Travessia

Às vezes, o papel do crítico é errar

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22 de novembro de 2017

(“Vozes-Mulheres”, Conceição Evaristo)

(“Vozes-Mulheres”, Conceição Evaristo)

Assim como a poesia serve de ponte entre o lirismo e a vida comum, de forma a ampliar a alma, às vezes, o papel de um crítico de cinema serve como uma ponte entre o filme e os espectadores, de forma a ampliar o conteúdo ou contexto da obra… De forma a almejar novas perspectivas quando o resultado final daquilo é entregue para o mundo. Cada espectador também vê sua própria poesia, seu próprio filme na tela. Mas para o crítico se comunicar com aquela obra, ele em geral se apoia em palavras. Sem palavras, pressupõe-se que ela não pode ter sua comunicação ampliada. Porém, o que muitos não falam, é um consentimento silencioso de privilégios velados, é que o papel do crítico também envolve errar. E o erro é muito importante. Apenas com o erro o crítico amplia seu próprio conteúdo e contexto, busca outros mundos, e não se isola num mundo privilegiado que tenta fazer de tudo para manter a delicada bolha intacta. Um parquinho de poucas crianças brincando na areia com todos os brinquedos.

Às vezes o papel de uma poesia é prescindir de significados ou explicações. E o papel de um crítico é errar, errar nos significados que atenta dar aos significantes. Sim. Muitos cânones já voltaram atrás de posições antes aparentemente imutáveis. Já retificaram grandes verdades em castelos de areia desmoronados. E o crítico deve com isso se abster de seu maior privilégio: a palavra. Mas como encontrar a comunicação da ponte entre filme e público, entre o lírico e o comum, então? Lembremos que cinema é sinônimo de audiovisual, e ambos, tanto o áudio quanto o visual, são uma via de mão dupla. Pode-se observar…e ser observado. Pode-se falar…e ser escutado. Às vezes um filme não necessita de mais palavras, nem seria sua intenção, apenas necessita ser escutado. Necessita respirar…e ser respirado. Passar pelos pulmões e renovar o mesmo ar que está circulando por séculos, milênios, talvez um pouco mais poluído. Mas o que mudou realmente não foi o ar, nem os pulmões que o respiram. Foi o pensamento em torno dele. E o que um filme pode fazer por você em relação a isso é tomar nosso fôlego a lembrar-nos de respirar, às vezes queimando os pulmões ao passar. E quando o faz, pode deixar uma marca eterna, filme e crítico. Filme e espectador. Arte e ser humano. Uma marca indelével, que se mistura um ao outro, e muda a perspectiva da própria realidade.

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Um destes filmes me marcou assim. E foi através de um erro crítico colossal que ele se ampliou e invadiu ainda mais dentro de mim. O nome do filme é “Travessia” de Safira Moreira, e, não à toa, tanto a palavra pode significar uma ponte quanto um atravessamento, através de algo… Uma jornada para lugares nunca antes vasculhados dentro de si mesmo, através de si. E balançam uma ponte que se achava segura. O filme fala sobre um passado muito recente na História (aquela com H maiúsculo, cuja proporção nos livros e registros apagam e invisibilizam todos os outros lados sob o tamanho de seu ego), onde muitas famílias negras brasileiras não tinham a liberdade de acesso a possuírem seus próprios registros, fotos e memórias guardadas. Muitas famílias nos dias de hoje procuram fotografias de seus ascendentes e não encontram registros ou encontram registros apagados ou invisibilizados (no filme, avós e bisavós aparecem como babás ou empregadas sem nome de pessoas brancas, famílias partidas e apropriadas sem direito da própria memória independente). E isto influenciou todo um imaginário de ausência desde nas grandes mídias à memória íntima e pessoal da construção de personalidade de cada pessoa. Negar ao brasileiro sua própria história é uma sina cruel.

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A partir do poema de Conceição Evaristo, citado no início desse texto, a diretora Safira Moreira tece um potente poema de imagens que atravessam o tempo, em fotos antigas trazidas à tela, quanto em reconstruir a história com novas imagens produzidas com o presente que enfim encontra o passado para o futuro. Poder-se-ia aqui estender uma descritiva analítica igualmente possante sobre a subjetividade da personagem em tela que apresenta as fotos, em closes que lhe realçam o protagonismo em cena ao lado do mesmo passado que apaga sua existência, negado no imaginário do audiovisual brasileiro. Poder-se-ia culminar a descrição no clímax de planos conjuntos de uma união realmente poderosa, de se ocupar o enquadramento com famílias e a riqueza de suas histórias que lhe acompanham o olhar. Porém mais uma vez o crítico estaria diminuindo a obra e seus significados com palavras ao vento.

Até porque a própria crítica, embasbacada ou embevecida do maravilhamento despertado em seu próprio olhar pela direção de fotografia, ou pelas cores que dão vida à tela, tem muito pouco a acrescentar à obra do que a obra tem a dizer por si própria. Tem a dizer quando uma plateia que a recepciona, com os olhos marejados de emoção, enxerga sua própria família ali, retificando a crueldade da História com H maiúsculo que ainda é dada em livros supostamente imutáveis na escola… Senão, esse crítico dividiria da mesma prepotência com que outros tantos já apagaram estas mesmas fotos no passado; e ainda tentam apagar hoje. Este crítico também fez parte subjetivamente deste apagamento, por ter se calado ante a História e não feito parte dos ventos de mudança que levaram suas palavras embora. E a catarse sentida é um preenchimento de sua própria história a que todos têm direito. Os frames e stills se tornam algo mais. Se tornam vivos. Respiram de volta no espectador.

Na foto, Safira Moreira - com o prêmio de melhor curta nacional pelo Júri Jovem na Mostra Panorama 2017

Na foto, Safira Moreira – com o prêmio de melhor curta nacional pelo Júri Jovem na Mostra Panorama 2017

Quando este mesmo crítico desce de sua prepotência e é subitamente atingido num âmago que acreditava estar protegido e escondido, e reconhece familiaridade por empatia ao próximo, ao reconhecer pessoalmente uma das famílias convidadas para dar vida ao poema de Conceição Evaristo, só aí então o crítico se cala. Lembra da cena. Lembra que suas palavras atrapalharam, estavam impedindo de enxergar o caminho. Uma família aparece na tela, uma família que estudou com sua esposa, amigos de faculdade dela, e que você acompanha por osmose o crescimento daquelas crianças. Você sabe da incrível percepção da realidade que aqueles pais estão ensinando às suas crianças, e como o esclarecimento em tão tenra idade daquelas duas crianças é muito maior do que o de toda uma geração, talvez ali presente, num cinema localizado em bairro nobre da zona privilegiada da Cidade Maravilhosa. Ou quando meu sócio de 80 anos, negro, diz que apenas encontrou fotos suas de quando era criança apenas agora, em 2017, com o falecimento de sua mãe que trabalhava como empregada doméstica na família dos outros, porque cresceu sem fotos por muitos e muitos anos de sua vida. Tudo isto num Rio de Janeiro que oculta segregações e discriminações ante os braços abertos do Cristo Redentor, sobre uma Baía da Guanabara que recepcionou a todos nós quando esta terra ainda era unicamente dos índios, ou seja, uma história feita sobre apropriações sem olhar para trás.

Quisera a tela de cinema tirasse uma foto da plateia em resposta à passagem de “Travessia” de Safira Moreira. Quantas famílias estariam ali dispostas? Quantos casais…? Quantas pessoas sozinhas, mas não necessariamente solitárias… De quantas origens e pluralidades? Quanta diversidade a cada vez que este filme passasse por cada região do Brasil e capturasse novos retratos. Seriam eles precisos reflexos do nosso presente? Estariam estes reflexos do olho que mira de volta de fato refletindo a potência na tela? Estimulando o acesso a estas salas e a esta projeção para que o que se vê na tela também possa se ver assistindo em retorno…? Ao crítico, resta o silêncio. Não há resposta. Não precisa haver. Contanto que as perguntas continuem a ser levantadas pelo filme.

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Nisto advém na mente um célebre monólogo do personagem crítico Anton Ego (um nome que já alude às palavras ‘antagonismo’ e ‘ego’) no filme “Ratatouille”, que enfim pode ser desconstruído do próprio pseudo lirismo de sua prepotência: “De muitas formas o trabalho de um crítico é fácil. Geralmente temos muito pouco risco a correr, mas sorvemos da posição de quem se põe sobre a obra daqueles que nos oferecem a mesma para julgamento. Nós prosperamos em críticas negativas, que são divertidas de se escrever e de se ler. Mas a amarga verdade que nós críticos devemos encarar é que no quadro maior das coisas, a obra mais comum é provavelmente mais significativa do que nossa crítica que a designa. Mas há momentos em que o crítico realmente arrisca algo, e é na descoberta e defesa do novo. O mundo geralmente é indelicado com novos talentos, com as novas criações. E o novo precisa de amigos.” – Eis onde Anton Ego errou: pois não é o filme ou o novo que precisam de amigos. É o crítico quem precisa dos filmes, para se desconstruir, para encontrar novos mundos e percepções que não se descobriria sem as obras na tela grande, na sala escura e coletiva, onde o único medo é você não se permitir olhar para dentro de si mesmo.

O filme concorre no momento na 9ª Semana – Festival de Cinema do RJ.