Vamp – O Musical

Como um cálice de vinho tinto de sangue

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16 de abril de 2017

Mais de duas décadas depois e parece que foi ontem! E nada mais prazeroso do que revisitar a memória afetiva de vida de “Vamp” nos palcos do recém-reformado Teatro Riachuelo, onde ficava o Cine Palácio no coração do Centro histórico do Rio de Janeiro, em um texto de Antônio Calmon, concepção teatral de Jorge Fernando e direção de Diego Morais e Tony Lucchesi.

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A novela “Vamp” foi adaptada para o teatro em forma de musical e alcança seu objetivo: celebrar o que era ótimo, na figura da dupla formada por Claudia Ohana e Ney Latorraca, e acrescentar canções famosas pertinentes ao tema como “Doce Vampiro”, “Eu Nasci há Dez Mil Anos Atrás”, “Simpathy for the Devil” e “Thriller”, por exemplo. Assim, encaixou-se na onda atual de musicais muito bem executados com cenários luxuosos e dançarinos de ponta que andam prosperando o mercado teatral como produto nacional certeiro. Mesmo sob críticas de homogeneização de mercado, os musicais alcançaram identificação de público e sobreviveram à crise, e isto é um fato estatístico digno de estudo e que não pode ser ignorado. Musicais e entretenimento escapista tenderam a ser valorizados historicamente em crises mundiais, e não podemos desmerecer o momento em que vivemos.
O fato é que a Natasha de Claudia Ohana, assim como um bom vinho, não perdeu nem um traço de seu viço, apenas melhorou com o tempo, além de ter evoluído pelo fato de a atriz nos últimos anos ter especializado seu gogó para musicais de grande porte com excelência dramatúrgica.

16_FHA_vamp3Mas é Ney Latorraca que transcende o gênero e a dicotomia onde a peça se prende um pouco, entre agradar aos fãs antigos e angariar novos principalmente dentre as crianças, e consegue fazer de seu Conde Vlad Polanski uma metarrealidade interativa com toda a potência de sua carreira. O ator usa de inúmeras quebras narrativas fingindo improvisos calculados e confrontos com a quarta parede do público, interagindo com perguntas e provocações que surpreendem ao mesmo tempo que geram reações acaloradas. Ney está no auge de seu domínio pantomímico, controlando palco e público a bel prazer, como que com os poderes de Vlad, inclusive sendo orquestrador de algumas das melhores cenas musicais, como a homenagem a “Thriller” do saudoso rei do pop Michael Jackson (com toque de escola de samba), apenas com expressões e gestos irônicos que englobam uma catarse coletiva.

A dupla Ney e Claudia, por si só, roubam a cena e compensam os resultados menos pretensiosos do elenco jovem para agradar novas gerações, ou mesmo a dicotomia da comparação com os atores originais de alguna dos papéis mais famosos, como a família Matoso, há de exemplo a insubstituível Patrícya Travassos como Mary Matoso, cuja nova intérprete Livia Dabarian é uma exceção reveladora que não faz feio. E destaque para a nova personagem de Claudia Netto como a mãe de Vlad, num bom misto de tensão e humor acrescentados.
Mas é a dupla principal e o luxo da montagem e cenários deslumbrantes e de metamorfose prática em inúmeros desdobramentos criativos que fazem da obra imperdível.