A Última Ressaca do Ano

Comédia natalina não faz rir tanto quanto poderia, mas levanta questões importantes sobre gênero e privilégio, ainda que de forma discreta

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08 de dezembro de 2016

Final de ano é sinônimo de filmes natalinos na televisão e nos cinemas. Para seguir a tradição, estreia três semanas antes do ho-ho-ho a comédia “A Última Ressaca do Ano”, escrita e dirigida pela dupla Josh Gordon e Will Speck, conhecida pela comédia romântica “Coincidências do Amor” (2010). Na trama, os irmãos Clay (T.J. Miller) e Carol Vanston (Jennifer Aniston) disputam o controle da empresa de tecnologia criada pelo pai após a sua morte recente. Ela é a CEO interina e planeja fazer um grande corte de funcionários ou até fechar a principal filial da companhia, cuja cadeira da presidência é ocupada por ele. A fim de impressionar um novo cliente em potencial, que impediria a necessidade de cortes, Clay pede a seu amigo e braço direito Josh (Jason Bateman) que organize uma festa de Natal incrível, indo contra a ordem de Carol. Foi dada a largada à confusão.

Em uma mistura de “Se Beber Não Case” com “Quero Matar Meu Chefe” e “Quero Matar Meu Chefe 2”, últimos filmes em que Aniston e Bateman contracenaram, “Office Christmas Party” (no original) se diferencia por não ser uma comédia misógina como as outras, pelo contrário: as mulheres são o destaque do filme, resolvendo os problemas e tomando as decisões para que o caos causado pela festa da firma não seja ainda maior, enquanto os homens só criam e se metem em mais confusões, embora muitas vezes sejam bem intencionados. Os funcionários estereotipados de escritório estão todos ali – o nerd virgem, o esquentadinho mal humorado, os bullyies, a mãe solteira, a gostosa, a mão de ferro, o asiático retraído, o boa praça –, e, como sempre, quando a bebida entra, as verdades saem e há todo o exagerado que se espera de uma festa fora de controle regada a bebida e drogas.

O interessante é que Gordon e Speck transformaram alguns dos clichês femininos em meio para uma pequena, porém importante, discussão de gênero, a começar pela principal nerd hacker da empresa ser Tracey (Olivia Munn): é ela quem salva a filial com sua inteligência e não tem a sua beleza citada em nenhum momento do filme nem é subestimada por ser muito bonita. Kate McKinnon, que foi destaque em “Caça-Fantasmas” (2016), encarna a chefe de RH que zela pelo moral e pelos bons costumes, mas que, na verdade, reprime seus desejos para ser respeitada, o que vai sendo quebrado ao longo da projeção. Há, inclusive, uma cena em que ela tenta proibir a funcionária gostosa de usar decote por considerar inadequado no ambiente de trabalho, mas até seu chefe Josh considera besteira. Há também a violenta cafetina, que expõe como é ser mulher nesse ramo, e a esperta prostituta que engana o cliente para conseguir um extra durante a festa. Clay também reflete em uma cena bem humorada sobre ser privilegiado por ser um homem rico, branco e heterossexual, levantando a bandeira das ditas minorias, além de admitir que sempre foi injustamente favorecido pelo pai em detrimento da irmã, que não é apresentada apenas como uma mulher dura e sem sentimentos sem nenhuma razão. É tudo muito discreto, mas Gordon e Speck inseriram elementos para fazer o grande público pensar. É um ótimo começo e um exemplo a ser seguido pelos diretores do saturado gênero que se tornou a comédia americana, repleta do machismo nosso de cada dia.

Longe de ser um grande filme com um roteiro incrível, direção primorosa e ótimos aspectos técnicos – nem é essa a intenção –, “A Última Ressaca do Ano” peca pelo humor, ou melhor, pela falta dele. Por ser uma comédia, o espectador espera passar a sessão inteira com a barriga doendo de tanto rir, mas não é o que acontece aqui: o longa provoca somente risadas isoladas e pouco acaloradas. Entretanto, o filme, que poderia ser apenas mais uma comédia americana sem conteúdo e com piadas machistas, acabou sendo uma espécie de marco para uma mudança de mentalidade dos diretores estadunidenses e de todo o mundo, e, consequentemente, do público também. Por fim, “A Última Ressaca do Ano” acabou sendo uma película bem mais significativa do que o esperado, mas que corre o risco de desagradar o grande público num primeiro momento por ir na direção oposto do lugar-comum. Ponto positivo para Gordon e Speck.

A Última Ressaca do Ano (Office Christmas Party)

EUA – 2016. 105 minutos.

Direção: Josh Gordon e Will Speck

Com: Jennifer Aniston, Olivia Munn, T.J. Miller, Jason Bateman e Kate McKinnon.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4