Tropykaos

Um dos Destaques da 7ª Semana dos Realizadores põe política em xeque de ebulição sócio-climática

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05 de abril de 2018

*Crítica originalmente publicada em 29 de novembro de 2015 por Filippo Pitanga no Almanaque Virtual, durante a 7ª Semana – Festival de Cinema (ex- Semana d_s Realizador_s).

Verão. Uma estação do ano associada no Brasil a férias e praias. Mas pra quem ainda está trabalhando para sobreviver, há uma sofrência no calor extremo, na insolação, que causa delírios e piora os transportes lotados, a falta de alimentação saudável, e o estresse da rotina. “Tropykaos” de Daniel Lisboa trata exatamente sobre isso e, mesmo se passando em Salvador/Bahia, carrega uma universalidade que poderia se situar em qualquer região assolada por estes estigmas sócio-climáticos, como o Rio de Janeiro por exemplo.

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Um dos toques mais engenhosos do realizador foi justamente este: tratar o direito do protagonista a um ar condicionado para sair do sufoco e letargia mental, que o calor extremo pode causar, como metáfora de direitos políticos frente à repressão conformista da inércia governamental. Apesar de o filme não precisar explicitar quaisquer causas partidárias ou afins, é muito mais pungente em retratar a força da mídia sobre os cidadãos. De rádio à televisão, somos bombardeados por comercial e marketing de como deveria ser a vida. E, de Rio a Salvador, o sofrimento anual geralmente alcança um pico e alívio no Carnaval, festa tratada como lavagem cerebral escapista do brasileiro no maior ponto de ebulição da panela de pressão. Não à toa, o protagonista é um poeta em estado de penúria, e recebeu verba adiantada do governo para entregar seu trabalho de abertura das festas, caso contrário terá de devolver o dinheiro, e é no calor que encontra sua nêmese.
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Já ganhador de prêmios como melhor filme no 12º Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte por “O Sarcófago”, o realizador Daniel Lisboa em seu primeiro longa de ficção concentra a narrativa visual na degradação física do protagonista defendido com segurança por Gabriel Pardal. Essa tensão crescente ajuda a dar ares de thriller, sempre com o Sol como ponto de referência na fotografia, seja para reafirmá-lo ou negá-lo, na luz ou nas sombras. Mas além de boa participação de Fabrício Boliveira (de “Faroeste Caboclo”), é Manu Santiago quem rouba cenas no papel da namorada do protagonista. Seu personagem aflora e legitima na história a razão da poesia como uma forma pura de questionamento independente da moral, há de exemplo na cena em que recita uma batalha em mesa de bar na penumbra dos ombros do namorado, igual uma balança da consciência dele. E é também quem acrescenta temas como feminismo e justiça social, os quais infelizmente não têm mais tempo em tela pela necessidade de manter o trabalho coeso com a proposta original, o que Daniel consegue com êxito. Sendo o próprio diretor um poeta, a câmera e a fotografia apontam bastante para cenas bastante pictóricas, combinando com os versos do contexto narrativo. As tomadas do apartamento obscuro, principalmente quando vai se enclausurando em torno do buraco do ar condicionado escangalhado, dão camadas extras ao enlouquecimento e martírio auto-infligido, contrastando com a combustão espontânea das cenas externas e as cores vertiginosas e fosforescentes do poder midiático. Um ótimo desafio visual demonstrando promessa forte de mais um cineasta baiano da nova onda do cinema brasileiro, além de um alerta climático ao meio ambiente.

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Mostra Tiradentes – Mostra Tiradentes em São Paulo

7ª Semana dos Realizadores 2015

Tropykaos (idem)

Brasil, 2015. 100 min

De Daniel Oliveira

Com: Gabriel Pardal, Manu Santiago, Dellani Lima, Fabricio Boliveira

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4