Um Toque de Pecado

O Massacre da Praça da Paz Celestial...Só que invertido

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25 de agosto de 2015

Hoje a China é a maior economia do mundo. Como os tempos mudam… Em 1989, ocorria o Massacre da Praça da Paz Celestial, um título bastante irônico a se pensar, muito lembrado pela famosa imagem do tanque de guerra passando por cima de um jovem estudante. Quem diria que o outrora comunismo opressor se apaziguaria economicamente com o capitalismo tornando-se a chamada 3ª Via de solução econômica, fazendo jus à maior população mundial em termos de custo-benefício da mão-de-obra em massa. Todavia, ideologicamente não se pode dizer que a sociedade chinesa evoluiu tanto assim, pois a opressão continua, principalmente nas escalas hierárquicas menos tocadas pelo avanço tecnológico. E o que se aprendeu na base da força, tende a extravasar na mesma linguagem…

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Deste código de conduta é que se purga a ebulição das injustiças sociais no filme Um Toque de Pecado (A Touch of Sin, ganhador de melhor roteiro em Cannes 2013), do diretor chinês Jia Zhangke, acompanhando 4 contos inspirados em fatos reais, tendo como protagonistas silenciosos inconformados que vão seguindo em seu meio passivamente até virarem reagentes da febre ao redor. O título por si só já é irônico em inúmeros sentidos, pois ao se falar na palavra Toque remete a contato, à aproximação, quando não poderia ser mais contrastante, já que o território chinês, o mais vasto do mundo, é notório pela desigualdade social pelo afastamento populacional, alguns extremamente urbanos, outros rurais. Além disso, remete aos Pecados dos personagens, quando na verdade o único erro destes é contestar o status quo, o verdadeiro culpado/pecador.

21032555_20130828104921077Irônico também são as sutilezas de roteiro para metaforizar esta dicotomia entre obediência cega e vingança justiceira. Desde elementos subjetivos, como a vasta terra, com ligações constantes como túneis, trilhos, estradas, e pedágios, bem como os animais, feito a criação de cobras, o cavalo que apanha ou o gado, todos presos ao sistema; até elementos objetivos como os familiares coadjuvantes que ingenuamente sempre pensam saber o que é melhor para os protagonistas, ou seja: esta inércia social versus as frequentes explosões de violência e sangue, que parecem regar as sementes de ódio plantadas. Maquiavel já dizia que há um limite tênue entre o povo temer e odiar seu comandante, pois no segundo caso, pode se voltar contra ele. É a mesma hipótese do tanque na Praça da Paz Celestial, só que o inverso. Pondo em cheque não só as Instituições menores, há de exemplo a família, a arcaica figura patriarcal e autoritária do homem (vide como todas as mulheres da película são subservientes), como as maiores: o Estado, as Multinacionais e etc, do lixo ao luxo, pondo todos para trabalhar subordinados ao fluxo de caixa. Onde só o sangue pode libertá-los e inverter a corrente…

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O filme é contemplativo e cheio de elipses, o que pode cansar os desavisados esperando uma estética dinâmica de Tarantino ou, mais próximo geograficamente, o coreano Park Chan-Wook, porém aqui o foco não é a violência física, apesar de ela ser abundante, e sim a violência moral que os 4 protagonistas sofreram para reagir assim…

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