Vangelo

Manipulação de representatividade

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09 de junho de 2017

Curiosamente, justo no dia em que a questão da representatividade não poderia ter sido mais levantada no 6º Olhar de Cinema em Curitiba, a Mostra Competitiva de longas-metragens é inaugurada com uma falácia tão grande quanto “Vangelo” do italiano Pippo Delbono, que (ab)usa de representação na frente das câmeras em uma distorção manipuladora detrás delas.

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A representatividade já iniciara como tema logo de manhã, no debate acerca da curadoria e de como a diversidade no olhar dos curadores atravessa a escolha de filmes na seleção realizada. Logo depois, este crítico que vos escreve levantou a questão desta vez quanto aos receptores destes mesmos filmes selecionados, sejam críticos, profissionais do audiovisual, ou cinéfilos, que também influenciam em como esta obra vai ser legitimada ou não na divulgação intra e extra Festival. Ou seja, a figura de a quem pertence este olhar, a bagagem ímpar de vida que a pessoa carrega e suas origens são cruciais para determinar como seus olhos podem enxergar ou invisibilizar questões mais periféricas. E por isso um corpo de membros com mais paridade representativa pode ser crucial.

Pois “Vangelo”, sem coincidência alguma, trata exatamente sobre isso, porém de forma cruelmente invertida. A premissa não era de todo ruim, apesar de difusa: um cineasta que acaba de sair do hospital, após cirurgia corretiva de um defeito de visão, questiona-se ao voltar a enxergar sobre a força da fé de sua mãe que está morrendo e de todo seu país natal, a Itália, e o que une as pessoas em suas solidões individuais. Isto o leva a uma comunidade de refugiados de vários lugares no mundo que começam a encenar o Evangelho para as câmeras, em busca do significado do amor.

Ok. Ok. Muita coisa para se destrinchar. Mas o que poderia parecer apenas um trabalho pretensioso, tentando abarcar coisa demais, vai virando um show de horrores desde perpassando apropriação cultural, à ocupação de lugar de fala alheio e até cópia literal da linguagem de outro filme.

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Vamos começar pelo próprio Pippo Delbono. Talvez mesmo os cinéfilos mais maturados não se recordem muito bem do artista na figura de diretor em outros documentários como “Sangue” e “Guerra”. Mas todos vão recordar dele interpretando na frente das câmeras o patriarca no filme cult “Um Sonho de Amor” do prodígio Luca Guadagnino, fato importante de citar, pois Pippo costuma misturar sua persona de ator à de cineasta e virar personagem dos próprios filmes, misturando-se ao que esteja documentando. Quando isso ocorre como opção de linguagem, geralmente ou o assunto possui algo a ver com quem está filmando, ou a forma de encarar e se deixar ser atravessado importa em aparecer na frente das câmeras para gerar um vínculo com a transformação também esperada do espectador. Porém, em “Vangelo” não há quase nenhum desenvolvimento da amizade do realizador com os refugiados retratados na tela, senão apenas o fato subentendido de que a Itália é um dos países que mais recebe pessoas evadidas de seus respectivos países em guerras civis ou ditaduras, devido aos mares de ligação entre os continentes da Europa, Ásia e África. E Pippo apenas diz ter desejado filmar seus amigos…Porém o quanto ele assim o quis meramente para explorar a condição alheia?

A segunda estranheza é o uso da religião cristã como elemento de ligação entre as narrativas. Ora é a crença fervorosa da mãe moribunda que pedia mais amor no mundo, e ora a mesma crença é esnobada por Pippo que age como se fosse ateu, porém mesmo assim segue os pedidos da mãe em propagar o amor do Evangelho e “dirige” os refugiados a reencenarem várias cenas de “A Paixão de Cristo”, prescindindo de qualquer explicação ou identificação a se informar o que os refugiados pensam disto. O máximo de informação em relação à consciência deles como personagens é de dizer que confiam em fazer o que Pippo disser e que se sentem muito agradecidos por receberem esta chance de representar a causa de inúmeras pessoas que estão fugindo de seus respectivos países e não possuem mais lar para morar. Ou seja, como minorias em situações extremas, eles não possuem opção alguma.

Este deveria ser um exercício de compaixão, o que não ocorre por sermos o tempo inteiro atropelados pela mão pesada de Pippo em manipular toda e qualquer reação dos refugiados, a tal ponto de apropriação que fica difícil dizer quem de fato está reagindo ali: o documentarista ou os documentados (muito mais o primeiro do que os segundos). Pippo chega a ordenar várias vezes falas a serem repetidas em italiano (língua diversa à de suas terras natais), e depois muda seus nomes para os dos Apóstolos de Cristo, a tal ponto que beira o apagamento insensível de suas memórias históricas, e não alcança a possível crítica à compaixão cristã que vira as costas para eles. E isto fica ainda mais isolado no filme quando o cineasta passa a inserir cenas de uma última montagem teatral de sua parte que dirigiu nos palcos, com uma ferrenha crítica à burguesia, mas completamente abismal ao cerne do documentário, pois ele é incapaz de sequer inserir os refugiados no palco ou na plateia de sua peça pra elite italiana, por exemplo, tratando como assuntos não apenas separados como consentidamente dicotômicos.

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Para complementar o desastre fílmico, toda a encenação pelos refugiados de “A Paixão de Cristo” remete algumas vezes quadro por quadro decupado do filme multipremiado “César Deve Morrer” dos irmãos Taviani, onde os consagrados diretores italianos (sem jamais se deixarem inserir no filme) relatam a experiência catártica de reinserção na sociedade de presidiários que encenam a obra shakespeariana “Júlio César” na prisão. Esta libertação de um estereótipo condicional que habitualmente atrai preconceitos e rejeição e pode voltar a se sentir produtivo para a sociedade através da arte não funciona da mesma maneira em “Vangelo”, justamente porque seu diretor impõe a sua vontade o tempo inteiro, quase jamais revelando a voz própria de seus supostos ‘amigos’, pelo que ele próprio alega. Tão ‘amigos’ que usa de duas câmeras para filmar, uma um pouco mais à distância, incluindo Pippo dentro do quadro para passar familiaridade, e outra mais flutuante, na mão do próprio diretor de forma diegética, que possui a liberdade de se aproximar estranhamente em super closes e em zoom extremado e trêmulo na face e nos corpos dos refugiados, quase a erotizá-los enquanto Pippo manuseia seus corpos a bel prazer, parecendo abusar explicitamente da confiança depositada neles, sem nenhum benefício para o filme ou para a causa denunciada. Não se pode nem alegar que ele estaria dignificando seus corpos, a legitimá-los em situações que em geral não lhes é permitida, porque não vêm acompanhados de suas próprias vozes e pontos-de-vista.

Apenas após mais da metade da projeção que uma cena se permite ser lírica, ao retratar o relato de um dos personagens que mais sofreu vendo seus amigos serem mortos afogados na travessia que tantos sonham em direção ao sonho de liberdade. Um testemunho que sintetiza o sofrimento de muitos ali. Pena que o diretor não deixou as pessoas por trás desses relatos serem de fato os protagonistas ali…

 

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 1