Ventos de Agosto

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29 de novembro de 2014

O primeiro longa-metragem de ficção do diretor brasileiro Gabriel Mascaro, conhecido pelos documentários Doméstica (2012) e Um lugar ao sol (2009), não perdeu o tom realístico dos trabalhos anteriores. Ventos de Agosto (2014), com ares de uma etnografia antropológica, permeia de forma frouxa e fluída pelos campos da realidade e da ficção sem cair no senso comum da pura descrição. O filme é uma ode ao improviso, uma vez que os elementos da região do litoral nordestino no qual é rodado interferem e influenciam de modo espontâneo no roteiro apresentado nos deixando sem saber o que é a realidade permeando na ficção e o que é ficção com toques de realidade. Esse estranho incômodo gerado no espectador enquanto assiste ao filme é, sem duvida, a experiência mais marcante e gratificante que se pode extrair dele.

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Ventos de Agosto conta a história de um pesquisador de som (Gabriel Mascaro) ao desembarcar em uma vila de pescadores para fazer uma pesquisa. Nesta vila conhecemos Shirley (Dandara de Moraes) e Jeison (Geová Manoel dos Santos), um casal de namorados. Ela trabalha na fazenda e ele pratica pesca submarina. Com a maré alta, estranhos acontecimentos ocorrem e mudam a vida dos habitantes locais. Exatamente por conta da proposta do diretor não convém falar muito da sinopse do filme, mas sim da experiência em si que ele nos causa. A premissa do roteiro toca em temas como vida, morte, natureza, liberdade, religião, sexo, ritual. Nenhum desses elementos aparece de forma furtiva ou gratuita, mas todos repletos de significados e significantes, por vezes imagéticos, por vezes sonoros. Mascaro realmente brinca com o vento que dá título ao filme. Em um dos ótimos momentos em que o próprio diretor, encarnado no personagem do pesquisador de som, aparece, vemos e ouvimos o som local com todas as suas peculiaridades para através destes sons podermos compreender o comportamento das pessoas que vivem naquela região de um Brasil um pouco esquecido no tempo, ainda bastante rústico e com “leis próprias”. Uma rápida e ácida crítica social ocorre quando Josué encontra um cadáver na praia e precisa fazer algo com o corpo. Neste momento temos um confronto entre os costumes locais e a institucionalização da vida social. É de praxe naquele vilarejo enterrar os mortos na beira da praia e, com isso, costumeiramente, partes de corpos são encontradas na areia por serem trazidas pelo mar. A base de subsistência daquelas pessoas ou vem das águas (pesca) ou da colheita (de cocos). E, portanto, suas vidas começa e termina nas águas.

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Shirley é a personagem que nos guia nessa aventura naturalística. Uma moça de fora, da cidade grande, que se vê obrigada a viver no vilarejo para cuidar da avó idosa. Ela não gosta do lugar, mas acaba tirando proveito do pouco que lhe é legado e com isso vemos em suas viagens de carro transportando cocos ou enquanto toma sol num barquinho esperando Jeison mergulhar, paisagens estonteantes que rendem ao filme uma fotografia belíssima usada pelo diretor como uma metalinguagem sensorial do real ficcional que estamos experimentando.  Sim, o filme trata exatamente disso: experimentar, junto com o diretor, os atores e a população local um pouco daqueles sons de vento, dos ventos de agosto. A proposta é pensar aquele universo imagético através dos sons: do som das pessoas, do som das coisas, do som das marés, do som da natureza, do som das palavras, do som do não-dito. Mascaro utiliza como referência o documentarista holandês Joris Ivens que no apogeu de sua carreira se dispôs a filmar o vento. Plasticamente, o diretor demonstra extrema habilidade no uso dos enquadramentos e texturas nos brindando com um filme multifacetado.

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Ventos de Agosto é então um filme que fala de contrastes: rural – urbano, homem – mulher, vida – morte, juventude – velhice, rituais – instituições, terra – água. E esse conteúdo é todo tratado de forma contemplativa. Mascaro nos trás um filme extramente rico para o debate não somente pelos temas universais abordados nele, mas pela forma interessante e intrigante pelo qual decide contar a sua trama. Com duas cenas estonteantes: os corpos nus sobre um caminhão cheio de cocos e o banho de coca-cola que Shirley toma no barquinho enquanto espera Jeison retornar de seu mergulho, encerro esse texto afirmando que este é um filme indispensável dentro do movimento em que o novo cinema brasileiro vem se afirmando. Não é a toa que o filme ganhou Menção Especial do Júri na cerimônia de premiação do Festival de Locarno deste ano.

Avaliação Samantha Brasil

Nota 5