Transtorno

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08 de outubro de 2015

Filmes emblemáticos do filão hollywoodiano, como “Nascido em 4 de  Julho” (1989) e “O Franco Atirador” (1978), aproveitaram com habilidade o tema das consequências do estresse pós-traumático na personalidade de combatentes que voltaram da guerra. No caso dos dois filmes citados, regressados do conflito bélico no Vietnã. Um exemplo bem recente é também digno de nota  − o filme “Sniper Americano” (2014), de Clint Eastwood, que contava a biografia de Chris Kyle (Bradley Cooper), o atirador de elite mais mortal da história dos Estados Unidos. Nem as mais virulentas acusações, que apontavam uma reprovável postura republicana de Eastwood, conseguiram minimizar a eficiência do longa ao expor a mentalidade doente de um neurótico de guerra. Em “Transtorno”, produção francesa de Alice Winocour, o mesmo distúrbio acomete Vincent (Matthias Schoenaerts), um soldado que acabou de voltar dos confrontos no Afeganistão. Mesmo distante das trincheiras, ele não consegue se desvencilhar das sensações aflitivas de quem está na mira do inimigo.

Tentando ignorar a psique debilitada, Vincent aceita um emprego de guarda-costas da bela e enigmática Jessie (Diane Kruger), esposa do libanês Imad Whalid (Percy Kemp) que lucra com transações obscuras, e do filho pequeno do casal. O primeiro contato dele com a família, que vive em uma propriedade privilegiada batizada de Maryland, acontece em uma comemoração particular repleta de sujeitos de caráter duvidoso. Na ocasião, ele faz parte de um grupo de segurança contratado para assegurar a integridade de Imad e de seus convidados. A cineasta Alice Winocour, que não tira todo o proveito do material que tem em mãos, pelo menos aposta na expressão sisuda e convincente do ator principal, bem como em elementos externos − como os sons, movimentos e conversações ao redor − para reforçar a neurose do personagem e a constante permanência do estado de alerta.

Com a intenção de manter alto o nível de mistério, “Transtorno” dá um tiro no próprio pé quando renega esclarecimentos das engrenagens da trama para priorizar um suspense que não consegue se sustentar. Mesmo com as interrogações que incomodam, é incontestável que os anseios de Vincent não se restringem ao delírio persecutório pós-guerra. De fato, a família do libanês corre perigo e o segurança particular, cada vez mais atraído por Jessie e próximo do filho dela, está disposto a protegê-los. Um ângulo ausente que faz falta é o aprofundamento dos traumas de Vincent em sua própria vida pessoal; afinal, durante toda a projeção ele age apenas em função daqueles que é pago para resguardar. Em um dos poucos pontos altos do filme, Vincent elimina com violência irrefreável um invasor da residência sob sua responsabilidade, espécie de alívio aos tormentos de seu psicológico abalado pelas ameaças da guerra.

Festival do Rio 2015

Expectativa 2015

Maryland, França, 2015, 100’

Alice Winocour

Elenco: Matthias Schoenaerts, Diane Kruger, Percy Kemp


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