Tudo Vai Ficar Bem

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12 de outubro de 2015

O cineasta alemão Wim Wenders, diretor de filmes aclamados como “Paris, Texas” (1984) e “Asas do Desejo” (1987), dirige em “Tudo Vai Ficar Bem” um drama potencializado pelas dimensões do 3D, recurso técnico atrelado às produções de ação, mas que aqui serve para aproximar o espectador das sofridas vivências dos personagens. Sob a batuta do experiente diretor, situam-se rostos conhecidos do grande público, um elenco encabeçado por James Franco, Rachel McAdams e Charlotte Gainsbourg, e temas que estão longe de ser novidade no cinema ― crise nas relações conjugais, bloqueio criativo (Federico Fellini que o diga) e traumas do passado que deixam cicatrizes, “Anticristo” (2009) de Lars Von Trier é um exemplo cabal. Todas essas questões estão concentradas em Tomas Eldan (James Franco), um escritor em um período de crise tanto pessoal quanto profissional: está sem vigor na produção escrita e o relacionamento com Sara (Rachel McAdams) é ameaçado por conflito de interesses. É dentro desse contexto emocional que, em um dia de inverno, Tomas atropela acidentalmente os dois filhos de Kate (Charlotte Gainsbourg). O menino Christopher escapa ileso, o outro, Nicholas, morre na hora.

O roteiro de Bjørn Olaf Johannessen, apesar dos prolongamentos dramáticos que podem comprometer o ritmo da trama, possui diferenciais que trazem à tona diferentes perspectivas do trauma. Após o atropelamento, as vidas de Tomas e Kate, ao lado do filho Christopher, seguem em paralelo, mas não necessariamente dissociadas. Em “Tudo Vai Ficar Bem”, a câmera de Wim Wenders também tem interesse em mostrar como funciona a mente de um escritor, especialista na reciclagem de experiências próprias. De forma sutil, o filme questiona o motivo por trás da ascendência de Tomas na carreira, um sucesso que somente se torna possível após a tragédia da qual ele foi principal agente. Compreendendo mais de 10 anos de história, condição que abre as portas para o uso recorrente (e um pouco incômodo) de elipses, “Tudo Vai Ficar Bem” desenvolve o hábito, favorável a frustrações, de preparar um clima que acaba sugerindo um acontecimento que de fato não se concretiza. Seja uma proximidade mais íntima entre Kate e Tomas, que criam um estranho vínculo após o acidente, seja uma atitude mais drástica de Christopher, já rapaz e digerindo uma estranha obsessão pelo escritor que tirou a vida de seu irmão. Fiando-se na inovação do drama “tridimensionalizado”, o filme até consegue reerguer-se dos tropeços, mérito do diretor experiente, ao tecer uma reflexão sobre as implicações das curvas inesperadas da vida.

Festival do Rio 2015

Panorama: Grandes Mestres

Every Thing Will Be Fine, Alemanha / Canadá / França / Suécia / Noruega, 2015, 118’

Wim Wenders

Elenco: James Franco, Rachel McAdams e Charlotte Gainsbourg


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