Uma Lição de Amor

Quando a simplicidade enriquece a obra

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22 de junho de 2020

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Aviso: O texto pode ter spoilers sobre a trama.

Neste momento difícil pelo qual todos nós estamos passando com a pandemia do coronavírus, o grande fluxo de notícias a que somos expostos diariamente através de jornais, mídias e redes sociais é duro, porém necessário. Entretanto, tamanha exposição pode ser exaustiva para muitos e até mesmo atuar como um gatilho de ansiedade para outros, fazendo com que momentos de “respiro”, onde o consumo de entretenimentos leves sejam necessários e saudáveis. O filme Uma lição de amor (Drôle de père, no original) é uma excelente escolha para quem busca um longa-metragem para estes momentos, pois se trata de uma produção leve, humana e com uma bela mensagem.

Dirigido por Amélie Van Elmst e produzido pelos Irmãos Darlene e também por ninguém menos que o diretor Martin Scorsese, o drama belga lançado em 2017, foi exibido durante o Festival de Cinema de Brasília deste ano – que em virtude da pandemia aconteceu online.  O roteiro, assinado pela diretora em parceria com Matthieu de Braconier, conta a história da menina Elsa (Lina Doillon, filha de Van Elmst) que em virtude de uma série de contratempos cotidianos acaba sendo deixada aos cuidados de Antoine (Thomas Blanchard) durante uma viagem de trabalho de sua mãe, Camille (Judith Chemla). O que Elsa não sabe é que Antoine na verdade é seu pai, a quem nunca conheceu/foi apresentada ao longo dos seus cinco anos de vida; e que o mesmo havia batido à porta de Camille minutos antes, depois de anos de distanciamento.

Ao longo dos seus 86 minutos de exibição, a obra apresenta em sua maioria cenas protagonizadas por Antoine e Elsa – cuja química é excelente e indiscutível. Não são mostrados diretamente ao expectador os acontecimentos que causaram a ruptura familiar, apenas algumas sutis indicações no extracampo acerca das ambições profissionais de Camille ou da imaturidade de Antoine. Tal recurso parece ser proposital; fica claro que o objetivo do filme não é mostrar o que levou as personagens até aquele ponto, e sim como a relação delas se dará a partir deste encontro.

Conforme dito pela Variety “o filme acontece no tempo presente”, ou seja, é mostrado em tela uma espécie de “tempo real”, com o encontro, nascimento e desenvolvimento do vínculo entre pai e filha, assim como o amadurecimento do próprio Antoine como pai. Elsa e Antoine conhecem-se mutuamente ao mesmo tempo em que o espectador também o faz.  E através das emoções expressadas pela pequena Elsa é possível perceber o impacto que a ausência da figura paterna lhe causou. As consequências de tal alienação são sentidas não somente por pai e filha, mas também pelos outros familiares envolvidos na trama – avós, tios e amigos. E mesmo diante de toda a “oferta” de recursos materiais que Elsa tinha à sua disposição e da presença e dedicação da mãe, é nítido o vazio sentido pela menina.

O roteiro não é ousado e a produção entrega o que se propõe a fazer; Uma lição de amor é o segundo filme da jovem diretora belga, que consegue manter um bom ritmo na trama mesmo com cenas que oscilam entre diálogos sutis e cheios de entrelinhas entre pai e filha, e cenas mais dinâmicas como a sequência dentro da casa de repouso onde está a mãe de Antoine. A fotografia e cenografia também se destacam, mostrando traços das personalidades das personagens (projetos de arquitetura misturados com desenhos infantis na casa de Camille ou uma cozinha muito equipada com direito a um local para cultivo de temperos de Antoine). Já nas cenas externas é possível observar a bela arquitetura belga, tanto em cidades mais urbanas, quanto no interior, através do chalé da família de Antoine.

Amélie Van Elmst entrega uma produção despretensiosa, com belas passagens e capaz de entreter e emocionar. De fato uma excelente escolha para quem busca um entretenimento leve, porém não trivial.

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