Vício Inerente

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29 de março de 2015

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Um filme dentro de um filme dentro de um filme. Assim costumam ser as trabalhadas obras de Paul Thomas Anderson, artesão instantâneo de cults para refletir para além da história principal, coisa rara entre os cineastas americanos da geração mais recente. Ex-pupilo do saudoso mestre Robert Altman, especialista em elencos gigantescos de peso, onde todo e cada um ganha vitalidade através de momentum, além de desmistificar as grandes Instituições sociais, em seu mais novo exemplar, “Vício Inerente” (“Inherent Vice”, 2014), Anderson subverte o gênero noir, com ironia e psicodelismo na década de 70, mas querendo mesmo é falar sobre alguns dos alicerces da América através da podridão dos clientes no escritório de investigação de seu protagonista:

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Doc é um detetive particular viciado em drogas, na pele do excelente ator habitué do diretor, Joaquim Phoenix, contratado pela ex-namorada para desvendar a trama do possível sequestro de seu amante, um magnata imobiliário envolvido em esquema de corrupção e drogas. Mas este é apenas o contexto principal.  Como mencionado anteriormente, quem absorver unicamente esta camada, já terá uma satisfatória experiência de humor e reviravoltas típicas do gênero, talvez na trama mais aparentemente reta do cineasta, o que não quer dizer simples. Porém pode perder inúmeras sutilezas do subtexto, a citar os vários significados do título: “Vício Inerente” não só alude aos vários personagens drogados e traficantes da trama, como também aos vícios inerentes da América como pátria, há de exemplo a Guerra do Vietnã daquela época, ou o dirigismo de poder do Estado como um Big Brother que sabe de tudo…. Além de simbologias ainda mais ricas, a de vícios como defeitos inerentes, ou na língua jurídica vícios ocultos, onde você recebe um produto ou um serviço defeituoso sem perceber.

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Eis um dos principais subtextos do filme, o de que a percepção das personagens é prejudicada, turva, quase em delírio inerente, como se não pudéssemos confiar se todos que interagem com o protagonista realmente existem ou são apenas efeitos de drogas, pois se não fosse esta leitura, alguns personagens poderiam parecer mal acabados, o que não é de fato. Maior exemplo disso é a diáfana personagem Sortilége ( a também cantora/atriz Johanna Newsom ), que também narra o filme com seu sotaque engajador e inebriante. Ou como nenhuma Instituição sai impune, desde o FBI, a máfia ou magnatas capitalistas, envolvidos em seitas, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos. Tudo regado a figurinos e cenários setentistas lisérgicos a nos fazer enganar sobre o caráter dos envolvidos, com destaque para a bruta e atordoante performance compulsiva de Josh Brolin no papel de um policial aparentemente incorruptível. Sem falar nas metáforas visuais do diretor, câmeras lentas, superfícies reflexivas e closes fechados aumentando a paranóia. Às vezes podendo parecer pretensioso, como na analogia à pintura de Da Vinci “A Última Ceia” de Cristo, e aqui representado pela foto de um bando de hippies de um culto à mesa, ainda assim sempre o é relevante,  como em sua simbologia favorita, com a água, pois aqui também o mar à beira da casa do protagonista significa as viagens de alma a serem feitas entre memórias e ilusões, assim como no brilhante filme anterior de Anderson, “O Mestre”, sobre a fluidez psíquica da dominação e controle da mente, ou o petróleo representando um “Sangue Negro”, ou as piscinas das orgias de “Boogie Nights” ou mesmo a chuva torrencial catalisadora de seus elencos corais no cult máximo “Magnólia”.

Por essas e outras que “Vício Inerente foi indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado do romance de Thomas Pynchon, pois Anderson realmente dá a sua personalidade às obras que realiza, independente do texto ser original. Marca de um grande cineasta.conteudo_92555

 


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