Um Dia Perfeito

Quando o remédio pode fazer tão mal quanto a doença

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24 de julho de 2016

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Há inúmeros conflitos no mundo que não são noticiados. Milícias e limpezas étnicas silenciadas, e que, mesmo em intervalos de paz, deixam rastros de ódio, como campos minados, fronteiras armadas ou pouca inclusão social. Como nas terras dos Balcãs retratadas no filme “Um Dia Perfeito” de Fernando León de Aranoa. Em determinada cena, o exército diz que a região foi pacificada e que ninguém pode intervir nas comunidades locais. Noutra sequência, crianças brincam com armas a bel prazer, sabotando a ética do armistício. É neste cenário que agentes humanitários em nome da ONU vão tentar ajudar os nativos abandonados pela guerra. E isso justifica a ótima escolha de elenco, como os maturados representantes masculinos Benicio Del Toro e Tim Robbins, cínicos e cansados de conflitos armados, em contraste com as representantes femininas mais jovens Mélanie Thierry e Olga Kurylenko, ostentando a esperança de uma nova mentalidade ainda intocada pela hipocrisia.

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Ironicamente, esperança é a palavra perfeita para resumir o esperto roteiro indicado a vários prêmios internacionais. Esperança em inglês é ‘hope’, que tem a pronúncia muito parecida com ‘corda’ em inglês, ‘rope’. É atrás de uma corda que os trabalhadores voluntários correm o filme todo para tirar um cadáver do poço natural de água em um vilarejo muito pobre, jogado lá por mercenários com objetivo de contaminarem a única fonte de sobrevivência da região. E a palavra ‘rope’ é bastante repetida pelo elenco advindo de várias nacionalidades, como uma babel de sotaques que fazem a corda adquirir tons de metáfora: pode servir para enforcamentos, ou para hastear a bandeira branca como rendição, ou para prender um cão raivoso que, na lógica bélica, como os próprios personagens dizem, “se ele lhe morder, você o morde de volta”. É a única forma de ter respeito na guerra. Ou será?

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O filme adquirir tom internacional não é a toa. A escolha certeira da pantomima carrancuda do ator Benicio Del Toro não poderia ser melhor, ostentando a ambiguidade no olhar profundo de já ter participado de ambos os lados de conflitos, como no realista “Traffic” de Soderbergh, no crú “21 Gramas” de Iñárritu (também diretor de “Babel”, que se comunica bastante com “Um Dia Perfeito”) e mais recentemente no intenso “Sicario” de Villeneuve (o qual dirigiu “Incêndios”, que também tangencia a presente obra).

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É igualmente de origem internacional o diretor de “A Perfect Day”, título no original, o hispânico Fernando León de Aranoa, do interessante “Às Segundas ao Sol”. Ele mesmo assina o roteiro que se debruça a adaptar a obra “Dejarse Llover”, da autora conterrânea Paula Farias, a qual justifica o toque feminino à guerra como visto principalmente através do ponto de vista da personagem de Mélanie Thierry (de “Teorema Zero”). É ela quem acaba imprimindo a melhor parceria com Del Toro, na dualidade de aprendiz e mestre, fazendo o típico olhar inexperiente, acrescentado aos filmes em geral para o espectador ser introduzido à história, mas aqui usado como a melhor forma de contrapor as ideologias em jogo. Pena que a outra dupla de astros do elenco seja ligeiramente mal aproveitada, na pele de Tim Robbins e Olga Kurylenko, que apesar de conseguirem alcançar bons arquétipos de caracterização, não se engendram tão bem no envolvimento com a trama.

O verdadeiro diferencial, contudo, está no olhar das crianças do filme, bastante conectadas aos personagens de Thierry e Del Toro. Na melhor tradição dos filmes iranianos como “O Balão Branco”, são os infantes que servem de real fio condutor para a plateia se importar com as consequências da guerra do macrocosmo no microcosmo de cada cidadão, mostrando que aqueles que querem ajudar talvez sejam os com mais potencial para atrapalhar, como a própria posição invasiva da ONU e de exércitos pacificadores estrangeiros. E, mesmo que se crie um suspense crescente que não necessariamente se concretiza, desperdiçando alguns potenciais no meio do caminho em prol da sutileza e do humor negro, é com uma trilha sonora descolada de rock and roll, como a versão de Marilyn Manson para “Sweet Dreams”, além de um final lírico e montagem tocante sem pieguices, que o filme tem potencial de alcançar gerações variadas de público para contrapor um bom debate.


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