Exercício de simplicidade pode fazer diferença na Première Brasil

Festival do Rio - Previsões

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08 de outubro de 2014

Serão conhecidos nesta quarta-feira, a partir das 20h30m, os ganhadores da Première Brasil 2014, tendo “Casa Grande”, de Fellipe Gamarano Barbosa, como favorito. Há um zumzumzum muito favorável, que só faz crescer, em torno de “Love film festival”, de Manuela Dias, e de “Prometo um dia deixar essa cidade”, de Daniel Aragão. Todos estes três são filmes que flertam com algum grau de experimentalismo narrativo, indo da distensão do tempo à metalinguagem. Porém, no terreno das narrativas mais clássicas, menos acrobáticas na forma, um longa-metragem conectado à gênese de Brasília se destaca por sua excelência artesanal. Neorrealista até a alma, “O outro lado do Paraíso”, de André Ristum, foi o filme em concurso da PB de sábado e levou ao complexo Cinépolis Lagoon, na Lagoa-RJ, a velha lição de que a simplicidade, por vezes, pode ser arrebatadora. Num diálogo com uma tradição italiana que começa em “Ladrões de bicicleta” (1948), de Vittorio De Sica, e vai até “Antes da revolução” (1964), de Bernardo Bertolucci, o longa-metragem revisita a história da construção de Brasília com base no romance autobiográfico do escritor e editor Luiz Fernando Emediato. Costurado por uma narração em off muito esporádica, seu roteiro reconstitui o baque da ditadura sobre os sonhadores lá reunidos numa utopia de desenvolvimento do país.

 

Conhecido pelo longa “Meu país” (2011), Ristum mescla imagens de arquivo dos anos 1960 com cenas ficcionais numa maestria inquestionável. A edição do filme é de uma fluidez inabalável graças ao trabalho de montagem de Hélcio Alemão Nagamine. Há sim um sabor de filme antigo, “velho” mesmo, estilo anos 1970, mas este aroma de naftalina não disfarça a competência da narrativa e seu poder encatamento – este último é a marca do cinema do diretor de obras como “De Glauber para Jirges” (2005). É um longa coerente com toda a obra pregressa de Ristum, o que comprova sua autoralidade. Seu tema é a relação pai e filho. E aqui, ele volta a seu tema numa discussão sobre o simbolismo da figura paterna sob a vida de um indivíduo. E o pai aqui é defendido por Eduado Moscovis com sobriedade, ao lado do filho “Nando”, encarnado pelo impressionante Davi Galdeano.

 

Na trama, Nando cresce apaixonado pelos livros. E é transferido com a família do interior de MG para o futuro DF por decisão de seu pai (Moscóvis), um sonhador profissional. O objetivo dele é garantir conforto para seus filhos e sua mulher na Eldorado que ensaia aparecer no Centro-Oeste. Mas, pouco a pouco, como candango, o operário percebe que a argamassa de Brasília é a desigualdade e a exclusão. Resta a Nando buscar nos livros uma alternativa.

 

O filme abre e fecha com uma animação em tons de sépia que explora bem a linguagem do 2D. São vinhetas animadas simples, mas eficazes, com a marca da elegância de Ristum.

 

É difícil fazer apostas para o resultado do Redentor. Mas seria justo no mínimo um prêmio de montagem para o longa. O trabalho de Moscóvis é forte para a categoria melhor ator, mas ele terá como adversário um rolo compressor: a dupla formada por Pedro Brício e Marco Ricca em “O fim e os meios”, de Murilo Salles.