Tudo que Aprendemos Juntos

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14 de outubro de 2015

Sérgio Machado, diretor e roteirista, é um nome fundamental por trás de importantes produções cinematográficas no Brasil. Foi ele quem assinou o roteiro de obras-primas como “Abril Despedaçado” (2001), de Walter Salles, e “Madame Satã” (2002), de Karim Aïnouz, além de ter dirigido o filme “Cidade Baixa” (2005), com Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga como as pontas de um triângulo amoroso caracterizado por ebulições vulcânicas. Em seu mais recente filme, “Tudo que Aprendemos Juntos”, nova parceria com o baiano Lázaro Ramos, Sérgio Machado é o maestro de um roteiro de cunho social, baseado na peça de Antonio Ermínio de Moraes, “Acorda Brasil”, e na formação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, comunidade localizada em São Paulo. Na trama, Lázaro Ramos é Laerte, um virtuose do violino que, por nervosismo, não passou na audição de ingresso da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo). Com o sonho despedaçado e as dívidas que não param de chegar, Laerte aceita a oportunidade de lecionar música para jovens carentes de Heliópolis.

O filme “Tudo que Aprendemos Juntos”, impulsionado pela mensagem de esperança, pode ser considerado um importante instrumento de reflexão aos que pretendem analisar a relação conflituosa entre menores infratores, ou apenas em estado de vulnerabilidade, e a lei brasileira. Uma interação tão catastrófica que incitou a discussão, com requintes de ódio, dos que são a favor ou contra a redução da maioridade penal no país. Ao aceitar o trabalho na comunidade por pura necessidade financeira, Laerte estabelece contato direto com problemas que, na própria pele, ele desconhecia. No território hostil da favela paulista, ele é testemunha dos jovens atraídos pela promessa do crime, tal qual ferro no ímã, além de outras mazelas comuns nessa sociedade negligenciada, como alcoolismo, abandono, gravidez na adolescência e violência entre as quatro paredes de casa.

Aos que preferem abandonar os menores, marginalizados ou próximos dessa realidade, à irreversibilidade comportamental sob a afirmação da causa perdida, “Tudo que Aprendemos Juntos” ensina, paralelamente às valiosas lições de Laerte, que essa crise social tem remédio. Doses imoderadas de atenção, de introdução à disciplina e da valorização de talentos são medidas que podem ajudar muito na mudança gradativa do cenário. Com direção marcada por poucas amenidades, Sérgio Machado vai ainda mais além ao materializar a guerra entre os pobres e a polícia na reconstituição de uma operação policial na favela. O resultado é trágico, mas efetivo ao conscientizar o protagonista Laerte da sua verdadeira missão ― um papel assistencial que vai muito além do engrandecimento que ele tanto desejava no início do filme, quando perdeu a vaga na Osesp. Finalmente, Laerte torna-se muito mais do que artista obcecado com a carreira; em Heiliópolis, ele vira agente de mudança.

Festival do Rio 2015

Première Brasil: Competição Longas de Ficção

Tudo que Aprendemos Juntos, Brasil, 2015, 102’

Sérgio Machado

Elenco: Lázaro Ramos, Kaique Jesus, Elzio Vieira


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