Brasileiros levam principais prêmios do Festival IndieLisboa 2018

Filmes brasileiros premiados como "Baronesa" de Juliana Antunes, "Lembro Mais dos Corvos" de Gustavo Vinagre e "O Processo" de Maria Augusta Ramos

por

06 de maio de 2018

 

31950300_10209553243667759_6113866137466830848_n

Brasileiros levam principais prêmios do Festival IndieLisboa 2018, como “Baronesa” de Juliana Antunes e “Lembro Mais dos Corvos” de Gustavo Vinagre, que dividiram o prêmio principal da noite, além de “O Processo” de Maria Augusta Ramos que levou dois prêmios: Prêmio Silvestre de Melhor Longa Metragem e o Prêmio Júri do Público pelo Festival IndieLisboa.

Crítica do Almanaque Virtual para:

Baronesa

Lembro mais dos Corvos

O Processo

o_processo_de_maria_augusta_ramos-562934

Confira a lista de prêmios distribuídos por diferentes Júris e com suas respectivas justificativas das premiações:

Júri da Competição Internacional de Longas Metragens

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa

EX-AEQUO
Baronesa, de Juliana Antunes
Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre

Baronesa – “Desenhando um retrato íntimo de duas mulheres na favela de Belo Horizonte, Juliana, o filme Baronesaamplia a tensão entre a violência extrema fora de campo e a possibilidade de ternura que é construída dentro dos muros construídos pelas próprias personagens. Os sinais de uma construção cúmplice de um olhar feminino sobre a realidade – que Juliana e as atrizes são capazes de criar no filme – fazem parte da sua beleza e ressoam fortemente na comunicação que o filme estabelece com o momento histórico do seu país.”

baronesa-filme-01

Lembro Mais dos Corvos – “Uma noite de sono em São Paulo, passada num apartamento que se assemelha cada vez mais a um set, com um copo de rosé, uma gaiola e um quimono como adereços. Uma conversa entre uma actriz e um cineasta, cada um representando um papel que ninguém disse ser fixo: um encontro, uma reunião entre iguais, uma performance, uma verdadeira colaboração. Uma história de vida marcada por abuso, transição e sofrimento, mas não definida por eles. Há sempre humor, família e cinema. Quando se vê o sol nascer de manhã, é como assistir a outro filme: dá conforto, dá energia, dá esperança.”

Foto

Prémio Especial do Júri canais TVCine & Series

EX-AEQUO
Baronesa, de Juliana Antunes
Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre

Júri da Competição Internacional de Curtas Metragens

Grande Prémio de Curta Metragem
Solar Walk, de Réka Bucsi

Solar Walk é, de longe, o filme mais emocionante que vimos nesta competição. Em vários aspectos, poderia ter sido um caso problemático de audácia que correu mal, mas é exactamente o oposto, levando o espectador numa jornada complexa através de uma existência colorida. Esta viagem de ficção científica animada, hipnotiza o espectador com as suas formas imaginativas, espaços e riqueza de texturas. No filme, mudanças surpreendentes e divertidas entre assuntos familiares e extraterrestres criam tensão psicológica e um ritmo cósmico de entropia. A criação delicada de imagens e áudio evoca imagens de autores como Andrei Tarkovski e Stanly Kubrick.”

Prémio Silvestre para Melhor Curta Metragem
Braguino, de Clément Cogitore 

Braguino é um excelente exercício de pensamento no cinema. Ao longo de sequências intensas e ultra-subjectivas, as imagens capturam a beleza selvagem da natureza, uma espécie de primitivo despreocupado que vive no século XXI. Temperado com salpicos de paranóia e rivalidade entre clãs, Braguino é denso, coerente e infantil. Com as suas primeiras imagens, este filme progressivo leva o espectador numa viagem através de um microcosmos, localizado numa região remota da Sibéria e retrata a vida humana de duas famílias rivais, nos meses de verão cheios de mosquitos. O filme mostra uma imagem fragmentada mas coerente do local e is seus habitantes, duas famílias em guerra. Através da montagem inovadora e intensa de som e imagem, o filme transforma-se numa alegoria da sobrevivência humana primitiva e mostra as consequências de uma sociedade que penetra agressivamente o idílico.”

Prémio Turismo de Macau para Melhor Animação
Rabbit’s Blood, de Sarina Nihei

“Uma tragicomédia surrealista desenhada à mão com tantas ações/reações e um final abrupto. O filme agarrou-nos ao ponto de querermos saber o que acontecia a seguir. Na mesma linha das muitas perguntas e enigmas que este filme evoca rapidamente, destaca-se uma : o que é a morte? Rabbit’s Blood é uma animação perturbadora e elegante sobre violência e solidão, contada na perspectiva de uma criança. Na estrutura de labirinto das causas e efeitos, a vida desdobra-se como um jogo absurdo.”

Prémio Turismo de Macau para Melhor Documentário
La bonne education, de GuYu

“Educar as massas sobre como ter uma vida melhor parece o enredo perfeito, excepto o facto de não ser um enredo mas sim a realidade documentada em La bonne education. Resistindo às regras e sentindo-se oprimida pelos colegas e pelo sistema, PeiPei está presa no que parece ser o seu maior problema: a resistência. Individualidade em oposição às acções em massa do sistema de ensino chinês. Este documentário simples retrata uma jovem estudante de arte e move o espectador lindamente entre escuridão e luz, frieza e calor. La bonne education mostra uma fracção da vida da sua protagonista, não explicando o passado nem especulando sobre o futuro. Testemunhando as pressões do público sobre a sua privacidade, linguagem em vez de silêncio, olhamos para uma pessoa que resiste.  O seu poder, como o do filme, está fundamentado na fragilidade da vida e da identidade.”

Prémio Turismo de Macau para Melhor Ficção
Matria, de Álvaro Gago

Matria é um drama social que reflete profundamente sobre a condição das mulheres numa Galiza empobrecida e deserta. Em Matria, o espectador vai sentir tensão, ansiedade e compaixão enquanto segue o dia de Ramona. Mas também vai sentir esperança. Como uma pedra caindo na água, este filme afunda na consciência do espectador. É rápido e sólido na sua forma e consegue refletir a situação sócio-política da actual Galiza. Matria é um filme de ficção mas respira como um documentário, devido ao ambiente em que foi filmado e produzido. O filme explora temas como família, valores humanos, lutas trabalhistas e responsabilidade. A voz do filme cresce e vai além do lugar e da vida das suas personagens fictícias. Mostra como a luta humana e o compromisso, no encolhimento do espaço sócio-económico, são inevitáveis no fluxo da vida.”

Menção Honrosa Prémio Turismo de Macau para Melhor Ficção
Coqueluche, de Aurélien Peyre

Coqueluche é um daqueles objectos que se ama ou se odeia. Pelo menos foi o que aconteceu com os membros do júri: o filme deixou-nos tão divididos e fez-nos falar por muito tempo. Já estou grato por isso: por nos dar a oportunidade de discutir o filme de forma acesa desde que o vimos, constantemente comparando com os outros filmes da mesma secção. E ontem, no terraço ensolarado da Cinemateca, foi finalmente o filme foi finalmente descartado, abrindo espaço para Matria vencer. Nós amamos a ironia, a subjectividade, tudo o que foi feito para brincar com aquele toque francês, ou estilo, ou fascínio, ou o que quer que seja.

Nós amamos o facto de ser contado no ponto de vista de Laurine, deixando o espectador decidir quem demonizar. Uma das nossas principais preocupações era a construção e exploração da personalidade de Laurine, um tanto problemática, pois é tão intensamente objetificada, nunca deixando claro o que ela é: uma vítima ou uma verdadeira mulher independente? Tendo em conta que a maioria dos filmes envolvidos na competição tinha a natureza como personagem principal, ficou claro para nós, membros do Júri, que há uma evidente crise na ficção/narrativa.

A minha declaração final como indivíduo é simples: comparando constantemente Coqueluche a Matria, uma questão final muito pessoal surgiu, pois ambos os filmes competiam entre si: porque é que era tão claro que um drama social venceria contra um filme adolescente? E se as perspectivas mudassem e a mesma importância fosse atribuída aos assuntos adolescentes? Essa visibilidade contribuiria para mudar activamente as mentalidades e impedir que uma Laurine se transformasse numa Ramona?”

Júri da Competição Nacional

Prémio Allianz para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Our Madness, de João Viana

“O trabalho de João Viana com OUR MADNESS, vai mais longe do que uma tentativa de uma linguagem cinematográfica própria, constituindo-se como um ecosistema onde coabita uma beleza doentia e uma mitologia austera. Consegue dar-nos o isolamento da loucura banal transformando-a num espaço de liberdade pela nossa loucura coletiva, um reflexo de um ideal de cinema.”

Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta Metragem Portuguesa
Os Mortos, de Gonçalo Robalo 

“Esta curta metragem arrebatou-nos pela autoridade da sua narrativa e o tempo perfeitamente calibrado de uma impassível performance. Um filme que revela uma sucessão de vinhetas pessoais sobre a morte com humor negro e, ao mesmo tempo, com um grande sentido de humanidade. O Júri deliberou atribuir o Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta Metragem a Os Mortos, de Gonçalo Robalo.”

Prémio Melhor Realizador para Longa Metragem Portuguesa
André Gil Mata, pela A Árvore 

“André Gil Mata com A Árvore demonstra um pleno controlo no uso da câmara, no tratamento dramatúrgico, no ambiente fotográfico e duração do filme, criando um universo uno e coerente. As referências cinematográficas evidentes adquirem neste filme uma personalidade própria a qual pressupõem um desenvolvimento futuro de uma linguagem coesa e artisticamente sólida.”

Prémio Novo Talento FCSH/Nova
Amor, Avenidas Novas, de Duarte Coimbra

“Cheio de charme, energia e humor excêntrico, este filme consegue surpreender e deleitar-nos com a sua inventiva e absurda história de uma juventude contemporânea a caminhar para a vida adulta. A música aparece à sua personagem como uma aparece num romance desajeitado. O Júri exulta ao reconhecer um novo e excitante realizador, Duarte Coimbra, atribuindo o Prémio Novo Talento FCSH/NOVA pelo filme Amor, Avenidas Novas.”

Prémio Novíssimos Walla Collective + Portugal Film
Infância, Adolescência, Juventude, de Rúben Gonçalves

“Rúben Gonçalves tem um inato sentido da relação da câmara com a matéria filmada. Infância, Adolescência, Juventude constitui-se como um ousado exemplo de cinema ‘vérité’ onde a figura do cineasta se resguarda num amor pelos sujeitos filmados. Patente, a beleza do instável, a capacidade para capturar a graça inerente à dança através de uma discreta encenação num movimento fluído e transparente que nos traz os diferentes estágios na vida dos bailarinos em percurso escolar, da infância para a descoberta da identidade como artista.”

Menção Honrosa Prémio Novíssimos Walla Collective + Portugal Film
Fauna
, de Lúcia Pires

“Lúcia Pires, com Fauna, situa-se num gracioso patamar da utopia da juventude e da necessidade de acreditar, de ter fé. Demonstra uma sensível qualidade na maneira como trata cinematograficamente mito e realidade.”

Júri Silvestre

Prémio Silvestre para Melhor Longa Metragem
O Processo, de Maria Augusta Ramos

“Pela sua linguagem cinematográfica, que permite que façamos as nossas próprias observações. Pela sua montagem aberta, que é fluente e elegante. Um drama político contado através da narrativa clássica sem cair no classicismo gramatical e formal.

O Processo é um filme sobre a política brasileira que também mostra o processo universal de deslegitimação das instituições republicanas e lança uma nova luz sobre os perigos que ameaçam a democracia contemporânea.

Este é um filme sobre as estruturas da vida humana que nunca perde a humanidade e as emoções – um tipo de filme que gostaríamos de ver mais no cinema contemporâneo.”

Júri IndieMusic

Prémio IndieMusic Schweppes
Matangi/Maya/M.I.A, de Steve Loveridge

Júri da Amnistia Internacional

Prémio Amnistia Internacional
Waste N0.5 The Raft of the Medusa, de Jan Ijäs 

Júri Árvore da Vida

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Russa, de João Salaviza e Ricardo Alves Júnior

Menção Honrosa
Bostofrio – Oú le Ciel Rejoint la Terre, de Paulo Carneiro

Júri Escolas

Prémio Escolas
Tremors, de Dawid Bodzak 

Júri Universidades

Prémio Universidades
An Elephant Stings Still, de Hu Bo

“É impossível dissociar esta obra do trágico acontecimento que a assombra. Apesar de ter a sua vida própria, esta história e estas personagens são uma clara reflexão do seu autor. Os pesados movimentos de câmara e o trabalho de focos irrepreensível desenham a imagem de uma sociedade de cores esbatidas como as daquela cidade. O elegante rigor rítmico e estrutural, bem como a prodigiosa criação de ambientes soturnos concedem a este filme uma beleza humanista que, por consequência, justifica a sua longa duração. Estamos perante um épico testamento de um homem para o mundo, no qual a empatia do autor para com as sua personagens e a própria condição humana nos relembra da necessidade da compaixão.”

Júri do Público 

Prémio Longa Metragem
O Processo, de Maria Augusta Ramos 

Prémio Curta Metragem
Stay Ups, de Joanna Rytel

Prémio do Público IndieJúnior DoctorGummy
Professor Sapo, de Anna van der Heide