Um Espião e Meio

Espião letal com problemas de autoestima e afeição a unicórnios

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16 de agosto de 2016

Bullying é um dos temas mais abordados do cinema americano, em qualquer gênero de filme, do drama ao terror. Por que não misturar os gêneros, então, e conseguir uma comédia de ação com pitadas de espionagem em “Um Espião e Meio” (“Central Intelligence” no original)? E, de quebra, ainda conquista o espectador com o enorme carisma de seu protagonista, o mais improvável e insuspeito alvo para sofrer bullying, Dwayne “The Rock” Johnson (franquia “Velozes e Furiosos”). O gigante ator em altura e músculos intimida só pela sua presença, mas a produção do filme e seu diretor Rawson Marshall Thurber foram espertos em demonstrar onde as vítimas deste mal moderno mais sofrem: no psicológico. Para isso, transforma por computação gráfica o rosto do ator emparelhado a um corpo obeso na juventude para sofrer um trauma que o fará se exercitar até alcançar o corpo que possui, e virar um dos espiões mais letais do mundo, ainda que frágil e ingênuo psicologicamente devido a nunca ter tido amigos pela baixa autoestima.

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Este é o ponto de partida para acrescentar o lado cômico através da contraparte a protagonizar o longa-metragem, o comediante Kevin Hart (“Todo Mundo em Pânico 3”), que era o aluno mais popular da escola e o único a ter demonstrado solidariedade ao personagem de Dwayne quando ainda era obeso e perseguido. Agora, logo chegando perto da famigerada data de reunião de formandos do colégio anos depois, ele se sente um fracassado perito de contabilidade, mesmo casado com a mulher que ama, a quem morre de medo de decepcionar. E será em meio às desventuras de espionagem do pseudoamigo que confundiu aquele ato de solidariedade com intimidade, que os dois personagens encontrarão sua autoestima de volta, com direito à paródia de sessão conjunta de psicanálise.

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De fato o espectador poderá se envolver e se divertir com o espírito de aventura bem intencionado a parodiar o estilo “odd couple”, ou seja, duplas estranhas da história do cinema, que deu tão certo em exemplos como “MIB – Homens de Preto”, mas que aqui sofre um bocado com o contraste não tão harmonioso entre o histrionismo de Kevin e o propositalmente sisudo Dwayne. Até porque Dwayne consegue superar a dicotomia e entregar seu personagem bem mais tridimensionalizado, dentre a gama de frágil a ameaçador, de modo que a trama se torna mais imprevisível com ele em cena. É um homem capaz de amar unicórnios e usar uma pochete, mas ao mesmo tempo de talvez trair o governo americano em prol de um bem maior… Ou será? Tudo isso é crédito de um ator que anda crescendo em maturação do seu carisma, sabendo suas limitações. Por outro lado, o mesmo não pode ser dito da persona criada por Kevin, unidimensional até o final, especialmente pela narrativa teimar em focar nele por mais tempo em cena.

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As sequências de ação não possuem grandes inovações, porém até que são superiores ao de costume quando embutidas em filmes de comédia. Com destaque para o confronto no trabalho de escritório asséptico de contabilidade em meio ao tiroteio de agentes da CIA, e o conflito final com participação especial de um ator notabilizado por Breaking Bad. A trilha sonora dos anos noventa também diverte, só pena que é abandonada em termos de tentar criar uma associação na escolha dos artistas musicais como estão agora em suas carreiras, caso fossem escolhidas músicas representativas do passar do tempo. E os coadjuvantes são nulos ou rasos, ressalvando-se apenas a agente interpretada por Amy Ryan.

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