Um Homem Entre Gigantes

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06 de março de 2016

O filme “Um Homem Entre Gigantes”, mesmo produzido dentro dos padrões comerciais para o consumo do grande público, contém predicados suficientes para despertar a reflexão a partir da contumácia de um indivíduo contra um órgão vital do organismo norte-americano ― a NFL (National Football League). No longa de Peter Landesman, a disputa de Bennet Omalu (o astro Will Smith amplia a visibilidade do filme) não começa com a equivalência dos jogos da NFL, com 11 brutamontes defendendo cada time. Partindo do princípio de que Omalu é um nigeriano habitante da excludente selva norte-americana, mais precisamente em Pittsburgh, concluí-se que sua luta por reconhecimento no contexto do “sonho americano”, antes mesmo de seu maior desafio contra a liga esportiva, é praticamente solitária.

Patologista forense excêntrico, que dialoga com os corpos antes de retalhá-los para a autópsia, o destino do doutor Bennet Omalu muda quando o corpo de um herói norte-americano, Mike Webster (David Morse), jogador aposentado do Pittsburgh Steelers, vai parar bem debaixo de seu bisturi. A paixão pelos mistérios do cérebro humano leva Bennet a ir mais longe, a um exame mais minucioso, que o faz desvendar os danos irreversíveis da Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), doença que provoca a degeneração cerebral da vítima após sucessivas pancadas na cabeça ― intimamente relacionada com a demência pugilística que pode afetar atletas de luta. A trajetória de Omalu, conduzida pelo cineasta Landesman de forma conservadora, ou mesmo maniqueísta em alguns momentos ao elevar o personagem principal a um nível de total incolumidade, é marcada pela boa vontade de escassos aliados como a esposa Prema (Gugu Mbatha-Raw), relacionamento tão romanceado que quase soa artificial, e os doutores Cyril Wecht (Albert Brooks ― maior encarregado do alívio cômico do filme) e Julian Bailes (Alec Baldwin), responsável pela saúde dos jogadores do Pittsburgh Steelers.

É no ponto de crise do filme, quando Bennet bravamente defende sua descoberta contra os métodos de uma corporação multimilionária, com o adendo de outros jogadores mortos pela doença por ele detectada, que “Um Homem Entre Gigantes” reserva seu mais interessante aspecto ― um filme que faz da coragem, a mesma que impulsiona a minoria contra a esmagadora maioria, a essência da história que se tem para contar. Nesse caso; porém, a contenda é ainda mais especial. Depois de muita insistência Bennet Omalu perdeu a invisibilidade, tanto para a NFL quanto para os Estados Unidos, mas outra grande conquista obtida é de ordem cultural, com um significado muito mais amplo: quando o homem negro, nascido na Nigéria, recusa a americanização postiça quando ela enfim aparece.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4