Um Ensaio sobre a Morte: Dark X Relic

O luto entre o desejo inconformado e a aceitação do inevitável

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29 de agosto de 2020

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Atenção: este texto pode conter spoilers.

Esta não é mais uma análise sobre a aguardada e comentada última temporada de Dark, série de sucesso da Netflix. Caso este seja o objetivo de sua leitura, excelentes opções serão encontradas online; o objetivo deste texto é abordar outra temática, usando a produção e outras obras como pano de fundo para tal.

Dark trabalha com gêneros como o drama e o sci-fi agregados a conceitos filosóficos. Ao colocar diversas linhas temporais, realidades e mundos em sincronia, a trama instiga o pensamento do espectador e se desenvolve através de conceitos como o existencialismo, determinismo, livre-arbítrio e a finitude de tudo. A produção alemã usa conceitos de pensadores conterrâneos como Schopenhauer, Freud e Nietzsche para pautar os rumos de sua história e também as decisões tomadas por suas personagens, sendo a inconformidade humana um grande “motor” da trama. Não são poucas as situações em que personagens tomam decisões precipitadas e por muitas vezes inconsequentes na tentativa de evitar a morte de um ente querido, seja por assassinato, doença, ou fatalidades – por exemplo.

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Ao iniciar sua última temporada com a frase de Schopenhauer “O homem pode fazer o que ele quer, mas não pode querer o que ele quer”, os criadores Baran bo Odar e Jantje Friese apresentam o dilema pertencente ao arco de evolução das personagens principais. Foram diversas interferências nos acontecimentos para que seus desejos fossem atendidos – o que nos leva a outra famosa citação do mesmo filósofo: “Todas as ações do homem são motivadas pelo desejo”. No caso de Dark, o desejo diversas vezes confundiu-se com o inconformismo, resultando em uma eterna “luta contra o inevitável”.

E este impulso inconformista foi o que motivou o início e também o fim da trama. O inconformismo de um pai em aceitar a morte de seu filho, e a consequente tentativa de evitar tal fatalidade, resultou em uma espiral de luto e dor por diversos ciclos temporais. Ou seja, a dificuldade do ser humano em lidar com o luto proveniente da morte levou o mesmo a tentar reverter ações executadas por terceiros enquanto exerciam seu livre-arbítrio e fatores relacionados ao acaso – como um temporal, por exemplo. E assim a produção entregou um fim “agridoce” ao público, pois quanta dor, angústia e até mesmo existências precisaram acontecer para findar a dor e o inconformismo de um pai? A negação, as intercessões, todos os malefícios e desordem causados valeram a pena?! Racionalmente, é difícil dar uma resposta positiva a esta questão.

Já o longa-metragem Relic dirigido pela estreante Natalie Erika James vai em caminho inverso, e não só aceita como “abraça” a finitude de tudo. A trama aborda o processo de envelhecimento e a morte através de uma ótica extremamente humana, íntima e feminina, nos colocando muitas vezes no lugar das três protagonistas – neta, mãe e avó.

Emily Mortimer and Robyn Nevin appear in Relic by Natalie Erika James, an official selection of the Midnight program at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jackson Finter. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited c5 Relic-Grandmother-investigates-black-spot

A passagem do tempo, o envelhecimento, as complicações e doenças pertencentes ao processo, a negação e o amadurecimento são mostrados com extrema sensibilidade no filme, que faz uso de delicadas metáforas sonoras e visuais para enriquecer a mensagem que deseja passar. A morte é inevitável, e a forma como lidamos com este fato acerca de nós mesmos e de entes queridos faz toda a diferença nas relações – principalmente familiares. Afinal, como disse Bob Dylan: “Quem não está nascendo, está morrendo”, ou seja, estamos todos em diferentes momentos de um mesmo caminho.

Emily Mortimer appears in Relic by Natalie Erika James, an official selection of the Midnight program at the 2020 Sundance Film Festival. Courtesy of Sundance Institute | photo by Jackson Finter. All photos are copyrighted and may be used by press only for the purpose of news or editorial coverage of Sundance Institute programs. Photos must be accompanied by a credit to the photographer and/or 'Courtesy of Sundance Institute.' Unauthorized use, alteration, reproduction or sale of logos and/or photos is strictly prohibited Dark_huyYqTP

Apesar de possuir uma abordagem contrária à série Dark, também é possível observar a resistência da mãe, vivida pela atriz Emily Mortimer (Kay), em aceitar a condição de sua própria mãe e a inversão de papéis que lhe é imposta. Entretanto, o arco de amadurecimento da personagem segue em direção oposta, resultando na compreensão e no acolhimento da situação, tanto de sua mãe quanto a sua própria. Ao compreender o inevitável, foi possível a personagem adotar um olhar mais humano e amoroso para com a sua mãe e também consigo mesma. Ao modificar sua postura perante o processo de envelhecimento, doença e morte da sua mãe, Kay acaba acolhendo o seu próprio – já que provavelmente passará por uma dinâmica similar com a sua filha, pois a matriarca da família sofre de Alzheimer, doença conhecida pelo seu fator genético. O ciclo atravessa todas as gerações presentes na história, com o título fazendo uma sutil alusão a herança ou relíquia familiar.

E por qual motivo nos forçar a pensar sobre a morte – tanto em sua aceitação quanto sua negação? A frase dita pelo Presidente: “Todos nós vamos morrer um dia”, mesmo em um contexto sórdido e irresponsável, já poderia se colocar como um motivo bastante atual. Por que então falar sobre a aceitação ou negação da mesma em meio a uma Pandemia? Ironicamente, neste contexto, estamos aceitando e negando um processo que não é natural como no sentido das obras aqui abordadas.

Recentemente ultrapassamos a marca de 115.000 mortes decorrentes da pandemia de covid-19, que acomete o país há cerca de seis meses. Simultaneamente a vida volta ao que a mídia insiste em chamar de “novo normal”, ou seja, a rotina de antes regada a muito álcool em gel e troca de máscaras estampadas. É possível chamar de “normal” uma rotina que inclui cerca de 1.000 mortes diárias, “banho” em itens comprados no mercado, escolas fechadas e isolamento social no caso dos mais conscientes? É possível chamar de normal solicitarmos um exame que introduz um enorme cotonete em nossas narinas e gargantas ao menor indício de febre, tosse ou dores no corpo? É normal que praticamente todos conheçam ou tenham perdido alguém vitimado por esta doença? Não, não há nada de normal nisto.

E mesmo assim praias continuam cheias, shoppings funcionando normalmente e bares com lotação cada vez maior… Então lhes questiono: não estaríamos precisando mais do inconformismo de Dark e do acolhimento e empatia de Relic para melhorarmos enquanto seres humanos? Não deveríamos enquanto sociedade considerar inaceitáveis as posturas tomadas pelo político que hoje ocupa o principal cargo deste país? Se for para sairmos às ruas e nos colocar em risco, não deveria ser para exigir mudanças e não para caminhar na praia? Até agora a apatia não foi confirmada como sintoma da pandemia, mas infelizmente acomete muitos de nós.

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