Loucas para Casar

Uma Metaneochanchada para corações apaixonados

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02 de janeiro de 2015

Loucas Pra casar 1

Loucas para Casar’ desafia os maneirismos das comédias de costumes brasileiras com sensualidade e um roteiro avesso a fórmulas óbvias

Frente ao esgotamento vivido pela neochanchadas, o filão cômico brasileiro de comédias verbais, nas quais a palavra é o centro e a imagem é a periferia, um filme de exceção cava sua vaga ao circuitão das pipocas na próxima quinta-feira. Trata-se de um filme que aposta na dobradinha entre Roberto Santucci (diretor) e Ingrid Guimarães (estrela), que já deixou muito exibidor “de pernas pro ar” – mas não é “mais um filme” e nem é “uma dobradinha” pela “dobradinha”. Tem mais, muito mais, em “Loucas pra casar”. Estamos diante de uma produção com estranhezas narrativas (talvez a palavra certa seja “ousadias”) incomuns à linhagem contemporânea de filmes para riso descartável. A diversão está lá, bonitinha em seu lugar, bem representada pelos improvisos de Ingrid e pela habilidade de a atriz escavar porosidades em superfícies narrativas sem tridimensionalidade. A sensualidade comum ao filão – que herdou o interesse pelo erotismo das comédias picantes pós-69 (o ano, não a posição de rala & rola), ou apenas pornochanchadas – também se faz presente neste décimo longa-metragem da grife Santucci, representada pelas coxas grossas e decotes bem-aventurados de Suzana Pires e por uns assanhamentos da mocinha papo-Bíblia encarnada por Tatá Werneck. Mas algo tira o projeto da Glaz Entretenimento da comodidade regular da nova comédia brasileira com ambições de blockbuster.

Há em “Loucas pra casar” um desalinhamento (proposital) em seu roteiro, no esforço em embaralhar a história de três mulheres apaixonadas pelo mesmo sujeito (Márcio Garcia, em bom momento cênico). Esse desalinhamento evoca, ora de leve, ora no tranco (sem vaselina) a dramaturgia kitsch do Almodóvar dos tempos do saudoso “De salto alto” (1991) e de “Kika” (1993).

É um filme sem medo de desvarios, sem temor da incorreção política, debochado com rótulos das identidades sexuais (jamais perder o respeito por elas) e implacável com os moralismos clássicos da cultura brasileira. E, mais que isso, é daqueles roteiros em que, lá pelo fim do segundo do terço, você olha para a esquerda, olha para a direita, e diz: “como é que o cineasta vai resolver isso?”, numa sensação de impasse aparente que só as boas comédias de costumes almodovarianas e as iguarias italianas à la “Pato com laranja” (1975), de Luciano Salce, provocavam. Essa sensação de dúvida, de irresolução aparente, de um inegável desconforto frente à integridade afetiva das personagens rendem um frescor de que, há tempos, os filmes cômicos made in Brazil não desfrutavam. É talvez uma metaneochanchada, que ri de si mesmo e nos faz rir dos vícios de linguagem que o cinema brasileiro insiste em regar com água fresca semestre a semestre.

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Numa situação atípica perto da pudica heroína da franquia “De perna pro ar”, Ingrid Guimarães chega a “Loucas pra casar” mais abusada, com menos traços de Julia Roberts e mais jeitão de Victoria Abril, a musa de tacones lejanos de Almodóvar. Sua nova personagem, Maria “Malu” Lúcia, é uma funcionária exemplar na construtora/ imobiliária gerida por seu namorado Samuel (Márcio Garcia). Os dois vivem de fantasias sexuais diversas até o dia em que ela descobre o envolvimento entre ele e uma stripper, Lúcia (interpretada pelo açaí Suzana Pires), e uma carola de Magé, Maria (Tatá Werneck, numa interpretação sem tiques de stand-up, mais parecida com a Felícia dos “Looney Tunes” em seu olhar azulado de amante possessiva). Aos poucos, Malu tenta tirar satisfação com cada uma das sobremesas de seu amado, considerando-se o prato principal dos banquetes carnais dele. Numa atuação madura, Márcio patina do anti-heroísmo romântico ao arquétipo do “príncipe encantado” no papel de Samuel, que parece equilibrar suas três amadas sem desarmonia e sem necessidade de criar disfarces. Sua postura gera no espectador uma certa desconfiança – ampliada pelos momentos de suspense que a montagem precisa de Marcelo Moraes distende ao máximo para embatucar a plateia, sem tirar desta o direito à diversão.

O que vinha se formando como um filme sobre o livre arbítrio do coração, ao construir personagens com a necessidade de escolher que caminho tomar, vai, aos poucos, dando lugar a uma reflexão sobre a histeria amorosa da pertença, da necessidade de um compromisso, da imposição do casamento como um caminho único para a felicidade. Num script engenhoso, que engana o olhar e dribla deduções óbvias, sem jamais perder piadas, o roteirista Marcelo Saback (com uma contribuição luxuosa da dramaturga Julia Spadaccini) propõe uma bem-vinda gincana pelos valores do romantismo nacional, indo à instância do descontrole para criar um “Mulheres à beira de um ataque de nervos” tipicamente carioca, no qual Ingrid evolui algumas casas no tabuleiro do amadurecimento como atriz.

Malu é uma neoheroína dos anos 2010, que oscila entre o o medo do risco e a comodidade da vida sem erupções, incapaz de enxergar o reflexo de sua própria grandeza. É uma comédia com desejo de sai do pântano da gag pronta ou do happy end careta. Para isso, fala de pessoas que tentam, tentam, tentam e tentam em prol desse pássaro azul chamado alegria. Visualmente, a direção de Santucci deixa pontas soltas aqui e acolá, com cenários falsos (com pinta de chroma key) desnecessários, mas não deixa desestruturar (nunca) a viga central da narrativa, cujo foco é o esforço que uma apaixonada patológica precisa para olhar a si mesmo. Mas mesmo este “patológico” precisa ser bem frisado, pois a patologia de Malu nunca resvala no limite do caricato. É, antes de tudo, uma love story para se ver de mão dada com quem se ama e uma comédia para se rir a dois, a três, a mil, na suruba coletiva que esse motel platônico chamado cinema oferece.

De brinde, Santucci mantém seu traço padrão de valorizar personagens periféricos com a ajuda de coadjuvantes de peso, como Camila Amado, na pele da mãe de Malu, Fabiana Karla como a amiga lésbica da “quase-mocinha” e, sobretudo, Edmilson Filho, num show particular como o coreógrafo gay Rubi. Talvez “Loucas pra casar” não seja “a” comédia de que a Comédia Brasileira tanto carece. Mas é um banho de descarrego e tanto frente às estagnações em que o gênero vez por outra esbarra.


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