Torre das Donzelas

Libelo de resistência das mulheres pelo Brasil

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18 de setembro de 2018

Em determinado momento do filme “A Torre das Donzelas” de Susanna Lira, sobre as mulheres que foram encarceradas na prisão-título durante a Ditadura Militar brasileira por defenderem a democracia de seu país, a ex-presidenta Dilma Rousseff relata que ela e as colegas foram recebidas na ‘Torre’ com uma placa dizendo: “Feliz do Povo sem Heróis” – Citação parafraseando Brecht que ela reconheceu de imediato. Tal frase estaria sendo cruelmente deturpada naquele local, pois um país que não precisa de heróis iria querer dizer que teria alcançado uma utopia em favor do povo. Fato que não ocorreu durante a Ditadura entre os anos de 1964 e 1985. Mas o que está implícito neste ato, bem como explícito no filme “Torre das Donzelas” como um todo, é que talvez precisássemos é de heroínas, e não de heróis, e foi isso o que este longa-metragem acrescentou à competição principal do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em meio à turbulência política polarizada que se aproxima das eleições.

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Olhar para trás é necessário para poder olhar para o futuro. Um filme que, mais do que falar sobre a prisão política e ilegal, além da tortura, assassinatos e desaparecimentos durante o Golpe Militar de 64, fala também sobre a subversão e resistência coletiva, especialmente advinda das mulheres, imprescindível para o hoje e sempre. E, diante de um momento histórico presente já analisado por muitos especialistas sociopolíticos como sendo um Golpe Parlamentar desde 2016, mesmo que se utilizando da forma jurídica de Impeachment para derrubar a primeira presidenta mulher no Brasil, há muito o que se fazer uma analogia com os dois períodos históricos aqui referidos. O ontem e o agora. 1964 e 2016. Um governo ditatorial dominado através da coação por homens em cargos hierárquicos como generais e coronéis, que prendeu e torturou com especial misoginia inúmeras mulheres lutando pela liberdade de todos, incluindo Dilma Rousseff… Mas quem diria que, por tamanha ironia perversa do destino, esta mulher se tornaria presidente e, então, subsequentemente seria deposta por um novo levante de conservadorismo radical e fascista que em algumas de suas vertentes defende até a volta da Ditadura Militar.

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Estes e muitos mais fundamentos fazem do filme um documento e registro precioso do testemunho de uma época, e ao mesmo tempo um poderoso passo a passo de como lutar contra estas exatas injustiças para impedir que o tempo possa reproduzi-las pelas mãos dos homens – algo que o cinema anda provendo como reflexão com muitos filmes libelos como igualmente “O Processo” de Maria Augusta Ramos e “Auto de Resistência” de Natasha Neri e Lula Carvalho. Mas este também é um filme em competição no maior Festival de Cinema Brasileiro do país; é uma obra cinematográfica. E precisamos analisá-la também como linguagem, estética e coragem de produção. Mesmo que cercada de forte comoção pelas evidentes catarses dentro e fora do filme em reunir tantas mulheres incríveis e suas histórias num mesmo lugar, seja na telona ou no palco na apresentação e debate do filme, gerando uma onda emocional impossível de não tocar a todos.

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Talvez o maior atributo vanguardista e arriscado que o filme tenha alcançado como gatilho de memória, a servir de dispositivo para escavar verdades silenciadas por mais de quarenta anos, foi reconstituir a prisão que dá nome ao filme. O feito foi alcançado a partir das lembranças de tantas personagens marcadas pela vida que só poderiam chegar perto da essência de seus pontos cegos através da convergência de sua união. Após solicitar que todas desenhassem como se recordavam da chamada “Torre das Donzelas”, a diretora Susanna Lira pediu que sua hercúlea equipe reconstruísse a estrutura de modo a se encaixar numa cápsula do tempo como armadilha voluntária. Assistir as mulheres hoje mais velhas do que quando entraram ali pela primeira vez poderem revisitar e reocupar aqueles espaços outrora de opressão, mas reconquistados por elas, é um dos momentos mais catalisadores que a magia do cinema poderia trazer. Nada pode tirar a força que isto traz a este longa-metragem — numa influência artística que a própria diretora afirma ter trazido dos filmes “Dogville” de Lars Von Trier e “César deve Morrer” dos irmãos Taviani. Uma das aplicações de direção de arte mais original e necessárias para a imersão de personagens já utilizada em um documentário, cuja equipe foi capitaneada com excelência por Glauce Queiroz – o que alude à força de quando o grande e saudoso documentarista Eduardo Coutinho revisitou as mesmas personagens de seu hoje clássico filme “Cabra Marcado Para Morrer”, 20 anos depois, e contrapôs as recordações na tela para unir dois tempos em um.

Vale ressaltar que estes não foram os únicos dispositivos utilizados como gatilhos. Susanna usa todos os sentidos das mulheres entrevistadas, como tato, olfato e audição. Desde objetos similares aos que utilizavam na época como também o uso de músicas, há de exemplo o hino revolucionário da internacional comunista que, para além de despertar lembranças da ideologia que norteou a luta pela democracia à época, também era usado pelas prisioneiras como estímulo para resistir à tortura. Outro momento musical de lirismo extremo é o convite para Alice Caymmi representar a família do compositor que não sabia o quanto uma de suas músicas foi usada como catarse coletiva entre as prisioneiras, e foi uma descoberta emocionante poder revelar em cena tanto para a cantora quanto para as personagens a potência de ressignificações que uma composição pode ter através do tempo.

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São mulheres a princípio não identificadas para tentar tratá-las da forma mais horizontal possível, visto que não há hierarquia entre elas, mesmo em se tratando de uma ex-presidente no meio dos testemunhos. Afinal, hierarquia já bastava aquela contra a qual resistiam bravamente. O início do filme é marcado num primeiro instante com a apresentação das personagens e a introdução de seus corpos e movimentos na prisão reconstituída através da ficção, isoladamente e depois em conjunto, um gesto arriscado que poderia gerar mais dor do que alívio e fechar ainda mais suas depoentes. O diferencial está na própria raiz do que seria um problema: a prisão não saiu vitoriosa! Elas conseguiram redimensionar o que significava estarem presas, e pela união e trocas entre elas transformaram em uma cartilha de resistência coletiva. Ensinaram umas às outras truques e segredos, e supriram a complementar suas fraquezas e fortalezas. Por isso voltar para aquele ambiente não as ameaçou nem tolheu, e sim despertou o mesmo grito de guerra que resgatam ora numa atualidade aguerrida e torturada que precisa deste recado do passado mais presente do que nunca.

Porém, um dos maiores destaques para dar vida à toda direção de arte da colossal prisão é de fato o desenho de som tanto pelo trabalho de George Saldanha e Tito Gomes quanto pela mixagem de Bernardo Uzeda. Há sons tão nítidos quanto outros propositalmente confusos para deixar o espectador num estado de imersão entre o delírio e a invasão de privacidade em se sentir como parte da experiência. Aliás, ‘as experiências’, a pregressa e a atual, o poderoso ato de revisitar e trazer à luz, pois as várias vozes e depoimentos são montados de forma a extravasar a imagem com o efeito de som como se a história fosse contada mesmo se estivéssemos de olhos fechados, em um coral lírico, e a imagem passasse a ser bônus sensorial. Além de fazer justiça em reconhecer a potência oratória da voz e inteligência culta de Dilma Rousseff, cujo impacto permanece ecoando por toda a projeção, em completo desacordo com a falsa impressão que as mídias hegemônicas passavam da presidente como se não soubesse se articular muito bem, quando é ela que de fato se torna trilha sonora para ouvidos carentes de lucidez.

Outro dispositivo de uso mais tímido e mais conceitual especialmente explorado pela câmera em analogia de sutilezas e gestos é a reconstituição também de vivências. Isto se dá tanto usando atrizes que emprestam apenas as silhuetas, sombras e deslocamentos em uníssono para emparelhar as cenas do passado que elas viveram e foram torturadas, mas também dançaram e sorriram na cara da desgraça, quanto pelas personagens reais que deitam nos beliches, cozinham e brincam como se revisitassem uma janela interdimensional. Neste momento percebe-se o quanto a direção de fotografia de Tiago Tambelli e o uso de câmera deste e de Jorge Bernardo conseguem um lugar de empatia e intimidade a ponto de poderem se aproximar de rostos e expressões, mãos e dedos, pés e passos para mostrar como as pequenas singularidades convergiam de forma atemporal – tanto pelas “donzelas” que revisitam o passado quanto pelas atrizes que são pegas apenas de soslaio ou fora do foco para se demonstrar quase uma memória etérea. Um recurso que poderia resvalar num certo esvaziamento ou superficialidade ao tirar o foco das verdadeiras protagonistas, mas que, ao olhar deste crítico, conseguem o tom certo de translucidez para deixar passar o que lhes atravessa de forma complementar e jamais substituta. – Num sentido a referenciar, de modo inversamente proporcional, a já citada mencionada Maria Augusta Ramos, desta vez por outro de seus filmes, “Juízo”, onde colocou personagens maiores de idade representando o papel de adolescentes menores de idade, mas trazendo o áudio real das entrevistas originais a invadir e transbordar a realidade do que é encenado ou não.

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É isto que este filme faz: traz à luz o que estava escondido ou na escuridão por tanto tempo. Não pela luta justa que se faz eterna, mas pela facilidade com que o esquecimento volve a negligenciar o que devia ser mais reconhecido e aprendido para que novos tempos não tragam de volta o terror que este país já vivenciou. Um ato histórico de preservação e reapreciação do patrimônio legado… um grito de liberdade… um documento obrigatório… um memento. Um filme! Um filme libelo pelo cinema, pelas mulheres e pelo Brasil, ainda mais num momento em que as mulheres se unem mais do que nunca contra o fascismo e contra o desmantelamento da cultura e educação, fator que pode ser crucial e decisivo para a nação, visto que a população brasileira é formada de mais da metade de mulheres: de mulheres negras, de mulheres periféricas, de mulheres LGBTQ+, e de muitas mais mulheres que ora se unem e contra as quais nenhuma força poderá permanecer de pé.

Leia mais sobre o debate do filme aqui:

http://almanaquevirtual.com.br/51o-festival-de-brasilia-debate-sobre-torre-das-donzelas-e-boca-de-loba/

Para conferir a apresentação do filme no 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, confira aqui:

http://almanaquevirtual.com.br/51o-festival-de-brasilia-apresentacao-da-primeira-noite-competitiva/

Reação ao filme com ovação de pé:

Trailer do filme: