Ventos do Sul levam uma frente fria criativa para a TV brasileira nesta noite de quarta

Quarto curtas de diferentes latitudes sulistas do Brasil comprovam o vigor de jovens realizadores de verve autoral aflorada

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22 de abril de 2015

De volta ao quarto 666

Responsável pelo documentário-sensação do ano no país, o portrait afetivo “Sal da terra”, Wim Wenders vai expor suas madeixas grisalhas na tela do Canal Curta! na noite desta quarta, a partir das 20h, numa maratona cinéfila composta por alguns dos melhores filmes de metragem com até 25 minutos feita na Região Sul do Brasil. Wenders é o tema de “De volta ao quarto 666” (na foto acima), uma releitura à gaúcha de Gustavo Spolidoro para um trabalho que o diretor alemão fez em 1982 (“Chambre 666”) entrevistando mestres da câmera como Godard, Herzog, Antonioni, Spielberg e Fassbinder. Uma vez que o Curta! se estabelece mês a mês (programação a programação) como uma casamata para a autoralidade fílmica nacional, a seleta desta noite refresca nossa reflexão com um minuano capaz de soprar imagens de uma nova guarda de realizadores. Spolidoro é um dos veteranos da turma e estará em cartaz a partir de amanhã no carioquíssimo Cine Joia, em Copacabana com o longa.doc “Morro do Céu”, lá de 2009. Neste, com uma câmera espasmódica na mão, Spolidoro (conhecido pelo longa “Ainda orangotangos”) flagra (em tintas poéticas) o dia a dia do jovem Bruno Storti e seus amigos em uma pequena comunidade de descendentes de italianos. Mas, por hora fiquemos no Curta! e seus curtas…

Propriedades
Ainda hoje, no pacotão sulino das 20h, entram duas animações obrigatórias, ambas dirigidas pelo gaúcho Rodrigo John: “Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo” (2011) e “Propriedades de uma Poltrona” (2010). O primeiro segue uma canção de Lupicínio Rodrigues para poetizar sobre a descrença na esperança afetiva. O segundo (na foto acima) dialoga com a literatura de Julio Cortázar para brincar de prosopopeia com um sofá velho de guerra.

Qual queijo você quer

Mas o destaque da noite vem de Santa Catarina: “Qual queijo você quer”, produção vencedora do Festival do Rio 2015, dirigida pela diretora egressa de Caçador (SC) Cíntia Domit Bittar. É uma história sobre o objeto pontiagudo chamado paciência, que se descortina na gangorra do Tempo (este vilão) entre duas almas danadas pela idade e pelo cansaço da rotina. No novelo cinematográfico desenrolado por Cíntia, dois veteranos do teatro brasileiro usam sua experiência como o máximo de elegância: Henrique César e Amélia Bittencourt. Ele, Afonso; ela, Margarete. Quando Afonso (Henrique) pede para Margarete (Amélia) lhe trazer um queijo colonial da venda, a senhora tem um faniquito e decide lavar quilos de roupa sujas por décadas de promessas amorosas jamais cumpridas. A dupla de atores defende bem a premissa do roteiro (centrada na tolerância ao esgotamento) sem incorrer em “teatralidades” cênicas. No arranjo visual, a fotografia de Denny Sach embarca na peleja de amor, sublinhando os pontos de tensão de uma vida a dois em ponto morto.

 

Juntos, os quatro curtas oxigenam o planisfério do cinema fora do eixo. Esse time de filmes terá reprise nesta quinta-feira, à meia-noite e às 14h, e na sexta, às 8h.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4