Vando Vulgo Vedita

Frescor de uma nova cartilha de empatia não-binária

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29 de janeiro de 2017

20° Mostra de Cinema de Tiradentes — Mostra Foco – Série 3

“Vando Vulgo Vedita” de Andreia Pires e Leonardo Mouramateus é talvez a obra mais inovadora exibida em Tiradentes neste ano. Com um frescor na nova cartilha referencial não-binária, consegue reunir mil trabalhos em um. Primeiramente pega a experiência da diretora Andreia Pires em teatro e dança, como na peça “Vagabundos” de extremo estilo corporal, e traduz para a cena o movimento em conjunto de seu coletivo de atores em perfeita harmonia, de todos os gêneros e sexualidades fluidas e livres. Tudo começa com um carro cheio. Cheio é até eufemismo, lotado, pois saem umas 10 pessoas dali quase como num desenho animado, todos com roupas e cabelos coloridos. Mas desenhos animados estão na gênese até do título. “Vando Vulgo Vedita” referencia não apenas o nome próprio Vando, cuja origem etimológica da palavra no senso comum possui vários significados, do cantor brega Wando ao jornalismo Wando, que é um jornalismo alternativo, ao nome Vedita, que vem da animação japonesa “Dragon Ball Z”. Mas quem são Vando e Vedita para o filme?

Quem é Vando? Eis a grande questão do filme. Todos os personagens o mencionam e referenciam como alguém ausente que toca a todos eles. Aos poucos vamos sendo apresentados e nos familiarizando com cada um dos vários nomes do elenco, individualizados por alguma frase ou trejeito especial, principalmente a partir do momento em que todos descolorem o cabelo para loiro. Todos agora são Vando. E Vedita, personagem de “Dragon Ball Z”, onde entra? Em primeiro lugar que na animação, quase todos os personagens são morenos, mas quando alcançam seu máximo poder viram todos loiros e bastante parecidos, como os personagens do filme, todos platinados. Em segundo lugar, o desenho está passando na TV enquanto dois personagens brincam de lutar como Vegita e Goku, protagonistas da série. A luta é hilariante e perpassa os cenários do filme, saindo da sequência inicial dentro de um apartamento para o segundo ato na praia onde todos dançam, correm e rolam na areia e mar, desembocando na mais bonita cena com a música revolucionária “Vampiro Sexual”. A sinergia máxima de corpos e ângulos de câmera a enquadrar o amor livre em coreografia coletiva é a empatia de se colocar no lugar do outro, o que se torna importantíssimo para a próxima fase. Afinal, onde se encaixam o amor e a violência exagerada do animê “Dragon Ball Z”?

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Eis que surge o terceiro ato, a surpresa final para a qual o espectador deve se resguardar e esta crítica não deve ir além. Basta dizer que é um libelo contra a discriminação, a intolerância e o ódio, e que todos podem se colocar no lugar do próximo de forma a compreender e se aproximar do outro, seja em qual lado ele estiver. E por isso o uso logo do personagem de Vedita, que começa como vilão no desenho animado, mas se converte em herói quando se solidariza com o lado oposto. Então quem é Vando? Somos todos nós enquanto não nos unirmos, pois só saímos prejudicados. Palmas para uma declaração artística que em nenhum momento deixa de se colocar a serviço de primeiro fazer um grande filme, e acaba alcançando também um catártico exercício psicanalítico à la Hoffman de projeção empática da plateia na tela, e vice versa, que cura coletivamente.

Vencedor do prêmio da crítica e de melhor curta pelo Júri do Canal Brasil