Troca de Rainhas

Filme franco-belga baseado em livro histórico expõe o absurdo do casamento infantil no século XVIII por interesses políticos

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16 de agosto de 2018

Adaptação do livro histórico “L’Échange des Princesses”, de Chantal Thomas, que assina o roteiro com o também diretor Marc Dugain, “Troca de Rainhas” expõe o modo como os regentes da França e da Espanha decidiram a paz após anos de guerra em 1721, com uma troca de princesas que balançam os jogos de poder na Corte com atitudes inesperadas. Luís XV com 11 anos, prestes a se tornar rei, então se casa com a Infanta da Espanha, Anna Maria Victoria, de 4 anos (é isso mesmo o que você leu), e Felipe de Orléans casa a filha Louise-Elisabeth d’Orleans, a Mademoiselle de Montpensier, de 12 anos, com o herdeiro do trono da Espanha, de 14 anos.

Como a maioria dos filmes históricos, “L’Échange des Princesses” (no original) possui fotografia, mise-en-scène e figurinos belíssimos e impecáveis – algumas cenas parecem verdadeiras pinturas, principalmente em planos médios e abertos. O que mais ressalta aos olhos do espectador, no entanto, é o absurdo dos casamentos forçados de crianças, em especial da menina de 4 anos, por pura política, para selar uma aliança de paz entre dois países. É interessante notar também a diferença de postura das duas princesas perante a situação: enquanto Louise-Elisabeth (Anamaria Vartolomei) se mantém revoltada e arisca após a união com herdeiro do trono espanhol (Kacey Mottet Klein), Anna Maria Victoria (Juliane Lepoureau), que mais parece uma delicada boneca de porcelana, aceita a nova condição com alegria, finesse e satisfação, ciente de sua posição de futura rainha da França, tentando sempre criar uma proximidade com seu marido Luís XV (Igor van Dessel), que rejeita completamente a sua presença devido à sua idade, mesmo que por amizade. É bom saber que Luís XV tinha consciência do disparate, mas a forma indiferente com que ele trata a pequena esposa chega a dar pena. É possível, inclusive, levantar um debate sobre o casamento infantil, que ocorre ainda hoje em alguns países para as mulheres, e a expectativa de vida da época em relação à da contemporaneidade, já que no século XVIII era comum viver apenas até os 35 anos, sendo impensável morrer aos 80 anos como acontece muito hoje em dia.

Indicado ao Prêmio César 2018, “Troca de Rainhas” é uma excelente adaptação de um fato histórico, muito bem conduzida por Dugain, que prima pela direção de atores e pelos planos que lembram pinturas, que são, ao mesmo tempo, belos de se ver e sufocantes de se viver para os personagens presos a escolhas que não puderam fazer. Mais um ótimo longa-metragem histórico francês, que foi um dos destaques do Festival Varilux de Cinema Francês 2018.

 

 

Troca de Rainhas (L’Échange des Princesses)

Bélgica / França – 2017. 100 minutos.

Direção: Marc Dugain

Com: Lambert Wilson, Anamaria Vartolomei, Olivier Gourmet, Igor van Dessel, Juliane Lepoureau e Catherine Mouchet.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4