Victoria e Abdul

Relação colonizador-colonizado revelada no subtexto não intencional do filme

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17 de outubro de 2017

Victoria e Abdul é um filme cativante exclusivamente pela relação um tanto improvável que se dá entre a Rainha e seu Munshi. Abdul Karim (Ali Fazal) é um jovem indiano convidado a ir até a Inglaterra para entregar à Rainha Victoria (Judi Dench) uma moeda cerimonial em comemoração ao jubileu de ouro, os cinquenta anos da monarca no trono. O motivo: ele era o homem mais alto disponível. Um segundo indiano alto foi requisitado, mas devido a um acidente, Abdul ganha a companhia do baixinho Mohammed (Adeel Akhtar) em sua importante missão. Se Abdul está exultante em conhecer a Inglaterra, Mohammed passa todo o tempo ansiando retornar à Índia. É dele alguns dos melhores momentos de humor do filme, com suas críticas ácidas ao Império Britânico e sua rejeição ao clima frio europeu. Uma vez que a Rainha acha o serviçal indiano alto muito bonito e ele se dirige a ela com adoração, Abdul se torna seu assistente pessoal e, eventualmente, seu Munshi, uma espécie de guia espiritual, estendendo indefinidamente sua permanência em território inglês – em detrimento do humor e da saúde de Mohammed, que passa a ser seu assistente. Abdul ensina à Rainha desde um pouco de Urdu a existência de mangas. Sim, a fruta. E aí nasce uma grande e não muito verossímil relação de amizade entre os dois.

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Victoria, majestosamente interpretada pela segunda vez por Judi Dench, se mostra entediada com os pomposos rituais da Coroa e apática em relação a tudo mais até conhecer Abdul. De austera e apática, ela se torna gentil e alegre. O filme se esforça para isentá-la de grandes responsabilidades governamentais, pintando-a ao longo dos atos como alguém estranhamente progressista e apenas vagamente ciente das decisões políticas dos reinos sob seu domínio. Além disso, o isolamento e as relações de interesse que a cercam são enfatizados de modo a justificar a importância que o Munshi vai ganhando em sua vida. A crítica indireta (e não muito convincente) aos modos da Coroa britânica é dividida em doses pela tropa que rodeia a Rainha, tendo maior evidência nas atitudes de Bertie (Eddie Izzard), o invejoso e mimado Príncipe de Gales e filho de Victoria; Dr. Reid (Paul Higgins), o pomposo médico da Rainha; e Sir Henry Ponsonby (Tim Pigott-Smith), o secretário pessoal da monarca.

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Victoria e Abdul mostra de forma bem humorada e irônica os últimos anos do reinado de Victoria, enfatizando seu relacionamento com o jovem Abdul e o impacto causado por essa polêmica relação, totalmente rejeitada pelos aristocratas e figuras importantes do governo inglês. O longa em seu revisionismo do período histórico retratado flerta perigosamente com uma tentativa de transformar o imperialismo inglês e toda a estrutura há muito obsoleta da realeza britânica em um gracioso conto de fadas sobre uma relação nada autoritária entre império e colônia. Exemplo disso é o que é feito de Abdul. Este passa muito tempo em tela e quando não está, alguém fala sobre ele. Sua presença é um despertar para Victoria depois de muitos anos como viúva, solitária e entediada com suas obrigações, mas vista como ofensa e ameaça para os demais. Ele é o primeiro personagem relevante que nos é apresentado e o último que vemos ao final do filme, mas, devido ao que roteiro e ator nos entregam, ou melhor, não entregam, o personagem parece subdesenvolvido, pequeno, tratado de forma bastante inferior se comparado ao que é feito com a personagem de Dench – a verdadeira relação entre império e colônia se revelando aqui. A direção de Stephen Frears não é muito marcante e toda a parte técnica do filme é pouco imaginativa, previsível, funcionando bem o suficiente para contextualizar a trama, mas nada além. Ao final, temos do filme a mesma impressão que temos do Munshi, ligeiramente charmoso, mas superficial.