Uma Flor de Dama

Deus e o Diabo na terra do self, criadores de identidade

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01 de fevereiro de 2017

Rio, 29 de janeiro de 2017 — No dia da visibilidade trans, nada mais perfeito do que escrever sobre o verdadeiro tour de force do trabalho de Silvero Pereira na nova peça “Uma Flor de Dama”, após todo o seu sucesso com a premiadíssima peça anterior “BR Trans”. Silvero poderá ainda ser visto em breve como um dos protagonistas da nova novela de Glória Perez na Globo, com grande merecimento de versatilidade e transgressão.
Enquanto “BR Trans” era um espetáculo que resultou de anos de pesquisa de Silvero sobre a transfobia em diversas regiões do Brasil, encarnando várias personagens num palco subdividido em cenários ao redor de um telão de projeção, onde eram exibidas matérias sobre crimes contra trans, “Uma Flor de Dama” é um sensacional mergulho bem mais intimista na construção de personagem. Da questão trans em geral, a nova peça faz o recorte sobre a travestilidade.

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Com personificação corporal e psicológica de Silvero em uma artista trans que, apesar de ter alcançado reconhecimento e auto-sustento na carreira, ainda enfrenta os preconceitos de terceiros e os próprios de crescer sendo considerada diferente, os jogos de cena que Silvero é capaz de fazer com uma mesa, uma garrafa de cerveja e uma rosa são impressionantes. Tudo graças a um exímio domínio de palco sensível e forte ao mesmo tempo para que as pessoas entendam os direitos trans de uma vez por todas, com dramaturgia de ponta e emoção a flor da pele. Neste sentido, a direção do próprio Silvero com sua adaptação para o conto “Dama da Noite” de Caio Fernando de Abreu, acrescentando-se a isto uma iluminação primorosa de Renato Machado e do próprio Silvero, conseguem dar contornos e texturas a um palco sóbrio, munido de três setores simples, mas igualmente complexos do psicológico da personagem: o profissional, o social e o pessoal. Por isso o acertado uso de silêncios sensoriais no início da peça e ao final, como elementos da busca do outro, de identificação no olhar. E “o outro” vira personagem do padrão social espelhado e invasor do que seja considerado ‘certo oi errado’, com todas as idiossincrasias e corrupções excludentes a que isso leva. Sem falar que as marcações parecem conter um entendimento nato para engrandecer a persona evocada pelo protagonista deste monólogo que parece multifacetado em crer que a todo tempo ele esteja de fato conversando com pessoas em seu entorno tridimensionalizado, como se houvesse um enorme espaço preenchido entre o personagem de Silvero, a mesa do bar, a garrafa e a rosa…

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O texto e diálogos em si, e reitera-se a ironia de se ter diálogos  (o que pressuporia haver mais de uma pessoa no palco, mérito total do ator), reforçam desmistificar a figura trans ou travestida, como indivíduo contribuinte de impostos, de circulação monetária como todo mundo, de desejos e anseios, fraquezas e sonhos, medo e tesão… Porém, esta pessoa ainda é vista como diferente, e daí advém toda uma problematização de como encarar as mesmas escolhas que deveriam lhe ser dadas se não a encaram como igual? Como fica a questão da dignidade e da auto-estima da potência do eu? Para tolerar o que não lhe toleram, deve-se ficar ainda mais forte e resistente, quebrar paradigmas e converter seu discurso para corroborar uma chance em um novo universo, e é isso que o texto dá palavra à personificação de Silvero que não apenas recita falas, e sim incorpora Deus e o Diabo na terra do self, criadores de identidade. Como diria a belíssima música que começa e termina a peça: “I’ve been to Paradise, but I’ve never been to me” (Eu já estive no Paraíso, mas nunca estive para mim mesmo), como uma referência-homenagem ao filme icônico sobre travestilidade “Priscilla A Rainha do Deserto”.

Aviso: caso o espectador sente na fileira da frente na disposição de cadeiras do Teatro Poeira, onde a atual temporada da peça está sendo exibida, prepare-se para alguns sustos cênicos muito interessantes que valerão a pena disputar por tais valiosos assentos.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5