Vento Seco

David Lynch nunca foi tão goiano

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14 de outubro de 2020

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O 9º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba conseguiu trazer um bom equilíbrio este ano de filmes com linguagem mais popular e outros com maior experimentação… Mas nem todos estes filmes assumiram um risco em sua linguagem ou estética tão grande quanto um dos filmes mais ousados e, por conseguinte, mais gratificantes para quem se arriscar, que é o goiano “Vento Seco” de Daniel Nolasco. Sua provocadora estetização erótica com toques de neon noir talvez tenha sido a única razão para não ter concorrido no início do ano na competição principal de Berlim junto com “Todos os Mortos” de Caetano Gotardo e Marco Dutra, e sim na Mostra Panorama (saiba mais aqui). Muito bem resolvido plasticamente, e de extrema vanguarda na linguagem conceitual, retira as referências cinematográficas evocadas do lugar comum e as ressignifica em novas leituras não exploradas. Há de exemplo colocar o arquétipo do ‘Clube Silencio’ do filme “Cidade dos Sonhos” de David Lynch numa pegada LGBTQ atualizada, através do transbordamento do eros no pós-pornô como grito emancipatório.

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O cineasta Daniel Nolasco metaforiza várias alusões fílmicas do imaginário e subconsciente para falar do que está sendo proibido e censurado no Brasil. Cenas deste momento político que o próprio Presidente da República anda enunciando de maneira tão controvertida. Isto porque, ao criar uma caça às bruxas por expressões como ‘golden shower’, por exemplo, tudo o que Bolsonaro consegue é intensificar a intolerância persecutória e o obscurantismo ao invés de semear o esclarecimento… O filme, portanto, pega várias destas questões e as transporta no subconsciente do protagonista, de modo a que ele possa ver, mas não possa tocar, numa tensão constante entre imaginário e a privação do prazer. E isso transborda num suspense e horror psicológico… Estamos vendo um desejo que é livre dentro do delírio do personagem, mas que, se ele não pode tocar ou consumir em seu tesão, passa a ser também um pesadelo.

O personagem não pode se realizar porque está sendo castrado pelas convenções sociais que dizem que isto não pode acontecer. É até algo irônico e paradoxal, em meio à fábrica onde ele trabalha, rodeado de personagens LGBTQ, e que são todos expostos à maior precarização de trabalho que deveria ser a principal preocupação deles em termos sociais. Contudo, é a castração do direito universal ao amor livre que se torna uma distração substitutiva intencional para que não se mobilizem nas questões laborais. Afinal, caso se unissem, eles seriam uma potência (não só em Goiânia, mas como no resto do país).

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Além disso, o filme contém alguns dos quadros plasticamente mais belos do ano. Trazendo referências de filmes anteriores do diretor, como “Sr. Raposo” (2017) e “Mr. Leather” (2019), onde as roupas de couro e as luzes de neon de inferninhos noturnos conjuravam uma contracultura pela libertação do desejo e do prazer, as luzes de neon voltam a se iluminar sobre as peles vestidas de couro, ou despidas dele… E isto se configura como um estilo de vida que se faz manifesto político perante regramentos sociais que querem o extermínio destes mesmos corpos livres. Independente da orientação sexual do espectador, dá gosto ver cenas tão bem montadas e pintadas como num quadro LGBTQ de modo a representar o amor livre — afinal, independente de quem se ama, o direito de amar não deveria ser o maior e mais belo de todos? O Clube Silencio previamente citado nesse texto, do filme “Cidade dos Sonhos” de David Lynch, já demonstra claramente o quanto precisamos de espaços seguros para performar e questionar as regras sociais que não nos representam ou nos violentam. E é papel da arte libertar o olhar. Os jogos de câmera, de luzes, os enquadramentos, o extracampo e a trilha, é tudo tão rico e transgressor em “Vento Seco” que enuncia o que precisamos dialogar na sociedade para nunca mais aceitar a repressão imposta atualmente.

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