Vai que Cola ― O Filme

por

01 de outubro de 2015

De acordo com o raciocínio que vai nortear boa parte deste texto, é apropriado começá-lo com um assunto polêmico: a barreira da censura enfrentada por filmes que aterrissam no Brasil com sexo a oferecer, bagagem inapropriada de acordo com julgamentos carregados de hipocrisia. “Love” (2015), longa do argentino Gaspar Noé com cenas de sexo em 3D, tornou-se o alvo mais recente de censura ao ser lançado no país em um circuito menor, consequência do banimento por parte dos exibidores. Aos que pensam um pouco fora da caixa, não parece absurda a contestação de que uma sociedade que veta o sexo, condição inerente à existência da vida, e banaliza a violência dentro e fora da esfera cultural, não pode ser considerada saudável. Por mais incrível que pareça, foi “Vai que Cola ― O Filme”, com direção assinada por César Rodrigues, que motivou essa introdução um tanto crítica aos padrões sedimentados em uma sociedade enfermiça. O filme em questão, baseado na série homônima de qualidade duvidosa exibida pelo canal a cabo Multishow, mostra com clareza que aqui, no lugar onde vivemos, é também muito comum nos depararmos com a construção vexatória da imagem do pobre, do desfavorecido suburbano, por meio de um apego ao estereótipo para se produzir comédia. Dito isso, vale ainda costurar uma interrogação com a problemática da censura citada acima ― a você, caro leitor, ainda lhe parece uma conduta sadia a proibição do sexo e a disseminação do preconceito nos meios culturais?

Tanto no filme “Vai que Cola” como na série, os estereótipos dos moradores da Zona Norte do Rio de Janeiro são ofensivamente ampliados. O desastre do enredo, abaixo da linha do medíocre, começa quando Valdomiro (Paulo Gustavo) é vitimado por um golpe que lhe custa todo o dinheiro e uma cobertura no Leblon. Desta forma, ele vai parar na pensão da Dona Jô (Catarina Abdalla), no bairro do Méier, como um foragido da Justiça. De executivo ele passa a entregador de quentinhas até que o seu antigo sócio, o picareta Andrade (Márcio Kieling), aparece com uma solução para Valdomiro reaver a cobertura. O que ele não esperava era uma interdição da Defesa Civil na pensão da Dona Jô, imprevisto que deixou a proprietária e os demais inquilinos desamparados. Sendo assim, Valdomiro é obrigado a convidar todo o grupo para passar uns dias no Leblon.

A forma como o filme orquestra a chegada e o estabelecimento de Valdomiro e sua turma na Zona Sul do Rio é mais um incontestável indício da discriminação que conduz a produção. Roteiro e direção, influenciados pelo desejo de fazer comédia com mau gosto, expõem comportamentos construídos com base na falta de educação, em atitudes que beiram a ação animalesca. Após a exibição, a próxima parada do espectador muito provavelmente será a farmácia para a compra de um analgésico. Os diálogos, acima do tom e extremamente pobres, podem mesmo provocar um mal estar físico como dor de cabeça. Ausência do senso do ridículo e cafonice extrema são outros tópicos do manual de atitudes condizentes com o “perfil suburbano de ser”. Um velho argumento dos que ainda defendem a produção desse tipo de filme é sempre baseado na transferência de culpa ― segundo tal pensamento capenga, o culpado pela existência de longas do tipo não é a equipe que dá seguimento à proposta, incluindo os investidores e patrocinadores, mas sim o próprio espectador, que continua consumindo o produto. O que os defensores dessa teoria esquecem é que não há oferta suficiente que permita uma escolha justa, já que a melhor programação cultural é ainda restrita aos bairros mais nobres. Se o indivíduo sente fome e só há pão disponível, certamente com o estômago vazio ele não vai ficar.


Warning: Invalid argument supplied for foreach() in /home/almanaquevirtual/www/wp-content/themes/almanaque/single.php on line 52