Tra-la-lá

Trabalho musical autoral da dramaturga Vanessa Dantas encanta aos ouvidos e aos olhos

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27 de abril de 2017

O musical infantojuvenil Tra-la-lá”, com texto original de Vanessa Dantas e direção de Ana Paula Abreu, que esteve em cartaz no Teatro Oi Futuro Ipanema entre janeiro e março, marcou alguns importantes momentos nas artes cênicas para a infância, no estado do Rio de Janeiro, neste início de 2017. Dois grandes méritos do projeto são a ótima dramaturgia de Vanessa Dantas e a atuação segura de Anna Bello. Vanessa, que adaptou importantes óperas para o nosso teatro infantil, se aventurou, pela primeira vez, em escrever um texto original inspirado na vida e obra de Lamartine Babo, um dos nossos maiores compositores. Lamartine Babo (1904-1963) compôs canções de vários gêneros, mas foi com as marchinhas carnavalescas que seu nome tornou-se mundialmente conhecido. Em suas músicas predominava o humor refinado e a irreverência. É sua a letra da valsa “Eu sonhei que tu estavas tão linda” e da marchinha “Teu cabelo não nega” essa feita em parceria com os irmãos Valença. Foi criado em ambiente musical, sua mãe e suas irmãs tocavam piano, sua casa era frequentada por vários músicos. Seu talento não tardou a se manifestar. Aos 13 anos de idade, compôs sua primeira valsa “Torturas do Amor” e aos 16 anos, compôs a opereta “Cibele”. Mesmo tendo sido um leigo em técnica musical, Lamartine tinha facilidade para criar melodias perfeitas, resultantes de seu espírito inventivo e altamente versátil. Era torcedor do América e apaixonado por futebol, compôs a letra e a música de hinos para vários clubes do Rio de Janeiro. Em 1925, depois de ser despedido da Light, onde trabalhava como office-boy, pode se dedicar exclusivamente à música. Passou a compor para blocos carnavalescos. Neste ano, conquistou certo prestígio com a marchinha “Foi Você”. Sua primeira marchinha gravada, foi a divertida “Os Calças-Largas”, em que Lamartine debochava dos rapazes que usavam calças boca-de-sino. Em 1937, com a censura imposta pelo Estado Novo de Getúlio Vargas, carnavalescos irreverentes como Lamartine Babo ficaram proibidos de utilizar a sátira em suas composições. Sem a irreverência costumeira, as marchinhas não foram mais as mesmas. Lamartine Babo só casou em 1951, com 47 anos, e morreu vitimado por um enfarte, no dia 16 de Junho de 1963, no Rio de Janeiro, deixando seu nome no rol dos grandes compositores deste país.

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O lindo teatro de títires Tra-la-lá, colabora em criar um ambiente nostálgico e lúdico, na encenação de Ana Paula Abreu. Foto de Rafael Blasi.

Anna Bello - como Juju Balangandã, tem atuação firme e muito segura -, ao lado do bom trabalho de Leonardo Miranda como Seu Voronoff. Foto de Rafael Blasi.

Anna Bello – como Juju Balangandã, tem atuação firme e muito segura -, ao lado do bom trabalho de Leonardo Miranda como Seu Voronoff. Foto de Rafael Blasi.

Sem ser um musical biográfico, e tendo suas inspirações e músicas, como material de escrita cênica; Vanessa Dantas usou a sua experiência, adquirida anteriormente, aliada ao seu talento artístico e sua sensibilidade, e nos proporcionou a descoberta de uma nova dramaturgia para o segmento. Precisa, informativa e poética; sua carpintaria textual foi a grande responsável pela fluidez e pelas escolhas acertadas da direção. Podemos ver neste momento também o surgimento de uma nova autora original, que poderá passear com segurança por um enorme legado musical de nosso país. Junto com Vanessa temos também a consolidação do talento da atriz Anna Bello, e a novidade muito bem vinda em estar à frente de novas produções e idealizações em nosso teatro infantil. Foi com grande entusiasmo que presenciei a sua atuação destacada e teatralizada, e sem poder deixar de mencionar o orgulho de ver aquela mulher, que estreou no teatro para as crianças, comigo, em nosso “Curupira” na década de 90 no CCBB/RJ. Anna, que sempre teve uma linda voz, já fazia parte dos “Flautistas da Pró-Arte”, mas nunca havia atuado no teatro em uma Cia profissional, a Cia Boto-Vermelho. Já tendo a época uma ótima sensibilidade musical, Anna está à vontade, e muito segura, em interpretar o papel de uma das mulheres símbolo da musicografia de Babo: a famosa “Juju Balangandã”.

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O competente elenco, que atua, canta e toca instrumentos, em cena de “Tra-la-lá”. Foto de Rafael Blasi.

A direção de Ana Paula Abreu é segura, e competente. Organizando com limpeza as cenas que passam na praça e no universo em torno da mesma. Tendo um olhar atento em todos os cuidados da encenação e também no enorme respeito com a manipulação do boneco do Lamartine, que passa de mãos em mãos dos atores/manipuladores, sem perder em nenhum momento a organicidade do ato. O espetáculo é aberto por um delicado e competente teatro de formas animadas em manipulação direta. O musical se desenvolve em uma praça. Ela é o ponto de encontro de todos os personagens. Lá, o viúvo Seu Voronoff trabalha com o seu hospital portátil de bonecos e não esconde uma antiga paixão dos tempos de escola por Dona Juju Balangandã, que aparece todos os dias para vender suas bugigangas na praça. Armando Boaventura, artista e músico da praça, e os jovens Pedro (neto de Voronoff) e Tina (neta de Juju) vão ajudar o Seu Voronoff a conquistar novamente o coração de Juju. O cenário de Carlos Alberto Nunes, constrói uma praça tradicional, com coreto; além de um belo teatro de títeres. Tudo com bastante detalhamento. Os figurinos de Carol Lobato são muito expressivos, e a luz de Aurélio de Simoni completa com correção, o espetáculo. A direção musical e arranjos de Marcelo Rezende é também muito sólida, e bem equalizada, para um expressivo repertório que compreende as seguintes canções; “Babozeira”, “Tamanho não é documento”, “Seu Vonoroff”, “Eu sonhei que tu estavas tão linda”, “AEIOU”, “Chegou a hora da fogueira”, “Linda morena”, “Joux Joux Balangandã”, “O teu cabelo não nega mulata”, “Medley de marchinhas”, “Medley dos Hinos de Futebol”, “Eu quero um retratinho de você”, “Canção para inglês ver”, “Ride palhaço”, “Aí, hein!”, “No rancho fundo”, “Eu queria ser ioiô” e “Cantores do rádio”. Os atores Daniel Haidar (Pedro) tem participação destacada no canto, Leandro Castilho (Armando Boaventura) se desenvolve muito bem na comicidade, e Leonardo Miranda (Seu Voronoff) e Isabela Rescala (Tina), se apresentam bem também. Todos tocam instrumentos e cantam acompanhados do percussionista Matias Zibecchi.

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Leandro Castilho como Armando Boaventura se desenvolve muito bem na comicidade. Foto de Rafael Blasi.

Torço para que este bonito projeto tenha vida longa, e possa em breve estar em uma nova temporada, em algum teatro próximo de vocês. Fiquem atentos com este “Trá-la -lá”.

Ficha Técnica

Texto: Vanessa Dantas

Direção: Ana Paula Abreu

Direção Musical e arranjos: Marcelo Rezende

Pesquisa: Pedro Paulo Malta

Idealização: Anna Bello

Direção de Movimento: Eléonore Guisnet-Meyer

Figurino: Carol Lobato

Cenografia: Carlos Alberto Nunes

Iluminação: Aurélio de Simoni

Confecção dos bonecos: Bruno Dante

Audiovisual e Foto: Rafael Blasi

Programação Visual: Clara Meliande

Direção de produção: Renata Blasi

Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais Realização: Doravante Produções Artísticas

Elenco:

Anna Bello (Dona Juju Balangandã)

Daniel Haidar (Pedro)

Isabela Rescala (Tina)

Leandro Castilho (Armando Boaventura)

Leonardo Miranda (Seu Voronoff)

Matias Zibecchi (músico)

 

Serviço

Temporada:  fora de cartaz.

Assessoria de imprensa do espetáculo

Bianca Senna

bianca@astrolabiocom.net

Paula Catunda

paula.catunda@gmail.com

Avaliação Ricardo Schöpke

Nota 5