Trama Fantasma

Último filme da carreira de Daniel Day-Lewis em sua segunda parceria com Paul Thomas Anderson trata de relacionamentos tóxicos com muita elegância

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02 de março de 2018

Um homem mais velho machista, misógino, rude, frio, metódico, ególatra e controlador. Uma mulher jovem doce, tímida, paciente, questionadora e aparentemente inocente. Junte os dois e aí está a fórmula perfeita para um relacionamento tóxico. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da elite e da realeza britânica e internacional. Sua inspiração surge através de mulheres que entram e saem de sua vida, mas tudo muda quando ele conhece Alma (Vicky Krieps), uma mulher inteligente que se torna sua musa e amante.

Escrito e dirigido por Paul Thomas Anderson, “Trama Fantasma” é um elegante estudo de personagens e um retrato da hipocrisia da elite. A reconstituição dos cenários da década de 50 é impecável e a fotografia belíssima em 35 mm com um ar de antiguidade evidencia-a ainda mais. Ao contrário de seu longa-metragem anterior, “Vício Inerente”, que possui um ritmo mais frenético com uma trilha sonora mais pop, humor bem marcado e cores fortes, aqui Anderson conduz uma narrativa de ritmo lento e arrastado com muita atenção aos detalhes e cores neutras com toques de tons frios e escuros que compõem o figurino maravilhoso assinado por Mark Bridges, além da trilha sonora instrumental ao piano incrível de Jonny Greenwood (com quem Anderson trabalhou em seus filmes anteriores), para representar a atmosfera de violência e ressentimento contidos. A dinâmica entre os irmãos Reynolds e Cyril na casa de costura Woodcock é a mesma desde sempre, apesar da alta rotatividade de musas inspiradoras/manequins vivos do estilista, e Alma é a primeira delas a ter coragem e inteligência para enfrentar aquele sistema patriarcal e introduzir um novo pacote de mudanças num lugar estéril repleto de fantasmas, tanto que acaba se tornando um ao longo do percurso.

A nova musa aprende a conviver com a secura e indiferença sob uma capa de refinamento exigido pelo mundo da alta-costura. Como dito pelo próprio Reynolds, “é possível esconder qualquer coisa dentro do forro de um casaco”, e Alma aprendeu muito bem com os dois mestres a esconder seus sentimentos e reais intenções, assim como a personagem Dominika Egorova (Jennifer Lawrence) em “Operação Red Sparrow”. Aliás, uma frase dita pela personagem de Charlotte Rampling neste filme dirigido por Francis Lawrence se encaixa muito bem ao aprendizado de Alma: “todo ser humano é um poço de carência, basta descobrir qual é” – e ela foi certeira na carência de seu amado. Como grande parte dos homens, ela percebeu que Reynolds gostava de ser cuidado e mimado nos poucos momentos em que deixava escapar um pouco de vulnerabilidade pela carapaça dura, algo que sua mãe, única mulher que aparentemente ele dá valor, faria se ainda estivesse viva. Como uma constante em sua vida, Cyril já usava desta estratégia com seu irmão, sendo também uma figura matriarcal de respeito e segurança quando julgava necessário. Tem inicio, então, uma disputa silenciosa de poder entre irmã e amante, interferindo significativamente na rotina meticulosa do estilista cheio de TOCs e vontades.

Anunciado como último filme da carreira de Daniel Day-Lewis antes da aposentadoria, “Phantom Thread” (no original) é a segunda parceria do ator com Paul Thomas Anderson, sendo a primeira em “Sangue Negro” (2007), filme que lhe rendeu um Oscar por sua atuação. Por seu excelente Reynolds Woodcock, Day-Lewis recebeu mais uma indicação à categoria de Melhor Ator, bem como Lesley Manville também foi indicada na categoria Melhor Atriz Coadjuvante por sua ótima Cyril. Só ficou de fora da premiação a até então pouco conhecida em Hollywood Vicky Krieps, uma luxemburguesa que está incrível no longa alemão “A Camareira” e está escalada num papel ainda desconhecido para “A Garota na Teia de Aranha”, quarto livro da série Millennium. As interpretações são, com toda certeza, o ponto alto do filme, até porque o foco de Anderson se concentra nos personagens e nas dinâmicas venenosas-porém-requintadas entre eles. Indicado a mais 4 categorias no Oscar 2018, “Trama Fantasma” definitivamente não é um filme para o grande público; é daqueles filmes que te desafiam a conseguir assisti-lo até o final. Seus 131 minutos podem ser cansativos, mas há uma recompensa em seu desenlace para os que conseguirem manter os olhos fixos na tela.

 

 

Trama Fantasma (Phantom Thread)

EUA – 2017. 131 minutos.

Direção: Paul Thomas Anderson

Com: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps e Lesley Manville.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4