Velozes e Furiosos 8

Lágrimas de Macho Alfa

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12 de abril de 2017

Engraçado que uma franquia com tanta testosterona anda enfim conseguindo entender que o mundo vai além da binariedade. Foi necessário chegar a “Velozes e Furiosos 8” (dirigido pelo promissor F. Gary Gray do subestimado Straight Outta Compton: A História do N.W.A.) para ter uma grande vilã mulher que não precisa desferir um golpe para controlar todos na sua mão com o uso de neurônios e estratégia, antecipando as probabilidades e destinos alheios (daí advém o ótimo título original, “The Fate of The Furious”). A personagem Cipher, uma hacker com o mundo em seus teclados na pele da potência cinematográfica chamada Charlize Theron, veio para ressignificar a franquia após a perda trágica do ator Paul Walker na vida real e a despedida emotiva de seu personagem (cuja escolha dos criadores foi em não deixá-lo morrer na série, para ficar eternamente vivo no imaginário dos fãs). Em meio a tantos carros possantes, pelo que de fato se está lutando ali? São personagens naturalmente fora-da-lei, e vilões tendem a se tornar heróis e…agora o inverso passou a se tornar verdadeiro também: Dom Toretto (Vin Diesel) é chantageado a ajudar a vilã contra sua própria turma, mostrando que os músculos sem coração não servem para nada.

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E a desconstrução do macho alfa segue em frente, dando novos simbolismos para a fé do protagonista, cujo crucifixo se prova mais potente que armas, e a família mais importante do que todos os incríveis veículos que não podem se dirigir sozinhos…ou podem?! É interessante o valor do ser humano numa franquia que assumiu a galhofa mecanizada, numa corrente contrária à desastrosa série rival “Transformers”. O estilo inicial de “Velozes e Furiosos” que envolvia o gênero policial, sempre com um agente infiltrado em meio a traficantes barra-pesada, tornou-se aos poucos o impossível na linha tecnológica de espionagem à la James Bond, porém jamais perdeu o espírito orgânico do gueto. Por incrível que pareça, a série subverte nossos conceitos financeiros de protagonismo social, fazendo-nos torcer por párias da sociedade que seriam os “errados” da história, criminosos, deslocados e ex-presidiários que formam uma crítica pela tangente da justiça, com seus valores inquebrantáveis contra um sistema que se corrompeu. Por isso é crucial a trama dar esta guinada em relação a uma vilã que é hacker com o poder de manipular tudo, a quem até o governo, que é a entidade que deveria estar usando bem os recursos adquiridos com os impostos recolhidos da população (e de onde vem agora os Lamborguinis e Ferraris destrutíveis), passa a temer.

Esses personagens do tipo “fora-da-lei”, típicos dos faroestes clássicos, foram promovidos a espiões, e agora a agentes políticos do povo que ganham poder no tabuleiro para uma nova ordem mundial em xeque-mate. E, por mais surpreendente que possa soar, não o gênero cinematográfico, mas a linguagem técnica com qual a história é contada pegou emprestado inúmeros arquétipos de filmes de terror para inovar os sustos e turning points narrativos na montagem. Especialmente em uma das melhores cenas da franquia inteira, do tipo que dá uma pulga atrás da orelha sobre como foi feita, quando a vilã, que não pega em um volante de carro no filme inteiro, comanda remotamente uma horda de carros, pelo solo e pelo ar, aludindo a coreografias cênicas que saíram claramente de “The Walking Dead”, sendo citados nominalmente como zumbis, inclusive. Outro arquétipo utilizado foi o do típico mascarado imbatível, no estilo Jason ou Leather Face, com qual Toretto é envolto num ar misterioso mais perigoso ainda do que o normal, inclusive atrás do volante, homenageando o filme de Tarantino “À Prova de Morte” onde o carro é o vilão, e o motorista apenas o veículo por onde a maldade é feita (no caso, interpretado por Kurt Russell, que não à toa, também está no elenco de “Velozes e Furiosos”).

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Muitas estradas já foram percorridas, e provavelmente outras mais serão, afora do começo cuja pretensão era apenas a de homenagear as corridas de “Speed Racer” e as rixas de “Juventude Transviada”, passando pela brotheragem de “Os Gatões” à ação policial de “Bullit”. Geralmente, “Velozes e Furiosos” evoluiu repetindo fórmulas nada inéditas, como assumir seu lado pantomima e abraçar a hipérbole blockbuster com muito slow motion, flare e câmeras giratórias. Porém, segmenta tudo isso de forma digerível e própria, em blocos certeiros de quando emocionar, quando surpreender trazendo personagens antigos de volta e acrescentar novos que se juntam à grande família de heróis e vilões, mesmo sem desenvolver todos como merecem para além de algumas boas tiradas cômicas (como sempre advindas do personagem de Tyrese Gibson). Sem falar na carga mais emocional que brinca no limiar da pieguice, e faz até macho alfa chorar dentro e fora das telas, usando de “fan service” (elementos para agradar aos fãs), sacrifícios inesperados (já que o elenco se tornou tão grande que pode perder algumas peças) e reviravoltas metalinguísticas, dando desenvolvimentos de personagem que na verdade tem mais a ver com o que se espera do ator em cena do que de qualquer papel que ele poderia estar interpretando (como a química muito bem explorada aqui entre Dwayne “The Rock” Johnson e Jason Statham, que geram, juntos, uma das melhores cenas de ação do filme referenciando “Guardiões da Galáxia e, separados, duas das mais cômicas).

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Mas o fato é que como franquia de ação não há rival no mercado; produto impecável e polido de uma soma do que há de melhor, especialmente para chegar até o oitavo exemplar não apenas com uma, porém duas atrizes oscarizadas: A sempre exemplar construção de personagem de Charlize Theron, toda no olhar e com alguns dos melhores diálogos desconstrutivos do que consideramos nossa civilização moderna. E Helen Mirren que claramente agregou e muito à família e pode render ainda mais do que tanto alardearam de sua participação especial. Ainda sobra espaço para mais uma vez homenagear belamente o legado que Paul Walker deixou ao unir os atores e equipe para além de um filme, uma diversão conjunta que convida os espectadores a serem parte da família, da qual, aliás, até eu quero fazer parte!