Tremor Iê

Ceará fervilhando de cinema contra a opressão

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23 de janeiro de 2019

“Tremor Iê” é um filme de longa-metragem cearense de Elena Meirelles e Lívia de Paiva e com Deyse Mara, Lila M. Salú, Micinete Lima, Sarah Nobre. A obra foi a segunda estreia na principal competição da 22° edição do Festival de Cinema de Tiradentes, a Mostra Aurora.

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Apesar de se tratar de uma obra de ficção, ainda mais com toques de distopia, o nível de rigidez e o animus execucionista das forças policiais atualmente no Ceará, espalhado por todos os jornais contemporâneos, faz quase parecer que estamos lidando com um documentário e não um sci-fi. Quanto mais louca a realidade se torna mais difícil de a ficção superá-la. Tanto que o mais curioso é que, na competição do Festival de Brasília do ano passado, já havíamos podido conferir outra produção cearense distópica, naquela ocasião em formato de curta-metragem, e com equipe predominantemente formada por mulheres: “Boca de Loba” de Bárbara Cabeça. E os dois trabalhos se correlacionam muitíssimo, afinal, não à toa, compartilham alguns membros coincidentes na equipe de ambos, como a produtora Polly Di.

Para ser mais preciso ainda, parece até que um é continuação do outro, mas no sentido invertido, pois parece que onde o longa-metragem “Tremor Iê” acaba é onde o curta “Boca de Loba” começa. Quem diria que um curta distópico e quase surrealista sobre um grupo de mulheres que decide formar um grupo de vigilantes ativistas contra o estado opressor, numa espécie de nirvana de sororidade no intervalos de luta, se tornaria não apenas crível como indissociável na batalha pela democracia desde o resultado nefasto das últimas eleições. Sendo talvez ainda mais necessário olhar para trás e enxergar como tudo se sucedeu, vide o longa “Tremor Iê”, que começa com relatos pregressos de personagens que foram presas nas manifestações de 2013 (especialmente as ótimas Lila Salú e Deyse Mara), e que agora se reagrupam para o novo levante fazer tremer.

O que definitivamente não é coincidência foi o fato de apenas ser possível existir estes dois filmes além de muitos outros que teorizam, criticam e metaforizam o Golpe Parlamentar de 2016 e suas consequências em produções 100% cearenses justamente devido a políticas públicas das administrações anteriores — que os atuais governos estaduais e federal tentam desmantelar. A exemplo de outras regiões do Nordeste como João Pessoa na Paraíba que também nunca produziu tantos filmes como nos últimos anos, especialmente longas-metragens, Fortaleza e todo o Ceará estão mais prolíficos do que nunca. Seja a prodigiosa família Cariry com o pai Rosemberg e os filhos também cineastas Petrus e Bárbara, seja o sucesso de bilheteria das comédias de Halder Gomes, ou mesmo membros do coletivo Alumbramento que gerou nomes potentes como o aclamado diretor Guto Parente (que faz participação especial no longa “Tremor Iê:). Porém, dá ainda mais orgulho de ver que esta nova obra competindo na importante Mostra Aurora em Tiradentes é dirigida justamente por mulheres e realizada coletivamente por maioria feminina.

Conjugou com o fato de a sessão de “Tremor Iê” ter sido logo após um debate sobre “A Diversidade no Curta-Metragem brasileiro”, e o próprio tema é bastante problemático, porque muitas destas pessoas que estão fazendo curtas gostariam também de estar fazendo longas e não é por falta de assunto ou de talento, mas sim porque até mesmo os editais ainda vêem questões de micropolíticas e pluralidades sociais como menores dentro do grande espectro da arte. Tanto que “Boca de Loba” ja havia sido um de meus curtas-metragens favoritos em Brasília ano passado e a temática do feminismo ou mesmo da homoafetividade entre mulheres foi vista por terceiros como “nichada demais”, ou como um filme performance mais do que um filme propriamente dito — o que era uma visão distorcida de muitos que ainda impõem um cânone excludente do cinema clássico como única tabula referencial. E a mesa do debate tocou justamente no assunto de se renovar as referências e buscar visibilizar outras fontes que a imprensa e a crítica não conseguem desconstruir de seu olhar hegemônico… Pois que se faz justamente obrigatório buscar outros referenciais para poder se avaliar “Tremor Iê” como longa afora dos nichos que gostariam de categorizá-lo.

É um filme performance? Mas isso seria uma questão negativa para sua avaliação? E a performance não pode conter dramaturgia clássica? Eis a questão. A obra bebe de muitas fontes que podem ou não ter sido conscientes ou apenas encontradas por buscas similares no espaço-tempo. Há de exemplos o cult quase desconhecido no Brasil pela grande cinefilia chamado “Feminino Plural” de Vera de Figueiredo, um filme performance distópico e feminista. Bem como “Born in Flames” de Lizzie Borden onde um grupo de mulheres usando patins e apitos e tacos de hóquei se tornam uma defesa armada nas ruas contra o patriarcado e violências machistas. Mas existem clássicos atuais que também merecem ser imediatamente reconhecidos como inescapáveis, como as obras de Adirley Queirós, “Branco Sai, Preto Fica” e “Era Uma Vez Brasília”, e até mesmo a pequena joia rara “Com o Terceiro Olho na Terra da Profanação” de Catu Rizo que precisa ser redescoberta a todo instante.

O fato é que “Tremor Iê” consegue tirar muito criativamente de poucos recursos, emulando um futuro distorcido das ruas do Ceará de agora. Os guardas vestidos quase como seres mecanizados higienistas, algo meio “1984” de George Orwell, são alguns dos poucos adereços da direção de arte ou do figurino a explicitar o salto no tempo. No demais, é quase tudo no campo da sutileza. Das paisagens paradisíacas transformadas em trincheira de resistência, como o pôr-do-sol do alto das dunas de areia sobre a cidade — horizontes reais que parecem futuristas na utilização, mas só quem já esteve lá e viu com os próprios olhos sabe como é. Ou mesmo a crítica implícita no pano de fundo aos grandes empreendimentos e arranha-céus inacabados, filmados em contra-plongé, provenientes de especulação imobiliária que assola Fortaleza.

Mas também é a sutileza dos relatos contados por essas figuras da resistência quase feitas de fantasmagoria, que precisam ser etéreas no tempo e na lembrança para transitarem pela opressão. Isso sem falar que muitos destes relatos que materializam o futuro para a plateia são compostos por longos monólogos à meia luz, o que às vezes podem ter resultados mais eficazes ou não. Podemos citar de exemplo a longa sequência da fogueira crepitando durante a oralidade da cena, que para mim é uma das que mais funciona, apesar de quebrar a lógica de que a regra pudesse ser funcionar melhor no filme as curtas cenas menos interiorizadas e mais explícitas em seus relatos, tornando o filme mais dinâmico em meio à reflexão existencialista.

Mas não é só através de contação de memórias que surge a mise-en-scène, pois há ótimos momentos musicados, seja diegeticamente ou não, com letras escritas pelas próprias atrizes coletivamente. Até a arte em desenho que ilustra alguns segmentos do filme foi feito por contribuição de artista de forma cooperativa e solidária para o filme. O exemplo de sororidade atrás das câmeras é exemplar, mesmo que talvez o espectador não tenha como saber disso de início para embasar a sua experiência. Pode soar às vezes como um pouco hermético o pacote final.

E há uma insistência por parte da projeção em teclar mais na tecla da denúncia e exposição das mazelas (mesmo que amenizadas pela contação e não pela materialização do sofrimento alheio), espiralando o sofrimento sem necessariamente exotificá-lo, do que um alívio em teclar no contra-ataque e na reconstrução do imaginário positivo afirmativo. É o plano de tomar de assalto essa força policial fascista ao final do filme que levanta a moral da denúncia e deixa o espectador sair com um saldo positivo de luta ganha. O que, talvez, desembocar no Curta-Metragem “Boca de Loba” possa dirigir ou influenciar o primeiro contato deste crítico com a obra… Mas pode ser um ponto fraco em não poder ter a mesma conjugação valorativa no extracampo para quem desconheça ao menos uma das peças que montam de forma mais completa este quebra-cabeças.

Se quiserem rever debate com membros da equipe de “Boca de Loba” em Brasília, vide abaixo, e em breve traremos o debate de “Tremor Iê” em Tiradentes.