Uma Criatura Gentil

a Rússia de Vladimir Putin em xeque

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11 de outubro de 2017

Politicamente engajado, o cinema de Sergei Loznitsa (diretor nascido na Bielorrússia, mas que vive na Ucrânia) costuma bater forte na herança soviética da região. A obra-prima ficcional Minha Felicidade (2010), por exemplo, apresenta uma Rússia contemporânea infernal, tomada por violência, corrupção e miséria que levam o protagonista a uma assustadora transformação – e Loznitsa faz questão de estabelecer vínculos entre essa narrativa e o passado comunista, inserindo histórias semelhantes ambientadas no período. Já no documentário Maïdan (2014), o diretor registra, com entusiasmo, o movimento popular pela derrubada do ex-presidente ucraniano Víktor Yanukóvitch, defensor da aproximação entre seu país e a Rússia (que, claro, remetia à submissão política dos tempos da União Soviética).

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Uma Criatura Gentil, filme mais recente de Loznitsa, é absolutamente afinado com essa visão, ainda que seu alvo seja definido com maior precisão: a Rússia de Vladimir Putin, vista pelo diretor como cada vez mais continuadora do domínio soviético, algo manifesto, por exemplo, na recuperação de símbolos e datas comemorativas do passado – mesmo Stalin, outrora consensualmente criticado, vem sendo revalorizado pelo governo Putin. Em Uma Criatura Gentil, essa presença da União Soviética na Rússia atual aparece em momentos e elementos específicos e bem marcados, como o da viagem de trem na qual alguns dos passageiros rememoram, emocionados, as glórias dos tempos de Stalin e se referem à importância do rearmamento do país promovido pelo atual presidente; no vigilante busto de Lenin na praça da cidade visitada pela protagonista; na linguagem utilizada contra um pequeno grupo de defensores do direitos humanos nessa mesma cidade (eles são acusados de “fascistas” e de ligados ao imperialismo americano); e, claro, no epílogo onírico, visualmente organizado segundo a lógica das grandiosas cerimônias do regime comunista.

Loznitsa, portanto, escancara de vez sua postura antissoviética e anti-Putin, o que pode ser interpretado como consequência direta dos acontecimentos recentes na região, já que se trata de seu primeiro filme de ficção pós-revolução ucraniana. E o resultado, talvez justamente por esse peso político do presente sobre a feitura de Uma Criatura Gentil, peca pelo maniqueísmo. Protagonizado por uma mulher totalmente passiva (Vasilina Makovtseva) que, na busca por localizar seu marido numa longínqua prisão, sofre repetidas tentativas de abuso por diferentes personagens (o que faz lembrar um pouco Dogville, de Lars von Trier), o filme carrega excessivamente nas tintas negativas dessa Rússia profunda, representação que se quer ao mesmo tempo realista e simbólica. Não há acalento possível para a protagonista, já que todos ao seu redor são figuras deploráveis e oportunistas – como lhe diz um sujeito em determinado momento, ela não deve confiar nas pessoas e, diante da pergunta da mulher sobre se seria melhor então ir embora, ele responde que sim, emendando o questionamento: mas para onde?

É verdade que Uma Criatura Gentil demonstra pujança visual, nos planos longos e na fotografia que captura lindamente o decadentismo do interior da Rússia, e emocional, graças à intensidade dramatúrgica impressa por Loznitsa – algo recorrente em seus filmes, que frequentemente os aproxima do cinema de Elem Klimov, sobretudo da obra-prima Vá e Veja (1985). Mas a conclusão da narrativa, citada anteriormente, é excessivamente didática e enfadonha – trata-se de um sonho em que vários personagens, travestidos de autoridades soviéticas, fazem discursos a respeito da protagonista, fincando de vez os pés de Uma Criatura Gentil na crítica alegórica do passado comunista –, conseguindo sobrepor a mensagem política maniqueísta aos méritos estéticos de um diretor talentosíssimo.

Avaliação Wallace Andrioli

Nota 3