Uma Ilíada

Um texto primoroso que põe em cena Gomlevsky, vivendo um poeta de um tempo e lugar indeterminados

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01 de dezembro de 2015

“Uma Ilíada”, de Lisa Peterson e Denis O’Hare, com tradução de Geraldo Carneiro e direção e atuação de Bruce Gomlevsky, é o novo projeto, em forma de monólogo, em cartaz no CCBB/RJ, até o dia 21 de dezembro. Projeto bastante ousado, e desafiador, por ser uma adaptação condensada, e contemporânea, da obra Ilíada de Homero. Considerada como a “obra fundadora” da literatura ocidental e uma das mais importantes da literatura mundial. A Ilíada passa-se durante o décimo ano da guerra de Tróia e trata da ira de Aquiles. A ira é causada por uma disputa entre Aquiles e Agamenon, comandante dos exércitos gregos em Tróia, e consumada com a morte do herói troiano Heitor, terminando com seu funeral. Embora Homero se refira a uma grande diversidade de mitos e acontecimentos prévios, que eram de amplo conhecimento dos gregos, a história da guerra de Tróia não é contada na íntegra. Dessa forma, o conhecimento prévio da mitologia grega acerca da guerra é relevante para a compreensão da obra. A Ilíada é constituída por 15.693 versos em hexâmetro datílico, que é a forma tradicional da poesia épica grega. Foi composta por uma mistura de dialetos, resultando numa língua literária artificial, que nunca foi de fato falada na Grécia. Considera-se que tenha a sua origem na tradição oral desde tempos micênicos ou seja, teria originalmente sido cantada pelos aedos – poetas que cantavam as epopéias acompanhando-se de um instrumento de música, o forminx -, e só muito mais tarde os versos foram compilados numa versão escrita, em torno dos século IX a VIII a.C. em Atenas. O poema foi então posteriormente dividido em 24 cantos, divisão que persiste até hoje. A divisão, com cada canto correspondendo a uma letra do alfabeto grego, é atribuída aos estudiosos da biblioteca de Alexandria, mas pode ser anterior. Tornou-se, juntamente com a Odisséia (do mesmo autor), modelo da poesia épica, seguido pelos autores clássicos, como Virgílio, na sua Eneida, dentre outros. No entanto, a Ilíada influenciou fortemente a cultura clássica de maneira geral, abrangendo campos não só da literatura, como a poesia lírica e a tragédia, mas também a historiografia e a filosofia. Sendo estudada e discutida na Grécia Antiga e, posteriormente, no Império Romano.

Uma Ilíada

O figurino de Carlol Lobato dialoga com o tempo contemporâneo da proposta cênica

Uma Ilíada

Vários artifícios de iluminação são usados por Elisa Tandeta, como o uso de velas

O projeto “Uma Ilíada” é muito pertinente nos dias de hoje, em que vemos diante de nossos olhos os inúmeros conflitos, em três mil anos, do homem contra o homem, que chega ao seu ápice no mundo contemporâneo, da invasão de imigrantes sírios por toda a Europa – um enxame de pessoas jamais antes visto. Diante de tanta sede de poder, de imposições, de intolerância religiosa, racial, política, ganância e ferocidade; este projeto dialoga com força a um tema tão caro à nós.  A adaptação, uma tradução de Geraldo Carneiro para o texto “An Iliad”, da diretora e do ator americanos Lisa Peterson e Denis O’Hare, foi feita especialmente para esta montagem brasileira. Um texto primoroso que põe em cena Gomlevsky, vivendo um poeta de um tempo e lugar indeterminados, acompanhado pela contrabaixista Alana Alberg, onde faz uma releitura dos antigos “aedos”, artistas andarilhos da Grécia Antiga que cantavam para o povo e para as cortes os poemas “homéricos” acompanhados por um instrumentista. Cercado de grandes momentos, podemos constatar toda a sua beleza, poesia e contundência ao narrar que bastava apenas devolver Helena, para que aquela grande guerra toda não tivesse acontecido. Gregos e troianos entraram em guerra por causa do rapto da princesa Helena de Troia (esposa do rei lendário Menelau), por Páris (filho do rei Príamo de Tróia). Isto ocorreu quando o príncipe troiano foi à Esparta, em missão diplomática, e acabou apaixonando-se por Helena. O rapto deixou Menelau enfurecido, fazendo com que este organizasse um poderoso exército. O general Agamenon foi designado para comandar o ataque aos troianos. Usando o mar Egeu como rota, mais de mil navios foram enviados para Tróia. Outro ponto altíssimo do texto é quando o aedo narra todas as guerras da (des)humanidade, e o seu rosto vai sendo coberto de sangue, simbolizando todos os banhos de sangue de proporções aterrorizantes, em todos os tempos. A direção de Bruce Gomlevsky é bastante segura, auxiliada mais ainda por ele se auto-dirigir, e com isso ter pleno domínio de todo o espetáculo. Ele consegue transmitir com bastante clareza e marcas bem desenhadas, todos as fases em que se passa esta Ilíada. Como um ótimo menestrel e contador de histórias, ele consegue nos levar através desta simplicidade, para um mundo bem longínquo de nós, e coberto de sofisticação na encenação. Dialogando com a contemporaneidade, os figurinos são muito bem-vindos, ente uma mescla do passado na parte superior, e de calça jeans na inferior. Muito sensível também é o uso de uma musicista que pontua todo o espetáculo, com o seu contrabaixo, em um tom ótimo. Forte e grave. Como pede esta delicada, e trágica, história épica. A luz de Elisa Tandeta, uma das mais interessantes deste ano, tem uma beleza ímpar em usar refletores em angulações inusitadas e fazendo da cor, um signo da localidade geográfica a ser apresentada, como o céu, o mar, as batalhas sangrentas. Ainda que exista um grande virtuosismo, e um certo exagero, nas dezenas de mudanças de luz. Cria-se uma espetacularização superior a simplicidade do contador de historias, e de toda a magia das palavras bem engendradas por Bruce. Sendo também excessivo o uso de fumaça, uma característica dos trabalhos que ela realiza em dupla com Gomlevsky. A atuação de Bruce como este contador de histórias é coberta de refinamento corporal, gestual e vocal. Toda a história nos chega com grande fluência e interesse, em nuances bem definidas e marcantes. “Uma Ilíada” é um projeto arrebatador.

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Gomlevsky na cena mais impressionante do banho de sangue de todas as guerras da (des)humanidade

Uma Ilíada

Ao fundo a participação expressiva, e pontual, da contrabaixista, Alana Alberg

ESTREIA: dia 05 de novembro (5ªf), às 19h

LOCAL: Teatro 1 
do Centro Cultural Banco do Brasil- Rua Primeiro de Março, 66 – Centro  RJ    Tel: 21 3808-2020

HORÁRIOS: de quarta a segunda feira, sempre às 19h

INGRESSOS: R$10,00 e R$5,00 (meia entrada)/ funcionamento bilheteria: de 4ª a 2ª, das 09h às 21h (aceita cartão e venda no site http://www.ingressorapido.com.br/)

CAPACIDADE: 172 espectadores

GÊNERO: drama

DURAÇÃO: 80 minutos

CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 12 anos

TEMPORADA: de 29 de outubro a 21 de dezembro.

 

FICHA TÉCNICA

Texto: Lisa Peterson e Denis O’Hare

Tradução: Geraldo Carneiro

Direção e interpretação: Bruce Gomlevsky

Trilha sonora original: Mauro Berman

Contrabaixista: Alana Alberg

Iluminação: Elisa Tandeta

Figurino: Carol Lobato

Cenário: Bruce Gomlevsky

Direção de movimento: Daniela Visco

Assistente de direção: Lorena Sá Ribeiro

Fotos: Dalton Valério

Projeto Gráfico: Maurício Grecco e Tiago Ristow

Direção de Produção: Carlos Grun – Bem Legal Produções

Produção e Realização: BG ArtEntretenimento Ltda

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

 


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