Um Dia Com Jerusa

Cinematografia da oralidade

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28 de janeiro de 2020

É interessante notar como algumas narrativas são constituídas ao longo de um Festival pela sucessão de filmes selecionados. Algumas destas obras às vezes dialogam entre si, outras se complementam ou até se contrapõem através da palavra do cinema. Noutras vezes, chegam a reiterar constituições de imagens e anseios em sintonia, mesmo que através de motivações completamente distantes. Não por coincidência, e sim por consequência do colapso total de nossa política, dois exemplos bastante recorrentes de imagens nesta 23° Mostra de Cinema de Tiradentes estão sendo a inversão do quadro em 180°, colocando seus personagens de ponta-cabeça, e o transbordamento do plano, de forma literal e figurada, como em inundações e afluentes — uma estética que também infelizmente virou recorrente em nossas vidas com a destruição ocasionada pelas tempestades e distribuição desigual de infraestrutura do governo para as regiões afetadas.

Mas o que seria isso? Uma escolha moral? Uma questão meramente plástica? Ou a estética da ética?

A inversão do quadro pôde ser vista em alguns filmes nestes primeiros dias, desde o longa “Sofá” de Bruno Safadi, que apesar da narrativa linear clássica utiliza de um caleidoscópio de experimentações para tentar alterar a imagem dada; ao curta “Copacabana Madureira” de Leonardo Martinelli, que inverte o horizonte do estado do Rio de Janeiro para encaixá-lo em memes que demonstram as desigualdades municipais… Assim como podemos apontar a técnica do transbordamento em mais de um filme também, especialmente em trabalhos dirigidos por mulheres negras, como “A Felicidade Delas” de Carol Rodrigues e “Patakki” de Everlane Moraes.

Porém, apenas um único filme até agora se utilizou destas duas técnicas ao mesmo tempo, destacando-se uma cena em particular que se tornou minha favorita da Mostra Tiradentes até agora, e ilustra o cartaz que pode ser visto mais abaixo desse texto. O longa-metragem é “Um Dia Com Jerusa” de Viviane Ferreira com Léa Garcia e Debora Marçal, ampliado a partir de um curta quase homônimo com as mesmas mulheres supracitadas: “O Dia de Jerusa” (se ainda não assistiu ou quiser rever, o link para o youtube segue mais abaixo). Na cena em foco, a personagem-título Jerusa Anunciação (Léa Garcia) olha através de um olho mágico como se mirasse para dentro de uma câmara escura, de onde a luz emanada faz com que ela enxergue sua varanda de casa alagada e com seus vizinhos e amigos do bairro remando na maré das águas, só que tudo isso num quadro invertido. Pois é isso que o feixe de luz faz na Câmara escura: reproduz a imagem invertida! — Uma metáfora social do momento exato que estamos vivendo no Brasil, lançando luz em questões que estão de ponta-cabeça, mas subvertendo o status quo opressor… Algo que é realçado pela interseccionalidade de o elenco e equipe técnica nas principais funções criativas ser predominantemente composto por mulheres negras, o que também diz muito de nossa constituição racial invisibilizada historicamente.

Então, o que faz a diferença entre alguns realizadores e realizadoras para que a escolha por tais técnicas de linguagem se resumam a exercícios de estilo ou sejam de fato uma forma de tecer a narrativa a serviço da história, e não o contrário?

Como o próprio título já demonstra na diferença do curta-metragem original para o novo longa que o expande e até o ressignifica, a mudança de preposições diz muita coisa desde suas origens em “O Dia de Jerusa”, de 2014, para “Um Dia com Jerusa”, de 2019, ambos dirigidos por Viviane Ferreira. Se antes a história almejava presentear um dia muito especial para a personagem-título, porque mesmo sem o devido reconhecimento social de toda a sua contribuição de vida, como mulher negra e idosa, ela merecia uma retribuição digna, agora se trata de a mesma pessoa, em épocas diferentes de governo e de país, poder contar sua história adiante e ter as novas gerações lhe representando para o futuro.

Não à toa, podemos ler muitas coisas na própria metáfora que se coloca na necessidade ancestral de todo o poder místico da oralidade desta personagem ser registrado como um filme que se eternize ad eternum. E isso até no extracampo da produção, pois o projeto havia saído vencedor de um primeiríssimo edital afirmativo para longas-metragens que demorou a liberar a sua verba (para este e outros dois filmes, “Cabeça de Nêgo” de Déo Cardoso e “Marte Um” de Gabriel Martins), tanto quanto infelizmente se tornou o único edital neste sentido até agora a ser lançado, sem perspectiva de se lançar outro. Então sua urgência dentro e fora da tela se tornou ainda mais pungente para toda uma representatividade que o cinema pouco vê.

E não à toa, quem simboliza a maior ancestralidade no elenco logo de plano é a consagrada atriz Léa Garcia (do cult “Orfeu do Carnaval”, ganhador da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar em 1959/60). É assim que a representação da experiência matriarcal da mulher negra na sociedade é colocada para transmitir seus ensinamentos adiante através da oralidade, ferramenta de sobrevivência da cultura negra desde priscas eras e materializada desde na música, na poesia, nas artes ou mesmo na relação com a comida ou com a transição geracional.

A aprendiz em questão é Silvia (Debora Marçal), jovem empenhada e focada que está numa encruzilhada na carreira: mesmo que esteja num relacionamento estável na vida pessoal com uma colega de trabalho, espera o resultado de um concurso público para ser professora de História em universidade pública, enquanto exerce o subemprego de pesquisadora de mercado, o que lhe faz bater de porta em porta para angariar dados sobre um marca de sabão em pó… E é neste encontro de vida que as duas mulheres irão intercruzar histórias orais de suas vivências numa catarse compartilhada, ampliando bastante o papel de Silvia, tridimensionalizando suas subjetividades e agência, de modo a lhe dar uma representatividade inédita ao curta-metragem… De forma mais pronunciada em relação à sua sexualidade, por exemplo, mas sem nunca isto ser uma questão ou uma superação violenta para ela, e sim um símbolo de amor e aceitação, conforme o novo título já diz: “Um Dia com Jerusa”… “Um Dia de Silvia com Jerusa”, pois Silvia é sujeito oculto na sentença, e que vai redescobrir seu próprio protagonismo de vida através das trocas com a mestra.

Eis que este encontro acontece de muitas formas. A primeira delas, evidentemente, é a chave da performance, o que de forma bastante diegética já representa o que este encontro significa: Léa Garcia representa toda a tradição do Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado em 1941 pelo ícone Abdias Nascimento (autor de referências absolutas como “O Genocídio do Negro Brasileiro”); Debora Marçal representa a contemporaneidade com a Capulanas Cia de Teatro Negro; assim como a grande atriz Valdinéia Soriano (de “Café com Canela”, “Ó Pai, Ó” e “Ilha”), que foi a preparadora de elenco do filme, representa a força intermediária com o Bando de Teatro Olodum — E até faz uma ponta como a profissional que vende material fotográfico para Jerusa, pois a personagem-título vê o mundo por sua própria lente, sua própria câmera.

Contudo, essas três forças não são nem metade do inventário de questões atuais que a cineasta e advogada Viviane Ferreira trouxe à baila. Muito atinada com todo o cinema contemporâneo, inclusive atuando com participação política em prol de causas e movimentos urgentes, também como presidente e uma das fundadoras da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), Viviane faz uma verdadeira atualização e coletânea das preocupações presentes.

A própria Câmara Escura e a inversão da imagem projetada advém de um referencial contemporâneo bastante importante para nosso cinema brasileiro, do curta-metragem “Pouco Mais de um Mês” de André Novais, que lançou luz ao cinema periférico de Contagem em Minas Gerais e ganhou o menção honrosa na 45ª Quinzena dos Realizadores em Cannes em 2013. Da mesma forma, “Um Dia com Jerusa” também traz a importante questão de terem sido pessoas negras que fundaram o bairro paulista de Bixiga, e não os italianos pelo senso comum… E isso é uma ressignificação crucial dos espaços políticos de existência que outro filme do movimento atual também havia abordado: “Liberdade”, sobre o bairro homônimo, e sua representatividade afrodescendente para além da oriental pelo qual é mais lembrado, num filme dirigido por Vinicius Silva e Pedro Nishi. Outrossim, podemos lembrar da questão das fotos de familiares negros quando o acesso era difícil ou impossibilitado por famílias brancas, que muitas vezes só fotografavam pessoas negras quando elas eram babás de suas crianças ou em situações subalternizadas, como demonstrado no filme “Travessia” de Safira Moreira. Por fim, poderíamos fazer uma lista infinita reverencialmente por parte de Viviane, atenta ao coletivo e à importância de levar adiante essas narrativas sem retroceder jamais, mas vale citar os afetos do lar internos à fortaleza da ancestralidade da morada e seus altares como nas relações já trilhadas por “Café com Canela” de Glenda Nicácio e Ary Rosa, de modo a criar novos microcosmos que se expandam ao macro sem hesitação.

Cabe falar sobre inovações importantes também, como a relação histórica com a pessoa idosa e seu direito de decidir como viver, bem como de não ser afetada por forças ou opressões externas para ditar seu próprio caminho. O envelhecer é um direito muitas vezes roubado e assassinado por violências cotidianas, como o racismo e o extermínio e encarceramento em massa da população negra com um alvo nas costas. Simplesmente por existir. Da mesma forma com que a relação homoafetiva da protagonista Silvia também é uma construção positiva raramente vista no cinema, pois infelizmente tais relacionamentos ainda são predominantemente construídos de forma trágica, seja em novelas ou mesmo em filmes paradigmáticos e que avançaram o assunto quando quase ninguém falava dele antigamente. Vide o cult da cineasta Adélia Sampaio, “Amor Maldito”, de 1984, primeiro longa de ficção dirigido por uma diretora negra a ser lançado no circuito comercial no Brasil.

Aliás, uma invenção de “Um Dia com Jerusa” é a relação pantomímica à la Eduardo Coutinho em “Jogo de Cena”, só que aqui na ficção e melodrama assumido ao invés do mestre documentarista supracitado, num verdadeiro teatro filmado de forma por vezes bastante criativa pela diretora de fotografia Lílis Soares (de “Ilhas de Calor” de Ulisses Arthur e “Minha História é Outra” de Mariana Campos — Leia a entrevista com Lílis Aqui). Na visão deste crítico, o jogo de cena, na verdade, já existia desde o curta-metragem, na relação farsesca entre as duas protagonistas, que poderia ser lida tanto como é apresentada, como numa metáfora de todas as ancestralidades ali presentes, até mesmo da avó da própria Silvia de quem ela tem tanto receio que não aprove a relação com a namorada… E talvez isso fizesse com que elas precisassem se encontrar neste espaço interdimensional para representar todas as mulheres do mundo, quase como se Jerusa fosse uma entidade, uma orixá, e a casa fosse uma suspensão da realidade… O que foi realçado por Viviane Ferreira mudando o final do curta-metragem, com toques e elementos de filmes de gênero, como se a casa fosse um espírito também, mas não para dar sustos, e sim para a imersão etérea num estado de suspensão da crença no tempo cotidiano lá de fora.

Agora, no longa, o desenho de som (vide os assobios na trilha sonora) a direção de arte e figurinos de Jamille Coelho e Béa Gerolin realçam ainda mais esta qualidade, até mesmo nas roupas de Silvia, que começam urbanas, típicas de uma grande metrópole, e saia e cabelo vão se permitindo tocar e se transformar por Jerusa (como parece que outras pessoas antes de Silvia já foram transformados pela personagem de Léa, como metáfora da carreira da própria atriz)… Ou mesmo a mise-en-scène alegórica, enganando o espectador se o que ele está vendo é um surto coletivo ou um transe, tipo a série “Além da Imaginação”, recém revitalizada no remake de Jordan Peele… E algo que também é muito presente no cinema iraniano do saudoso Abbas Kiarostami, ressaltando a referência do jogo de cena à la Coutinho de “Cópia Fiel” e do direito de decidir como partir desta materialidade para o campo espiritual de “Gosto de Cereja”.

Por fim, vale se falar que a dica deste crítico para a cineasta é que transforme seu texto, com tanta pesquisa histórica, e muitas mais referências que jamais poderiam ser encerradas aqui, numa adaptação para o teatro. Isto porque faço voto piamente de que esta linguagem propositiva e abundante, às vezes repetitiva (como o dispositivo do transe, que podia ser abreviado em suas repetições), até propondo mais do que podemos dar conta, poderá ser expressada de várias formas para além e também de forma complementar ao cinema. E esta é a melhor resposta que se pode dar à pergunta com que comecei a presente crítica, de modo a provocar que as experimentações de linguagem tão queridas pelo cinema clássico não se esvaziem em códigos e simbologias exauridas e sem motivação, e sim numa potência da fala de quem nos dirige a palavra filmada.

Confira abaixo trecho de entrevista exclusiva com equipe e elenco logo abaixo, realizada por mim (Filippo Pitanga do Almanaque Virtual e Viviane Pistache do Geledés), bem como o link do curta-metragem “O Dia de Jerusa”:

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