Uma Noite em Miami…

Primeira indicação de cineasta negra ao Oscar de Direção?

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25 de janeiro de 2021

É algo muito mágico poder acompanhar a carreira de alguém que você admira no cinema, tanto profissional quanto pessoalmente, em tempo real. Nem sempre isso é possível. Podemos maratonar todas as obras de quem já faleceu, ou, ainda, podemos ser apresentados a uma pessoa nova que desconhecíamos, e só aí tentarmos ir atrás de tudo o que ela já fez. Porém, é totalmente diferente quando você percebe que aquela pessoa tem futuro antes mesmo de ela alcançar a fama. E que orgulho é ter acompanhado a carreira da atriz Regina King, ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante pelo poético “Se a Rua Beale Falasse” de Barry Jenkins (2018) – leia mais aqui – e agora vê-la desembocar neste belíssimo trabalho em sua estreia como diretora de longas-metragens de ficção com “Uma Noite em Miami…” (“One Night in Miami”, 2020, disponível na Amazon Prime Vídeo), baseado na peça homônima de Kemp Powers em 2013.

A primeira aparição da artista no cinema havia sido numa das várias parcerias em que foi dirigida pelo amigo John Singleton, recém falecido aos 51 anos de idade em 2019. O filme era o incrível “Os Donos da Rua” (“Boyz n The Hood”, 1991), ao lado do mesmo Cuba Gooding Jr. com quem ela viria a brilhar depois em seu primeiro papel de mais destaque: “Jerry Maguire – A Grande Virada” (1996). Curiosamente, suas participações no cinema começariam a ficar escassas, chegando sempre um tico atrasada em franquias já engatilhadas, porém jamais deixando de sobressair, ainda que ao lado de pesos pesados como Reese Witherspoon em “Legalmente Loira 2” (“Legally Blond 2”, 2003) e Sandra Bullock em “Miss Simpatia 2” (Miss Congeniality 2”, 2005) – com a inesquecível cena de Regina vestida como Tina Turner.

Enquanto isso, ela brilhava em séries na Televisão, não só atuando, como em “24 Horas” (2007), ou como a melhor personagem no melhor episódio da segunda temporada de “The Leftovers” (2015), e na premiada “American Crime” (2015-2017); mas como também dirigindo episódios de sucesso em “Greenleaf” (2016), “Animal Kingdom” (2016), “This is Us” (2017), “The Good Doctor” (2018), e “Insecure” (2018).

No entanto, foi apenas depois de ganhar o Oscar em 2018 que as portas se abriram para o projeto que ela bem entendesse. E não só brilhou intensamente na melhor série de 2019, “Watchmen”, como ganhando abertura para dirigir “Uma Noite em Miami…”, sua estreia na direção de longas-metragens de ficção, lançado no Festival de Toronto ano passado (ela já havia dirigido o documentário “Story of a Village” em 2014, junto com Dwayne Johnson-Cochran, que permaneceu inédito no Brasil).

Agora, todos enfim terão a oportunidade de assistir ao seu novo filme no streaming pela Amazon Prime Vídeo, e é desde já forte candidato para várias indicações ao Oscar 2021, não apenas para as categorias principais de praxe, porém com um diferencial: Regina King pode ser a primeira mulher negra a ser indicada para melhor direção em 93 anos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

E não estamos falando sobre a possibilidade deste recorde apenas como uma voz ecoando sozinha no vazio, nem de forma alguma sem o respectivo mérito. Todas as maiores bancas de apostas para as premiações deste ano a colocam no topo, ao lado de “Nomadland” de Chloé Zhao (leia aqui), fazendo com que a disputa ferrenha pela estatueta dourada seja entre duas mulheres não brancas, uma negra e outra oriental. E quão surpreendente foi poder presenciar esta cereja no bolo do consciente e seguro processo criativo de Regina King para seu novo trabalho, desta vez atrás das câmeras.

Curiosamente, há de se confessar, por parte deste que vos escreve, que havia a cogitação de poder incorrer apenas num “feel good movie” (filmes que geram bem estar)… O que não teria problema algum, pois isso não é nem mérito nem demérito de linguagem para figurar entre indicados ano após ano. Como comprovam outros recentes que já figuraram no Oscar mais pela importância do tema do que pela execução do trabalho, exemplificados nos melodramas com toques de humor “Estrelas Além do Tempo” (2016) e “Greenbook – O Guia” (2018) – valendo mencionar que este último, então, sequer merecia a estatueta de melhor filme que ganhou (leia aqui).

E qual não foi a revelação ao perceber que Regina teria conseguido apreender toda a sua experiência com carga dramática interiorizada para dirigir atores como ninguém, e pegar uma adaptação da peça homônima para fazer muito mais do que teatro filmado. Começando por juntar num mesmo quarto quatro amigos famosos que desejavam celebrar a vitória histórica de um deles, e cujos debates acalorados vão se adensando numa reivindicação de usar suas famas com responsabilidade para a militância, em prol das questões raciais, que também geravam turbulências já naquela época – e continuarão a gerar enquanto fecharmos os olhos para o racismo estrutural.

Vale ressaltar que apesar de o roteiro se basear numa noite fictícia, os envolvidos eram verdadeiramente amigos na vida real: nada mais, nada menos que Cassius Clay (Eli Goree), o famoso pugilista que se converteria ao islamismo e adotaria o nome de Muhammad Ali; o ativista Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), fundador da Organização para a Unidade Afro-Americana; o cantor/compositor Sam Cooke (Leslie Odom Jr.), um dos maiores representantes do Soul como gênero musical; e Jim Brown (Aldis Hodge), atleta recordista que depois ingressaria no cinema norte-americano como ator.

Até a metade da projeção, estes quatro dividem o protagonismo de tela em tempos razoavelmente proporcionais, começando por suas introduções acertadas em seus respectivos microcosmos, todos eles girando em torno da grande vitória de Cassius contra Sonny Linston pelo cinturão mundial do boxe no Miami Beach Convention Center. Aliás, vale mencionar aqui o fato de a diretora poder passear por vários gêneros logo de plano. Ela foi capaz de misturar muitos estilos em sua linguagem, desde cenas de luta, como no ringue com Muhammad; uma espécie de musical às avessas com Sam Cooke; e até uma tensão proveniente da espionagem e perseguição governamental com o fato de Malcolm X ter sido bastante vigiado veridicamente pelo FBI (os registros são amplamente públicos, e já foram usados antes em outros filmes, como no longa-metragem dirigido por Spike Lee em 1992 do qual ele é personagem-título).

Com a junção da fotografia de Tami Reiker e montagem de Tariq Anwar, a condução segura de Regina consegue passear pelos enquadramentos com corpos dançantes da luta de Cassius e Sonny de forma emocionante, na primeira terça parte da narrativa, sem deixar de ser ágil e pictórica ao mesmo tempo, e acrescentando até mesmo pequenas tiradas irônicas – como o atleta fazer troça do calção que não podia sujar de sangue para poupar sua mãe do trabalho de lavar, numa clara alusão à importância das matriarcas negras, homenagem mais que devida da diretora. – Muhammad era notoriamente provocador em seus embates, e até sarcástico, como parte de uma couraça de proteção (e projeção de seu ego), a lhe defender do racismo que não deixava de existir até nos esportes onde costumava ser idolatrado.

Inclusive, sua postura jocosa é muito bem explicada no roteiro, como referência a um ídolo branco e loiro que todos amavam odiar nos ringues, bastante respeitado e muito bem pago, e que Cassius emulou na armadura de sua persona pública, como revelado em diálogo confessional logo após o personagem rezar para Meca com seu mentor no islamismo, Malcolm X. E tudo isso justamente no dia em que o boxeador revelaria ao mundo sua nova fé e nome a partir de então, Muhammad Ali, logo após a vitória sobre Sonny.

São estes pequenos detalhes históricos que adensam e acrescenta camadas muito interessantes sobre suas influências plurais, com desdobramentos para além da força bruta, numa versão interessante encarnada por Eli Goree. Proveniente de trabalhos em sua maioria televisivos (“Riverdale”, 2018-2020), o ator aqui funciona tanto fisicamente quanto ritmicamente, pois a presença física na fluência dos cortes dos movimentos de câmera e da edição é aproveitada de modo mais eficaz do que sua eloqüência verbal – os melhores diálogos serão destinados mais ao restante do elenco.

Já as partes cantadas do filme através da trilha de Sam Cooke, um dos melhores intérpretes da história da música, ganham versão na voz do excelente ator Leslie Odom Jr., premiado ator do teatro que já era bastante maturado em musicais, como dando vida ao melhor personagem da peça “Hamilton” (que pode ser vista em sua versão filmada na Disney Plus, leia aqui). Mas o gogó de ouro não foi a única razão do perfeito casting de Odom Jr, mesmo que de princípio ele aparentasse que seria a personagem mais leve dos quatro protagonistas. Se até aqui tivemos boxe, música e espionagem, em mistura híbrida de gêneros, é da origem teatral do texto, adaptado dos palcos para o cinema pelo próprio dramaturgo, Kemp Powers, que surge a verdadeira narrativa mais intimista e pantomímica com que a trama transcorrerá…

E se o quarto do hotel, onde se desenrolará as tensões daquela noite entre amigos, pode aludir à estética de filmes confinados num só cômodo, ainda mais com o tema do racismo em jogo, eis o ponto de ebulição a partir do qual a direção de atores criará um duelo memorável de diálogos inesquecíveis justamente entre Sam Cooke e… Malcolm X! Daí surge uma química inestimável marinada entre seus intérpretes, Leslie Odom Jr. e o ladrão de cenas Kingsley Ben-Adir – talvez o nome menos conhecido do elenco, visto mais em séries como “Peaky Blinders” (2017) e “The OA” (2019), e justamente aquele que está angariando o maior número de prêmios, como recentemente no Gotham Awards, merecidamente. Uma das melhores versões de carne, osso, emoção e expressão já dadas a este muitas vezes mal compreendido personagem histórico verídico.

É esta química entre Odom e Ben-Adir que vai atear fogo de vez às palavras do texto original, e travar um paradoxo entre dois tipos de militância completamente distintos, dois tipos de referenciais ou extremos, um ainda calcado em mediação com o mundo branco, e o outro numa ruptura total. Não sem respeito e admiração mútuas, e sim com provações de vida que eles contrastam um ao outro. As seqüências que esmiúçam a letra da música de Bob Dylan, “Blowin’ in the Wind”, e a performance de “Chain Gang” são brilhantes, o que desembocará no estudo de composição da paradigmática “A change is gonna come” – levando provavelmente boa parte do público às lágrimas de arrepio e emoção (para quem já é fã ou mesmo quem ainda não é fã da inesquecível canção. Ênfase no ‘ainda’).

Por outro lado, mesmo que o elenco ainda conte com participação dos excelentes Lance Reddick (“Fringe” de 2008/2013 e “John Wick” de 2014/2019) e o sumido Michael Imperioli (“Família Sopranos” de 1999/2007), infelizmente não deixa de conter pontas soltas, como o promissor Aldis Hodge, ainda subaproveitado como coadjuvante de luxo em filmes como “O Homem Invisível” de LeighWhannell (2020), e séries como a injustamente descontinuada “Underground” de Misha Green (2016), pois ainda não foi a hora de o ator mostrar tudo do que é capaz – ainda que forme a ponte perfeita para a catarse dos outros. E lhe é reservada ao menos uma excelente fala sobre colorismo, que só ele poderia evocar, por ser o ator de pele mais retinta do elenco.

É bastante sintomático que a extensa carreira de Regina King como atriz e diretora na TV tenha dado reconhecimento aos colegas extraídos das mesmas mídias, já que ela própria precisou de uma chance justa em mais de um momento de sua carreira para mostrar que superaria todas as expectativas – outro efeito do racismo estrutural, desta vez no extracampo e na função social do cinema. E agora é ela quem está dando as cartas, como promessa gigantesca na direção de cinema. Ainda iremos escutar muitas coisas vindas dela no futuro, que provavelmente caminha na direção de ser um nome a ser imortalizado agora igualmente nesta seara, como com todo o equilíbrio demonstrado nas mais diversas técnicas.

Portanto, se a pegada teatral supracitada poderia facilmente incorrer no tipo de “teatro filmado”, outrora criticado negativamente nesta própria coluna quando comentamos outro favorito ao Oscar 2021, “A Voz Suprema do Blues” na Netflix (leia aqui), e a fonte da qual ambos bebem, “Um Limite entre Nós” de Denzel Washington (2016), o fato é que “Uma Noite em Miami…” transcende esse estigma. Talvez pela porosidade com que absorve por osmose a tensão das outras estéticas já previamente aqui elencadas, como a de luta e a de espionagem… Vide as câmeras que alternam entre os closes intimistas e o distanciamento quase “stalker” (como nas cenas da cabine telefônica), como se espiasse de longe estes ídolos, esperando uma chance de poder chegar perto de seus pedestais e não se queimar… Porém, na verdade, é o lado humano, demasiadamente humano, com que Regina transforma em pólvora as maiores feridas e vulnerabilidades, as quais apenas melhores amigos poderiam tocar tão de perto, que faz com que as palavras se materializem num filme-manifesto. A declaração que suas personagens fazem é também a declaração de sua diretora. E que baita declaração de estréia esta se torna. Para Regina King e para nós, o público, que só tem a ganhar.

Originalmente publicado na Revista Fórum:
https://revistaforum.com.br/rede/uma-noite-em-miami-primeira-indicacao-de-cineasta-negra-ao-oscar-de-direcao-por-filippo-pitanga/