Venom

Filmes de Plástico – Ou como Hollywood não sabe fazer filmes de super-vilões

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09 de outubro de 2018

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É irônico usar mesmo que metaforicamente como título do presente texto a expressão “Filmes de Plástico” já que este também é o nome de uma produtora mineira de filmes independentes que anda ajudando a revolucionar o cenário cinematográfico brasileiro e internacional, com filmes multipremiados aqui e em Festivais Estrangeiros. Porém, se tirada de nosso contexto, e levada para o cenário de blockbusters em Hollywood, cuja primeira vida útil de um filme é mais ser considerada como um produto do que uma obra de arte, a expressão ganha outra vida. Filmes, especialmente os de orçamentos astronômicos e bilheterias idem, logo em meio a uma recessão diante da crise mundial, costumam se pagar de diversas formas para além de levar as pessoas ao circuito comercial de salas de cinema. Filmes lucram com as mercadorias licenciadas, de brinquedos a roupas, de videogames à TV, ou mesmo até através da indústria alimentícia, com embalagens e McLanche Feliz, etc… Mas hoje em dia parece que esta lógica anda se invertendo e o filme já começa a ser pensado, desde sua lógica de concepção, ele próprio como um boneco de plástico, um subproduto de si mesmo, que se mexe de acordo com que seu espectador mandar.

Claro, jamais serão ordens muito complexas ou difíceis para este boneco de no máximo quatro articulações pelo corpo…, somente comandos simples, que não precise se pensar muito, como espasmos reflexivos. E com isso temos filmes feitos sob medida para…não ultrapassar a medida balizada pelo senso comum geral. Assim são feitas receitas de timing e conteúdo, onde cada explosão e perseguição de carros é colocada no minuto exato da projeção onde o público foi condicionado a esperar e até exigir por isso, caso não receba a encomenda. Desta forma, um dos maiores vilões egressos dos quadrinhos do querido herói “Homem-Aranha”, o “Venom”, ganhou filme próprio e homônimo dirigido por Ruben Fleischer (do divertido e nada careta “Zumbilândia”, mas tambénm do canastríssimo “Caça aos Gângsteres”), e foi transformado em algo que nunca foi: no protagonista de uma receita de anti-herói.

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O próprio marketing do filme diz que é um filme para revolucionar com o gênero (subentenda-se, o gênero de adaptações de quadrinhos), mas a única coisa que evolui é em regredir a fórmula desgastada para fazer se encaixar nela até aqueles que antes jamais se encaixariam. – Isto de tão loucos que os produtores deviam estar por uma nova franquia; ainda mais depois que a Disney/Marvel comprou os direitos de uso do personagem do Homem-Aranha de volta, deixando a Sony com personagens de segunda categoria do universo do aracnídeo. – Vale lembrar neste momento que a Marvel Estúdios, criada especialmente para realizar os filmes de super-heróis de sua editora homônima, não detinha os direitos autorais de todos os seus heróis, já que vários haviam sido comprados e adaptados para as telonas anos antes por outros estúdios, como os “X-men” e “Quarteto Fantástico” da FOX e “Homem-Aranha” da Sony.

“Venom” é um longa-metragem que demonstra pontos-chaves para se entender por que o cinema ainda não conseguiu adaptar satisfatoriamente filmes exclusivamente centrados em vilões. Existe um puritanismo inerente à cultura ocidental, essencialmente, focado numa culpa religiosa e numa castração social que impedem que quaisquer personagens caminhem à margem da moral arcaica que nos é vendida como padrão hegemônico. Até mesmo vilões bem-sucedidos como coadjuvantes em outras histórias, como a Mística dos “X-men” e Loki dos “Vingadores” são personagens facilmente redimíveis, esvaziando a complexidade que inicialmente contém. O próprio Venom já havia sido usado antes nas telonas como um dos vilões do malfadado filme “Homem-Aranha 3” dirigido por Sam Raimi – um vilão que já havia sido pobremente construído como compêndio, imagine então como protagonista da própria história. – E não que nas HQs ele seja um personagem tão bem escrito assim…, dependendo de quem já o escreveu na história, mas mesmo em sua fácil plasticidade estética e na rasa motivação por caos e morte, ainda assim o personagem poderia render mais nas mãos certas.

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O roteiro do novo filme, escrito por três pessoas (Jeff Pinkner, Scott Rosenberg e Kelly Marcel), até tenta se esforçar, como fazendo uma analogia da condição especial de Venom com o mito clássico de “O Médico e o Monstro”, Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, como se as duas personalidades dividindo o mesmo corpo fossem um equilíbrio psicanalítico do que faltasse uma na outra… E ainda possui um bom intérprete para defender o lado humano da criatura que por sua vez é digitalizada inteiramente em computação gráfica, na pele do ator experiente Tom Hardy (“Mad Max – Estrada da Fúria” e “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, onde interpretou outro vilão de quadrinhos, o “Bane”). Porém, ainda assim, o arco evolutivo do personagem é escrito com motivações superficiais de ambos os lados, tanto do humano quanto do simbionte alienígena Venom, pouco críveis e bastante distantes das intenções originais de ambos os personagens. Percebe-se que não é à toa que a terceira roteirista, uma roteirista mulher, provavelmente foi quem tentou extrair alguma complexidade de um personagem egoísta, ególatra e inconsequente, especialmente na cena em que ele, depois de perder tudo que mais amava, reclama para sua ex-noiva que a culpa toda era do ‘vilão do filme’ (interpretado de forma caricata por Riz Ahmed como alguém com motivações ainda mais mesquinhas, com a diferença de tais motivações terem lhe dado muito dinheiro), e a sua ex lhe diz: “Não, a culpa é sua. Você botou tudo a perder”. – ou seja, mesmo que o verdadeiro ‘vilão’ possa ser uma ameaça, o protagonista foi quem se vulnerabilizou por sua própria irresponsabilidade.

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Mas nem a personagem da ex-noiva se salva… Interpretada por ninguém menos que um dos maiores expoentes do cinema independente americano, Michelle Williams, e contracenando com outro querido do circuito, Tom Hardy, o que poderia ter desenvolvido uma grande química pelo potencial de ambos se torna em algo tão vazio quanto…de plástico. Tom até desenvolve bem sua relação com a própria outra personalidade, a de Venom, com trejeitos e expressões de alguém que está se esfacelando e derretendo de fora para dentro. Porém…, quando se trata de Williams, nenhuma cena dá certo, tanto sozinha quanto com seu par romântico, parecendo que a normalmente brilhante atriz foi muito mal dirigida nesta obra. Muito mesmo.

Outro quesito que decepciona é o campo da decupagem de ação e efeitos especiais. O que poderia ser inovador ou vanguardista, especialmente pela característica que os poderes de Venom se assemelham a um teste psiquiátrico de Rorschach, se tornam movimentos ocos de um cronômetro já visto à exaustão, quadro a quadro. Especialmente quando apelam para o excesso de uso de computação gráfica para um personagem predominantemente noturno em cenas escuras e sem muita visibilidade. Talvez num Imax a definição e equalização de cores pudesse ter sido mais satisfatória, mas o filme em si não compensa a revisão numa tecnologia desperdiçada para ele. O que poderia ter funcionado na chave de elementos emprestados do gênero terror, como outros diretores experientes já usaram em filmes pop, como o já citado Sam Raimi em “Homem-Aranha” e Peter Jackson na trilogia “O Senhor dos Anéis”, aqui são emulados de forma muito distante a partir de enquadramentos propositadamente canastras de ficções científicas de filme B da década de 80. Ainda assim, um empréstimo que não parece ter a garra e coragem de seguir até o final, atenuando o que de fato poderia assustar ou criar algum tipo de choque como reação. — o que piora com os efeitos especiais que se pretendem de primeiro escalão, ao invés de assumir o estilo farsesco da década de 80, e acabam decepcionando, como se Venom fosse feito a partir daquela gosma de criança que escorre pelas mãos…

No fim, o que parece é que a produção não poderia colocar as mãos na lama o suficiente para se sujar como um filme de um super vilão necessitaria. Hollywood simplesmente não sabe fazer filmes de vilões, vide o fracasso retumbante da brincadeira de criança de “Esquadrão Suicida”. O engraçado é que até as mídias televisivas hegemônicas brasileiras andam tendo mais facilidade de criar e desconstruir mitos vilanescos a partir de vilões da vida real ou mesmo de heróis vertidos para a vilania pela manipulação do poder da imagem… Mas Hollywood parece pudica frente à situação atual brasileira para sequer agregar algo com seu “Venom” ao cenário da geopolítica metafórica do imaginário popular.