Tribunal inquisitório na indústria do entretenimento

“Logan” na fogueira.

por

20 de março de 2017

Mutante mais amado dos quadrinhos e da telona, Wolverine, caiu na patrulha do radicalismo com seu novo filme solo, “Logan” (Idem – 2017), que estreou nas salas brasileiras há algumas semanas. Supostamente marcando a despedida de Hugh Jackman do personagem que interpretou por 17 anos, o longa elevou as produções estreladas por super-heróis ao patamar das obras-primas e já arrecadou mais de US$ 440 milhões em bilheterias mundo afora.

Hugh Jackman interpretou Wolverine em nove filmes nos últimos 17 anos (Foto: Divulgação).

Hugh Jackman interpretou Wolverine em nove filmes nos últimos 17 anos (Foto: Divulgação).

Durante muitos anos, o cinema apostou mais em personagens masculinos fortes do que em femininos, criando certo desequilíbrio em suas safras, o que tem sido bastante criticado de uns tempos para cá. A busca incessante por representatividade e diversidade – não apenas de gênero – no showbusiness tem gerado frutos gradativamente. É uma busca necessária por igualdade, mas que tem sido suprimida e ofuscada pelo radicalismo de uma parcela que deseja superioridade. Com isso, pode-se observar uma nova tendência: repúdio aos filmes protagonizados por personagens homens, sobretudo heterossexuais, ocasionando uma enxurrada de críticas negativas a tais produções, especialmente populares.

Nos últimos dias, “Logan” tem causado burburinho numa famosa rede social após um texto, que deve ser encarado como sátira, viralizar rapidamente. Porém, o problema não é a sua rápida propagação, pois se trata de um texto digno do Sensacionalista, mas o fato de ser compartilhado por alguns com a indevida seriedade.

No entanto, o texto reflete a maneira com a qual muitas produções têm sido encaradas atualmente. Sim, mesmo com uma personagem feminina de destaque, a pequena Laura / X-23 (Dafne Keen), “Logan” tem um protagonista masculino forte que precisa encarar sua iminente finitude, mas que em outros tempos era sinônimo de virilidade, o típico macho alfa. Defendido com unhas, dentes e garras por Hugh Jackman, o mutante da Marvel tem força suficiente para levar sozinho qualquer produção. E, por esta razão, caiu na blitz.

Dafne Keen em cena com Hugh Jackman e Patrick Stewart (Foto: Divulgação).

Dafne Keen em cena com Hugh Jackman e Patrick Stewart (Foto: Divulgação).

Esta é uma patrulha às avessas, se comparada com a instituída pelo Código Hays, também conhecido como Administração do Código de Produção, que colocou Hollywood sob o jugo da censura a partir de 1930, algo intensificado com o macarthismo no período da Guerra Fria, numa época em que a liberdade artística era cerceada para não afrontar de alguma maneira a Igreja e a sociedade, ao menos, sua fatia conservadora. E a figura feminina é uma das protagonistas do passado e da atualidade, mas de maneiras completamente distintas.

Rita Hayworth como Gilda (Foto: Divulgação).

Rita Hayworth como Gilda (Foto: Divulgação).

Quando o Código Hays vigorava, entre 1930 e 1968, a menor insinuação significava problema para estúdios, diretores, roteiristas, atores, entre outros. Uma simples cena de beijo era objeto de censura, bem como apresentar a mulher de forma sensual era considerado pura subversão, mesmo numa sociedade extremamente machista – vide a polêmica em torno de “Gilda” (Idem – 1946) por causa de uma cena de striptease em que Rita Rayworth tira apenas uma luva, ao som de “Put the Blame on Mame”. Afinal, a família, enquanto instituição, não poderia ser corrompida de nenhuma maneira. Hoje, não há esta preocupação conservadora e de cunho familiar, mas há a de conceder à mulher o mesmo espaço e protagonismo que o homem, gerando críticas àqueles que a “ignoram” em determinado momento.

Obviamente, a preocupação é válida e necessária. Contudo, há de se considerar que nem todas as produções, cinematográficas ou televisivas, necessitam de uma personagem feminina forte, o que não é aceito pela fatia radical do movimento feminista, classificada de femismo por mulheres que se opõem a ela. Com isso, em meio à busca por superioridade pregada pelo femismo, estabeleceu-se um tribunal inquisitório que deseja criar uma espécie de sistema de cotas na indústria do entretenimento como um todo – deixando para o homem uma parcela irrisória.

Este tribunal é tão prejudicial quanto o Código Hays e incorre no mesmo erro: a perseguição desenfreada e nonsense. Mais do que isso, pode oferecer produtos desprovidos de qualidade e vendidos equivocadamente como exemplos de empoderamento feminino. Como “Caça-Fantasmas” (Ghostbusters – 2016), reboot do clássico homônimo lançado em 1984. Lembra? Pois bem, vendido como símbolo máximo de empoderamento feminino no cinema americano em 2016, trata-se de um filme desastroso e pretensioso que ofende qualquer mulher que se recuse a ser retratada como idiota e histérica.

O quarteto de “Caça-Fantasmas”: Leslie Jones, Melissa McCarthy, Kristen Wiig e Kate McKinnon (Foto: Divulgação).

O quarteto de “Caça-Fantasmas”: Leslie Jones, Melissa McCarthy, Kristen Wiig e Kate McKinnon (Foto: Divulgação).

“Caça-Fantasmas” é uma produção que se tornou estereotipada e um grande equívoco cinematográfico ao optar pela fórmula da caricatura grotesca de personagens originalmente masculinos, refletindo desde seus primeiros minutos a mediocridade da indústria hollywoodiana, que há tempos sofre as consequências de sua falta de criatividade e coragem para se arriscar mais em suas produções, voltando ao passado para tentar garantir lucro no presente. Entretanto, o estereótipo atinge níveis elevadíssimos não apenas no que diz respeito ao quarteto principal, mas aos personagens masculinos, principalmente Kevin, interpretado Chris Hemsworth, popularmente conhecido como o Thor dos filmes da Marvel.

Dono de uma beleza estonteante, Kevin é um homem covarde e fútil, que só se preocupa com amenidades e com a própria aparência. Contratado como ajudante do quarteto, o personagem é tão burro quanto uma porta e é visto – e tratado – como objeto de desejo. Por este motivo, é erroneamente considerado por alguns como uma vingança à má representação feminina no cinema, ignorando o fato de que não foram poucas as vezes que este meio de comunicação de massa apostou suas fichas em personagens deste tipo, inclusive em filmes essencialmente masculinos.

Chris Hemsworth como o ajudante burro e fútil em “Caça-Fantasmas” (Foto: Divulgação).

Chris Hemsworth como o ajudante burro e fútil em “Caça-Fantasmas” (Foto: Divulgação).

“Caça-Fantasmas” ainda tem outro ponto curioso que não foi criticado por quem afirma discursar em prol de respeito e igualdade, contra todo e qualquer tipo de preconceito: os metaleiros, homens e mulheres, representados no filme como fãs de Ozzy Osbourne, surgem na tela sob a arcaica e preconceituosa caricatura de adoradores do demônio. Não à toa, este longa se tornou um dos fracassos de bilheteria de 2016 – orçado em US$ 144 milhões, arrecadou pouco mais de US$ 193 milhões em todo o mundo.

No ano passado, em meio à polêmica do chamado Oscar So White, a presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood (Academy of Motion Picture Arts and Sciences – AMPAS) teve de se explicar diversas vezes sobre a falta de diversidade no Oscar, principalmente em relação a negros e mulheres. Em comunicado oficial divulgado à época, Cheryl Boone Isaacs disse: “Em 2016, o tema é a inclusão em todas as suas faces: gênero, raça, etnia e orientação sexual”. Na verdade, isto tem de ser válido em qualquer período, mas para todos, sem nenhuma exceção. A perseguição à representação masculina no cinema e na TV transcende o radicalismo para abraçar o ridículo, uma vez que a conquista de um espaço por uma mulher, não obriga ou significa a renúncia de um homem. Isto tem de ser lembrado sempre, pois a busca tem de ser por igualdade, jamais por superioridade de quem quer que seja.