem graça do pai enfim possuem consequências, podendo até causar demissão e desgraça para os mais humildes.

E, enfim, a terça parte final do filme, que de fato poderia ter um pouco menos do que suas duas horas e quarenta de projeção, alcança as cenas mais sublimes e viscerais, no sentimento verdadeiro de ver a protagonista cantando “The Greatest Love of All” de Whitney Houston, com o pai ao piano, na casa de desconhecidos, significando mais uma vértice triangular do povo que está tendo suas vidas modificadas pelas megacorporações onde a filha trabalha; e a festa ao final, a epítome da ironia com uma sociedade alemã elitista, que terá de se ver refletida e despida de todos os seus preconceitos, sem máscaras ou artifícios. Quem diria que uma relação de pai e filha poderia estremecer todas as bases da sociedade e perdoar as diferenças.

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Toni Erdmann (idem)

Alemanha /Áustria, 2016. 162 min

De Maren Ade

Com Sandra Hüller, Peter Simonischek, Lucy Russell