Victor Frankenstein

Paul McGuigan dirige um filme com muito exagero para conteúdo com pouca relevância

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27 de novembro de 2015

Desde o filme “Frankenstein” dirigido por J. Searle Dawley em 1910, passando pela conhecida versão homônima de 1931 de James Whale, o clássico de Mary Shelley “Frankenstein” parece ser uma fonte inesgotável de ideias para novas adaptações para o cinema. Depois da última tentativa – o pavoroso “Frankenstein: Entre Anjos e Demônios” (2014), de Stuart Beattie –, Paul McGuigan apresenta a sua versão da famosa história pelos olhos de Igor Strausman (Daniel Radcliffe), assistente do estudante de medicina Victor Frankenstein (James McAvoy), que dá nome ao longa. Na trama, os caminhos de Victor e Igor se cruzam no circo onde o segundo trabalha como palhaço e é chamado de corcunda, quando a bela trapezista Lorelei (Jessica Brown Findlay) sofre um acidente durante sua apresentação. Graças ao estudo de anatomia humana nas horas vagas, o então corcunda chama a atenção de Victor por suas habilidades de médico autodidata ao salvar a vida da moça. Logo Victor decide resgatá-lo e o leva para sua casa, onde lhe dá o nome de seu desaparecido colega de quarto Igor e o cura de um abcesso antigo na coluna, o causador da corcunda. Agora ereto e com uma nova identidade, Igor passa a ser o assistente de Victor e tem papel essencial em suas insanas criações.

Com preparação corporal fantástica de Daniel Radcliffe, o roteirista Max Landis (de “Poder Sem Limites” e “American Ultra: Armados e Alucinados”) resgata o personagem Ygor dos longas “O Filho de Frankenstein” (1939) e “O Fantasma de Frankenstein” (1942), que surgiu nas telas na pele de Bela Lugosi numa bizarra figura com uma corcunda. A atuação do ator após as cenas iniciais no circo, no entanto, é apenas correta, ao contrário de seu colega de cena James McAvoy, que desperta a atenção do público com seus olhos arregalados e postura irônica e exagerada, encaixando-se bem ao personagem que transita entre a genialidade e a loucura. Landis constrói uma relação entre Igor e Victor que vai além de mestre/discípulo e mistura dominação, amizade e dívida de gratidão. Lorelei entra na trama como ponto influenciador na mudança de atitude de Igor, que passa a se dar valor e a questionar moralmente as ambições megalomaníacas de Victor – algo bem parecido com a ligação entre Esmeralda e Quasímodo em “O Corcunda de Notre Dame”, só que dessa vez o ex-corcunda ganha ares de Phebo e fica com a mocinha.

O maior problema de “Victor Frankenstein”, situado numa Londres do século XIX que flerta com o steampunk, é o mosaico de subtramas em que nem todas as peças se encaixam. Da discussão sobre vida e morte a questionamentos religiosos e espirituais característicos da história original, já explorados em produções anteriores, há ainda a adição de cenas de perseguição policial encabeçadas pelo ridículo e obsessivo personagem de Andrew Scott, um romance sem sal, explosões repentinas e questões familiares utilizadas para justificar a criação do monstro de Frankenstein, que só desponta na tela no ápice da trama numa sequência final de qualidade bastante duvidosa. Em contrapartida, a fotografia sombria como a mente de Victor e a ótima direção de arte aliadas a efeitos especiais interessantes (com destaque para esquemas do corpo humano sobrepostos a cenas e personagens, de modo parecido como ocorre em “O Código da Vinci” e “Uma Viagem Extraordinária”) formam a atmosfera ideal para a mirabolante amálgama de McGuigan. Apesar de funcionar como entretenimento, o blockbuster “Victor Frankenstein” é uma versão dispensável que nada acrescenta ao clássico de Mary Shelley e um filme que será facilmente esquecido.

 

Victor Frankenstein (Idem)

EUA – 2015. 110 minutos.

Direção: Paul McGuigan

Com: James McAvoy, Daniel Radcliffe, Jessica Brown Findlay, Andrew Scott e Freddie Fox.


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