Uma Mulher Sob Influência

Um dos maiores exemplares cênicos femininos: O colapso da intolerância de estrutura patriarcal

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21 de agosto de 2019

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Já que em 2019 faz 30 anos de falecimento do grande diretor John Cassavetes, e que completaria 90 anos em dezembro se estivesse vivo, a mesma idade de sua viúva e parceira de criação artística, Gena Rowlands, vale relembrar esta obra GIGANTE da dupla chamada “Uma Mulher Sob Influência”, dirigida por ele e estrelada por ela:

Originalmente publicado por Filippo Pitanga em 23 de março de 2015, ora revisado.

O papel da mulher evoluiu muito na guerra dos sexos da dramaturgia mundial desde a época do Teatro Kabuki ou das peças de Shakespeare, quando homens travestidos interpretavam as personagens femininas, pois estes papéis ainda não podiam ser interpretados pelas próprias mulheres. Talvez um dos maiores pontos de virada deste marco cênico decerto tenha sido a interpretação de Gena Rowlands em “Uma Mulher Sob Influência” (“A Woman Under The Influence” de John Cassavetes, 1974), na pele de uma dedicada mãe de classe média que é mal interpretada como ‘louca’ por terceiros, em parte porque o marido não estaria apto socialmente para compartilhar o peso do papel familiar da mulher nas expectativas estruturais da época (na verdade, isso ocorre até hoje!). Muito pelo contrário, não apenas falhando, o marido, em dividir o ônus da casa, como igualmente até instigando esta suposta ‘loucura’ pelo buraco de sua ausência.

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Um dos grandes méritos do filme advém de uma ironia extradiegética, mas que talvez tenha ensinado muito da vida real na construção colaborativa da trama: Há uma cumplicidade intimista atrás das câmeras através do diretor/roteirista John Cassavetes, um dos pais do cinema independente americano de baixíssimo orçamento e de ideias criativas, junto com a atriz-assinatura em quase todas as suas obras: Gena Rowlands, sua esposa na vida real e uma das mães da mise-en-scène contemporânea (tema de estudo de muitos pesquisadores que se debruçam sobre a interpretação feminina moderna). Isso se dá graças ao fato de nenhum dos dois jamais julgar a personagem principal, e sim permitirem com que o espectador possa mergulhar na espiral da mesma indignação de injustiças que a protagonista passa.

Tudo isso através de uma câmera que transgride as fronteiras da privacidade, de closes extremos, desconcertantes e quase fora de foco, assim como a visão embaçada da personagem com a qual lhe impõem enxergar, aleijada pelo meio. E isto se reflete no constante clima tenso, ora compulsivo, ora assombroso, mas sempre reflexivo, revelando que a ‘loucura’ pode estar no olhar dos outros (“o inferno são os outros”, como já dizia Sartre), e na dificuldade de encarar o próprio reflexo afora de estereótipos sociais nocivos no inconsciente coletivo. A personagem de Gena vira um espelho distorcido de fractais alheios a ela mesma, porém contidos nela também, absorvendo a loucura dos outros.

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A construção dramatúrgica do colapso nervoso que leva aquela personagem a surtar pelos outros é captada com maestria por uma atriz em estado de graça: desde as sutis expressões ao movimento de braços, mãos e dedos, até chegar nas implosões climáticas que esfacelam o cenho dela. Na verdade, isto não deve ser encarado como uma doença isolada e hermética apenas dentro do universo do filme, e sim como uma metáfora muito maior. A guerra dos sexos em todas as pequenas grandes injustiças sofridas por ela reflete diretamente no aumento da abstração patológica imposta por terceiros, de modo alheio à própria vontade. Ou seja, o condicionamento estrutural de toda família, com altos e baixos coletivos, com tempestades e calmarias, ressentimentos acumulados e compreensões piedosas, faz com que cada membro passe a ser a soma de seus familiares, ao mesmo tempo em que se pode dizer que ninguém seja tão cobrado neste sistema quanto a figura coletiva de todas as mães. E isso em se tratando de uma sociedade que renega seu matriarcado a privilegiar um suposto patriarcado, o qual jamais teve de arcar com o mesmo nível de exigência com que as figuras femininas na família.

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Todo este conteúdo social é exprimido com pura linguagem cinematográfica. E, por mais que Cassavetes faça um cinema independente dos ditames de mercado ou exigências de categorizar a arte, a liberdade criativa correndo por fora da indústria faz com que o diretor tenha liberdade de colocar todas as referências num liquidificador e gerar algo novo. Algo como outro cineasta famoso por seu cinema autoral e de invenção costumava descrever como uma avacalhação terceiro-mundista de todos gêneros ao mesmo tempo, no caso, o diretor brasileiro Rogério Sganzerla. E Cassavetes também ‘avacalha’ a necessidade de se ter de categorizar qualquer coisa, utilizando-se do ritmo e cortes de filmes de suspense, naturalismo de Nova Hollywood, tensão de filmes de horror psicológico, melodrama neorrealista e tragédia clássica.

O casal formado por John e Gena dão um passo a mais na parceria criativa para além dos arquétipos já construídos na história do cinema da ‘mulher enlouquecida’ como em “Repulsa ao Sexo” de Roman Polanski (1965), “A Bela da Tarde” de Luis Buñuel (1967) — ambos com Catherine Deneuve, e “O Bebê de Rosemary” também de Polanski (1968). Isto porque, diferente dos títulos supracitados, que usam de certo realismo fantástico para justificar o rompimento da normalidade e o mergulho no subconsciente (o primeiro com a claustrofobia da casa que ganha vida, o segundo com sonhos sado-masoquistas e o terceiro com o ‘bebê do diabo’), no filme “Uma Mulher sob Influência” o próprio Cassavetes e Rowlands não retiram em nenhum momento a responsabilidade da concretude. A veracidade machuca mais do que qualquer suspensão da realidade.

E as crises começam e terminam muito mais na base da metáfora do real, mais ou menos como funciona a lógica da motivação das aves que atacam no clássico “Os Pássaros” de Hitchcock, que parecem atacar do nada e sossegar também imprevisivelmente, quando, na verdade, elas são apenas reflexo do estado emocional da família central… Assim como a protagonista de Gena, que é uma esponja para inúmeros machismos e abusos permissivos com os homens em tela, mas pejorativos às mulheres dentro e fora dela. E este é um cabo de força atualíssimo até os dias de hoje, que precisa ser revisitado e contraposto em tempos diferentes como nesta grande obra de 1974 e seu impacto em pleno 2019.

Vale ressaltar que o filme foi indicado ao Oscar de 1975 nas categorias de melhor direção para John Cassavetes, perdido para Francis Ford Coppola por “O Poderoso Chefão Parte II”, e melhor atriz para Gena Rowlands, perdido para Ellen Burstyn por outro papel feminino paradigmático em “Alice Não Mora Mais Aqui” de Martin Scorsese*. — Sendo que, na humilde opinião deste crítico, Gena entrega algo ainda mais ímpar e vanguardista do que Ellen, pois, apesar de a personagem desta ser mais protagonista em tempo de cena do que a de Gena, ainda assim o roteiro de “Alice Não Mora Mais Aqui” possui alguns facilitadores e flexibilizações na crítica social de época para a superação de obstáculos, vinculando o sucesso da personagem no final a estar ainda acompanhada de um par romântico, enquanto que a denúncia de “Uma Mulher Sob Influência” permanece tão contundente quanto na época.

*Gena Rowlands saiu vitoriosa na mesma categoria no Globo de Ouro do mesmo ano.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5