Um Dia de Chuva em Nova York

Um dia de Chuva – e misoginia – em Nova York

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17 de novembro de 2019

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Em maio de 2000, o escritor francês Alain Brassart escreveu um artigo para o Le Monde Diplomatique a respeito do então recém-lançado filme de Woody Allen, Sweet and Lowdown (no Brasil, Poucas e Boas). Em seu texto, Brassart disserta acerca do discurso usado na maioria dos filmes do diretor: “como seduzir as mais belas mulheres do mundo quando se é pequeno, fraco e feioso”, utilizando personagens principais misóginos e claras versões de Allen.

O escritor ainda ressalta as constantes narrativas que se concentram exclusivamente no destino do protagonista, que encontra-se sempre em um conflito existencial e também entre duas mulheres. Passados dezenove anos desde a publicação, as duras palavras de Brassart seguem pertinentes à obra de Woody Allen, algo explícito em seu novo filme, Um dia de Chuva em Nova York.

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Também em 2000, na edição de fevereiro, a revista Cahiers du Cinéma publicou um artigo sobre “cineastas autores” qualificando seus projetos como “estéticos e auto-reflexivos”, questionando se seus protagonistas “seriam realmente personagens cinematográficos ou não”. Woody Allen consolidou sua carreira através de um cinema extremamente autoral, mas que têm se mostrado “engessado”, provocando no expectador a sensação de estar assistindo sempre a mesma história, com atores e cidades de plano de fundo diferentes.

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Depois de Roda Gigante, considerado por muitos o pior filme de sua carreira, o diretor retorna à sua zona de conforto com Um dia de Chuva em Nova York. Com nomes de grande visibilidade no cenário atual como Selena Gomez, Timothée Chalamet e Elle Fanning no elenco, o longa é centrado em Gatsby (Chalamet), e nos imprevistos sofridos por ele e sua namorada, Ashleigh, ao passar um final de semana em Nova York. Uma premissa muito similar à apresentada em Para Roma com Amor, de 2012.

A escolha do nome do protagonista não foi em vão; ambos os Gatbys – o de Allen e o de Fitzgerald – possuem uma visão idealizada e passional a respeito da cidade de Nova York e também de suas companheiras, cujas personalidades são similares. Porém, o Gatsby do filme mostra-se um jovem egoísta e hipócrita, que condena o estilo de vida fútil de sua família, ao mesmo tempo em que usufrui dele. A fala “não sei o que quero ser, mas sei o que não quero ser”, mostra indecisão do protagonista, que ao idealizar tudo e todos em seu entorno sofre constantemente com expectativas frustradas. Chalamet entrega uma atuação regular, de uma personagem que mais uma vez é o retrato do diretor.

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Mas o que se destaca negativamente é a personagem vivida por Elle Fanning. Em uma atuação caricata e que não poderia ser diferente, Ashleigh é o retrato fiel do estereótipo da “mulher ideal” aos olhos de um homem misógino: linda, ingênua, empolgada e burra. Todos os personagens masculinos que interagiram com ela sentiram-se atraídos pela mesma, sempre elogiando seus atributos físicos e sua ingenuidade.

E este é só o começo do machismo existente na trama; todas as mulheres em cena são ingênuas, irritantes, bobas, controladoras, infiéis ou de moral duvidosa. Enquanto os personagens masculinos são bem sucedidos, cultos ou especialistas em algo (diretor, produtor, empresário), as mulheres são aspirantes a algo, estudantes, assistentes, donas-de-casa ou prostitutas. Não há uma só figura feminina em qualquer posição de poder no longa. E elas ainda mostram admiração para com as figuras masculinas como, por exemplo, nas situações em que Ashleigh fala sobre Gatsby, sempre ressaltando e enaltecendo suas qualidades, mesmo quando ele não possui nenhum foco em sua vida.

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Não surpreende o fato de que o filme, cuja estreia era prevista para 2018, tenha sido desprezado pela Amazon após o crescimento do movimento MeToo e as acusações de abuso feitas por Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen. Esta não foi a primeira vez que o nome do diretor esteve envolvido em polêmicas. É possível, inclusive, que o fato do nome escolhido para a personagem de Liev Schreiber – Roland Pollard – remeter à Roman Polanski não tenha sido apenas uma coincidência, já que o diretor e amigo pessoal de Woody Allen também se viu envolvido em polêmicas desta natureza recentemente.

Nem mesmo a bela fotografia com nuances douradas nos momentos exatos foi capaz de engrandecer um roteiro repetitivo, misógino e com um final clichê e sem a espontaneidade tão característica dos filmes do diretor. Woody Allen se estabeleceu com seu cinema autoral, mas para produzir novamente obras da qualidade de Match Point (2006) e Meia Noite em Paris (2011), precisa se reinventar em seu próprio universo, ou continuará oferecendo ao seu público filmes que parecem “mais do mesmo”. E no caso de Um dia de chuva em Nova York, com uma misoginia que não compete mais atualmente.

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