Uma ‘Sessão da tarde’ que resiste ao esquecimento

Onipresente na telinha, 'Como se fosse a primeira vez' renova sua força à cada reprise: nesta sexta, às 14h, na TV Globo

por

24 de abril de 2015

50 first dates 13

Entre todos os temas do cinema contemporâneo, o mais recorrente, sobretudo no canteiro autoral do carrossel audiovisual, nenhum supera a memória. De “Brilho eterno de uma mente sem lembranças” (2004), de Michel Gondry, ao doc “As canções” (2012), de Eduardo Coutinho, passando por “Em transe” (2013), de Danny Boyle, filmes pautados pela ambição estética se alimentaram de uma discussão sobre o rememoramento como afirmação de identidade e reinvenção existencial. E nesse continente de obras, a comédia romântica “Como se fosse a primeira vez” (“50 first dates”), de Peter Segal, impôs-se como um dos mais populares mergulhos da arte cinematográfica na (in) consciência do esquecimento, temperado como um a percepção do amor como um bem renovável. Orçada em US$ 75 milhões, a produção, recorrente nas programações de TVs fechadas ou abertas, terá exibição nesta sexta-feira (hoje), às 14h, na “Sessão da Tarde”, da TV GLOBO, numa versão dublada pela finada Herbert Richers. É uma delícia à parte a voz aveludada de Miriam Ficher na boquinha pintada de batom rubro de Drew Barrymore e os acordes de Alexandre Moreno na garganta de Adam Sandler. Com um faturamento estimado em US$ 196,4 milhões, o longa-metragem foi rodado em locações no Hawaii, na Califórnia e no Alasca. Em sua trama suspirante, embalada pela canção “Another day”, de Paul McCartney, Drew é uma instrutora de artes plásticas (Lucy) que atrai o zoólogo bico doce Henry Roth (Sandler, numa atuação afinada). Tudo é química pura entre os dois, apesar dos torvelinhos de dúvida no coração dela, expressa em carinhas de porquinho da índia. Mas tudo vira do avesso quando, no encontro número dois, fortuito, ela parece não reconhecer Roth – e não é por zanga. Lucy sofre de um surto amnésico que deleta toda a sua memória recente: sua cabecinha só registra o que ficou para trás. O desafio de Roth: enfrentar as muralhas de uma mente que apaga a novidade e se reinventar a cada dia como um príncipe encantado em constante renovação. Esse obstáculo rende – apesar da direção preguiçosa de Segal – um espetáculo dramatúrgico de camadas sólidas, afogando-se bem-querer adentro. No elenco, a participação de Sean Astin como irmão marombeiro de Lucy rende cenas hilárias, arejando uma discussão sobre a durabilidade do gostar.