Um faroeste memorável entra em duelo pelo Leão de Ouro

Filmando em inglês, o cineasta francês Jacques Audiard faz em 'The Sisters brothers' um tributo ao western, arrancando de John C. Reilly sua melhor atuação

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02 de setembro de 2018

Jacques Audiard dá instruções a Joaquin Phoenix e John C. Reilly no set do western "The Sisters brothers": mira impecável

Jacques Audiard dá instruções a Joaquin Phoenix e John C. Reilly no set do western “The Sisters brothers”: mira impecável

Rodrigo Fonseca
Veio das mãos de um francês, o campeão de bilheteria europeu Jacques Audiard (“O profeta”, “Ferrugem e osso”) o melhor filme de faroeste dos últimos anos (pelo menos, desde “Os 8 odiados”): “The Sisters Brothers”, exibido nesta manhã no Festival de Veneza, é um tributo a John Ford e Howard Hawks. Na briga pelo Leão de Ouro, esta tensa adaptação do romance homônimo de Patrick de Witt nos revela a grande atuação masculina de todo o evento até agora: John C. Reilly. Aos 53 anos, o eterno coadjuvante de “Magnólia” (1999) e “Chicago” (2002) tem uma interpretação memorável – talvez a melhor de sua louvável carreira -, capaz de ofuscar Joaquin Phoenix. Eles vivem os irmãos Sisters, caçadores de recompensa temidos por seu currículo de mortes. Numa viagem à cata de um químico que prospecta ouro, Eli (C. Reilly) e Charlie (Joaquin) vão encarar intempéries armadas, animais e desilusões. É mais um épico sobre a edificação afetiva – no rastro da fraternidade – do que uma aventura clássica. Mas não falta adrenalina. Nem cenas dignas de lágrimas.

Audiard lavou a alma de Veneza em relação a westerns depois da frustração do festival com a investida mais recente dos irmãos Coen no gênero. Apesar de divertido, “The ballad of Buster Scruggs”, de Joel e Ethan Coen, não faz jus ao filão e, tampouco, ao legado de seus diretores. Vale só por trazer o cantor Tom Waits de volta à telona, no papel de um mineiro zangado.

E não é que em meio a um mar de fábulas (a maioria delas é triste) sobraram holofotes para a estética documental na briga pelos prêmios oficiais de Veneza, à força da investigação social feita por Roberto Minervini (Las Luciérnagas) em território estadunidense. No sábado,seu documentário ambientado no sul dos Estados Unidos abriu uma brecha nobre para o Real numa seleção competitiva dominada por ficções. “What you gonna do when the world’s on fire?” é um retrato da luta de jovens negros americanos para driblar a pobreza e a intolerância racial. O dinamismo de sua montagem amplifica a bruta realidade que documenta.

No terreno da América Latina, quem anda surpreendendo Veneza é o Uruguai. “La noche de 12 años”, de Alvaro Brechner, do ótimo “Sr. Kaplan” (2014), é um dos longas que mais inflamaram debates no Lido, ao retratar um dos períodos mais tempestuosos da vida do hoje octogenário ex-estadista José Alberto “Pepe” Mujica. O ator espanhol Antonio de la Torre, um queridinho de Almodóvar, vive o jovem Mujica no período em que foi condenado a 12 anos na solitária, no auge das ditaduras na América do Sul, no início da década de 1970. Com uma montagem febril, o projeto é uma coprodução entre uruguaios, franceses e argentinos. E tem mais Mujica hoje aqui. Neste domingo, Veneza vai conferir “El Pepe, uma vida suprema”, um documentário do sérvio Emir Kusturica sobre o legado do político no Uruguai.

Veneza segue até o dia 8, com a entrega de suas láureas.