Travessia

Às vezes o papel do crítico é errar

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22 de julho de 2017

(“Vozes-Mulheres”, Conceição Evaristo)

(“Vozes-Mulheres”, Conceição Evaristo)

Assim como a poesia serve de ponte entre o lirismo e a vida comum, de forma a ampliar a alma, às vezes, o papel de um crítico de cinema serve como uma ponte entre o filme e os espectadores, de forma a ampliar o conteúdo ou contexto da obra… De forma a almejar novas perspectivas quando o resultado final daquilo é entregue para o mundo. Cada espectador também vê sua própria poesia, seu próprio filme na tela. Mas para o crítico se comunicar com aquela obra, ele em geral se apoia em palavras. Sem palavras, pressupõe-se que ela não pode ter sua comunicação ampliada. Porém, o que muitos não falam, é um consentimento silencioso de privilégios velados, é que o papel do crítico também envolve errar. E o erro é muito importante. Apenas com o erro o crítico amplia seu próprio conteúdo e contexto, busca outros mundos, e não se isola num mundo privilegiado que tenta fazer de tudo para manter a delicada bolha intacta. Um parquinho de poucas crianças brincando na areia com todos os brinquedos.

Às vezes o papel de uma poesia é prescindir de significados ou explicações. E o papel de um crítico é errar, errar nos significados que atenta dar aos significantes. Sim. Muitos cânones já voltaram atrás de posições antes aparentemente imutáveis. Já retificaram grandes verdades em castelos de areia desmoronados. E o crítico deve com isso se abster de seu maior privilégio: a palavra. Mas como encontrar a comunicação da ponte entre filme e público, entre o lírico e o comum, então? Lembremos que cinema é sinônimo de audiovisual, e ambos, tanto o áudio quanto o visual, são uma via de mão dupla. Pode-se observar…e ser observado. Pode-se falar…e ser escutado. Às vezes um filme não necessita de mais palavras, nem seria sua intenção, apenas necessita ser escutado. Necessita respirar…e ser respirado. Passar pelos pulmões e renovar o mesmo ar que está circulando por séculos, milênios, talvez um pouco mais poluído. Mas o que mudou realmente não foi o ar, nem os pulmões que o respiram. Foi o pensamento em torno dele. E o que um filme pode fazer por você em relação a isso é tomar nosso fôlego a lembrar-nos de respirar, às vezes queimando os pulmões ao passar. E quando o faz, pode deixar uma marca eterna, filme e crítico. Filme e espectador. Arte e ser humano. Uma marca indelével, que se mistura um ao outro, e muda a perspectiva da própria realidade.

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Um destes filmes me marcou assim. E foi através de um erro crítico colossal que ele se ampliou e invadiu ainda mais dentro de mim. O nome do filme é “Travessia” de Safira Moreira, e, não à toa, tanto a palavra pode significar uma ponte quanto um atravessamento, através de algo… Uma jornada para lugares nunca antes vasculhados dentro de si mesmo, através de si. E balançam uma ponte que se achava segura. O filme fala sobre um passado muito recente na História (aquela com H maiúsculo, cuja proporção nos livros e registros apagam e invisibilizam todos os outros lados sob o tamanho de seu ego), onde muitas famílias negras brasileiras não tinham a liberdade de acesso a possuírem seus próprios registros, fotos e memórias guardadas. Muitas famílias nos dias de hoje procuram fotografias de seus ascendentes e não encontram registros. E isto influenciou todo um imaginário de ausência desde nas grandes mídias à memória íntima e pessoal da construção de personalidade de cada pessoa. Negar ao brasileiro sua própria história é uma sina cruel.

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A partir do poema de Conceição Evaristo, citado no início desse texto, a diretora Safira Moreira tece um potente poema de imagens que atravessam o tempo, em fotos antigas trazidas à tela, quanto em reconstruir a história com novas imagens produzidas com o presente que enfim encontra o passado para o futuro. Poder-se-ia aqui estender uma descritiva analítica igualmente possante sobre a subjetividade da personagem em tela que apresenta as fotos, em closes que lhe realçam o protagonismo em cena ao lado do mesmo passado que apaga sua existência, negado no imaginário do audiovisual brasileiro. Poder-se-ia culminar a descrição no clímax de planos conjuntos de uma união realmente poderosa, de se ocupar o enquadramento com famílias e a riqueza de suas histórias que lhe acompanham o olhar. Porém mais uma vez o crítico estaria diminuindo a obra e seus significados com palavras ao vento.

Até porque a própria crítica, embasbacada ou embevecida do maravilhamento despertado em seu próprio olhar pela direção de fotografia, ou pelas cores que dão vida à tela, tem muito pouco a acrescentar à obra do que a obra tem a dizer por si própria. Tem a dizer quando uma plateia que a recepciona, com os olhos marejados de emoção, enxerga sua própria família ali, retificando a crueldade da História com H maiúsculo que ainda é dada em livros supostamente imutáveis na escola… Senão, esse crítico dividiria da mesma prepotência com que outros tantos já apagaram estas mesmas fotos no passado; e ainda tentam apagar hoje. Este crítico também fez parte subjetivamente deste apagamento, por ter se calado ante a História e não feito parte dos ventos de mudança que levaram suas palavras embora. E a catarse sentida é um preenchimento de sua própria história a que todos têm direito. Os frames e stills se tornam algo mais. Se tornam vivos. Respiram de volta no espectador.

Na foto, Safira Moreira - com o prêmio de melhor curta nacional pelo Júri Jovem na Mostra Panorama 2017

Na foto, Safira Moreira – com o prêmio de melhor curta nacional pelo Júri Jovem na Mostra Panorama 2017

Quando este mesmo crítico desce de sua prepotência e é subitamente atingido num âmago que acreditava estar protegido e escondido, e reconhece familiaridade por empatia ao próximo, ao reconhecer pessoalmente uma das famílias convidadas para dar vida ao poema de Conceição Evaristo, só aí então o crítico se cala. Lembra da cena. Lembra que suas palavras atrapalharam, estavam impedindo de enxergar o caminho. Uma família aparece na tela, uma família que estudou com sua esposa, amigos de faculdade dela, e que você acompanha por osmose o crescimento daquelas crianças. Você sabe da incrível percepção da realidade que aqueles pais estão ensinando às suas crianças, e como o esclarecimento em tão tenra idade daquelas duas crianças é muito maior do que o de toda uma geração, talvez ali presente, num cinema localizado em bairro nobre da zona privilegiada da Cidade Maravilhosa. Um Rio de Janeiro que oculta segregações e discriminações ante os braços abertos do Cristo Redentor, sobre uma Baía da Guanabara que recepcionou a todos nós quando esta terra ainda era unicamente dos índios.

Quisera a tela de cinema tirasse uma foto da plateia em resposta à passagem de “Travessia” de Safira Moreira. Quantas famílias estariam ali dispostas? Quantos casais…? Quantas pessoas sozinhas, mas não necessariamente solitárias… De quantas origens e pluralidades? Quanta diversidade a cada vez que este filme passasse por cada região do Brasil e capturasse novos retratos. Seriam eles precisos reflexos do nosso presente? Estariam estes reflexos do olho que mira de volta de fato refletindo a potência na tela? Estimulando o acesso a estas salas e a esta projeção para que o que se vê na tela também possa se ver assistindo em retorno…? Ao crítico, resta o silêncio. Não há resposta. Não precisa haver. Contanto que as perguntas continuem a ser levantadas pelo filme.

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Nisto advém na mente um célebre monólogo do personagem crítico Anton Ego (um nome que já alude às palavras ‘antagonismo’ e ‘ego’) no filme “Ratatouille”, que enfim pode ser desconstruído do próprio pseudo lirismo de sua prepotência: “De muitas formas o trabalho de um crítico é fácil. Geralmente temos muito pouco risco a correr, mas sorvemos da posição de quem se põe sobre a obra daqueles que nos oferecem a mesma para julgamento. Nós prosperamos em críticas negativas, que são divertidas de se escrever e de se ler. Mas a amarga verdade que nós críticos devemos encarar é que no quadro maior das coisas, a obra mais comum é provavelmente mais significativa do que nossa crítica que a designa. Mas há momentos em que o crítico realmente arrisca algo, e é na descoberta e defesa do novo. O mundo geralmente é indelicado com novos talentos, com as novas criações. E o novo precisa de amigos.” – Eis onde Anton Ego errou: pois não é o filme ou o novo que precisam de amigos. É o crítico quem precisa dos filmes, para se desconstruir, para encontrar novos mundos e percepções que não se descobriria sem as obras na tela grande, na sala escura e coletiva, onde o único medo é você não se permitir olhar para dentro de si mesmo.

O filme concorre no momento na 9ª Semana – Festival de Cinema do RJ.