Exclusivo: Diretor do sucesso Estômago fala sobre os novos projetos

Marcos Jorge conversa com a gente sobre o que vem por aí. Confira!

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05 de outubro de 2014

Dando as aparas finais na superprodução O Duelo estrelada por Joaquim de Almeida e o saudoso José Wilker, o cineasta paranaense Marcos Jorge já se debruça sobre a montagem de seu novo longa-metragem: Mundo Cão. A menção canina no título antecipa uma história onde um funcionário da carrocinha confronta um bandido, tendo Lázaro Ramos e Babu Santana em pontos opostos de um cabo de guerra social. Nessa história, a expectativa do cineasta é propor uma recontextualização da imagem da violência nas telas da América Latina, mas sem perder a fina ironia que o consagrou em Estômago (2007).

Nascido e criado na cidade de Curitiba, em Paraná, estado do Sul do Brasil, em 1964, o diretor se tornou um dos realizadores de maior prestígio entre os brasileiros por conta do sucesso mundial da comédia culinária com João Miguel, uma produção saudada com calorosos elogios no Festival de Berlim, há sete anos. Nesta entrevista, Jorge antecipa detalhes de suas novas produções, explicando de que maneira reconstruiu o imaginário literário de Jorge Amado no “duelo” que ganha as telas no início de 2015, já de olho em uma vaga em festivais internacionais.

Marcos e Wilker O Duelo

Que fascínio o romance “Os velhos marinheiros ou o Capitão-de-longo-curso” (1961), de Jorge Amado exerce sobre você? O que o filme buscou resgatar do livro?

Este é um filme sobre como manipulamos nossas verdades. No livro, Amado brinca com a construção de mitos. “Os velhos marinheiros” é um romance do qual pouco se fala, por ser localizado, na obra de Amado, entre suas grandes personagens femininas pós-Gabriela. É um livro menos político e menos sexual. Este foi o primeiro roteiro que escrevi sem parceiros. Mas a prosa de Amado se impõe com tal força que, na adaptação, a gente sente o mestre baiano do lado.

Mundo Ca¦âo

Acostumado a criar seus próprios projetos, produzidos por sua mulher, Cláudia da Natividade, você assumiu a direção de “O duelo” a convite da Total Filmes, produtora responsável por sucessos como a franquia “Se eu fosse você” (2006-2009) e “O divã” (2009). Com o aporte técnico da Total, você rodou cenas em locações em Tiradentes (MG) e reproduziu, no navio Pink Fleet, do empresário Eike Batista, a embarcação usada por Vasco, o personagem de Joaquim de Almeirda. Mas a maioria dos cenários foi construída entre as salas do Centro Educacional Sagrado Coração de Jesus, no Rio de Janeiro, incluindo o bordel de Carol Língua de Ouro. Que mundo é esse trazido por “O duelo”, previsto para estrear em janeiro?

Uma característica fundamental deste romance é a constante mistura entre realidade efantasia, mistura aliás que constitui a própria essência da história. Ao adaptar o livro e transferi-lo para uma forma cinematográfica, essencialmente visual, levei esta ideia às suas últimas consequências.

Marcos Jorge set Mundo Ca¦âo

Exportado para duas dezenas de países mundo afora, a começar do Festival de Berlim, “Estômago” (2007) deu a você reputação internacional de cineasta autoral. De que maneira seus dois novos projetos já rodados, “O Duelo” e “Mundo Cão”, reproduzem essa vocação globalizada do longa que te consagrou?

A universalidade deveria ser uma qualidade buscada por todos os cineastas ao realizarem seus filmes. E isso não só por questões artísticas, mas também por questões práticas já que dificilmente um filme hoje consegue se viabilizar comercialmente explorando somente o mercado local. E se para conseguirmos ser universais devemos começar a “pintar nossa aldeia, como dizia Tolstoi, penso que somente isso não basta.  É necessário também saber escolher, dentre as muitas coisas que podemos “pintar” de nossa aldeia, aquilo que vai além dela mesma, ou seja, aquilo que de fato representa a humanidade ali presente e que pode, portanto, ser compartilhada pelos demais seres humanos, em qualquer lugar do planeta. Quando comecei a delinear a história do “Estômago” já tinha presente que queria falar de poder e gastronomia, e da relação entre estas duas coisas. Ora, todos comemos e em todas as aldeias existem relações de poder, eu sabia que poderia ser muito específico e brasileiro ao narrar minha história pois, tratando destas questões, ela seria entendida em qualquer lugar.

O duelo de Marcos Jorge

De que forma as duas histórias tão diferentes que você traz em “O duelo” (sobre o embate entre dois marinheiros) e “Mundo Cão” (sobre a disputa entre um bandido e um funcionário da carrocinha), apresentam essa universalidade sobre a qual você fala com ardor? 

“O Duelo” trata da ‘verdade’, da ‘mentira’ e da construção do ‘mito’, temas absolutamente universais (qual é o homem que não busca a verdade, e que não mente?). De fato, esta universalidade é uma das maiores qualidades do romance de Jorge Amado do qual o filme deriva. A aposta na universalidade é tão forte neste projeto que resolvi, inclusive, modificar a ambientação e o tempo em que transcorrem a história (do filme em relação ao romance), para que fossem mais “palatáveis” ao público contemporâneo. “Mundo Cão” trata da ‘busca pela justiça’ e da ‘vingança’, e das problemáticas interações entre estes dois temas tão fortemente relacionados. Também estes, é fácil reconhecer, são temas universais. Neste filme (como em ‘Estômago’ e, também, ‘O Duelo’), mais uma vez eu aposto no não-maniqueísmo das situações, e na ambiguidade de papeis. De fato, uma das frases síntese do filme e que estampará uma das versões de cartaz é “quem é o mocinho desta história?”. Muito interessante é a relação que você encontrou entre estes dois projetos, definidos por você como sobre “acertos de contas”. Você tem razão, eu não havia percebido isso.

O duelo Marcos Jorge

De que forma “Mundo Cão” se articula com toda a estética de violência perseguida pelo cinema brasileiro desde “Cidade de Deus” (2002)? Que periferia veremos na tela?

Já em “Estômago” um dos meus objetivos era dissociar a história de Raimundo Nonato da ‘onda estética da violência’ que, como você bem nota, tomara conta do cinema brasileiro depois do sucesso de ‘Cidade de Deus’. Os personagens, a ambientação, a história em si foram por mim tratados de maneira isenta e descompromissada, distante do paternalismo onipresente no cinema brasileiro. E embora eu tivesse numa prisão superlotada uma de minhas locações principais, e a violência fosse parte integrante deste mundo, o que tentei colocar na tela foi a reação dos homens à violência. Com “Mundo Cão” eu tento levar este objetivo um pouco mais adiante. Mais uma vez meu protagonista é uma pessoa simples e desfavorecida, e tem sua vida profundamente modificada ao sofrer uma terrível violência. Mas, o que me interessa mostrar é a humanidade dos personagens, a complexidade dos sentimentos com que têm que lidar ao serem envolvidos pela violência, e não a violência em si. De fato, são bem poucas as cenas de violência no filme, e nenhuma explícita, embora a “violência psicológica” esteja bem presente.

Sobre que classes sociais “Mundo Cão” fala e como fala delas?

Também em “Mundo Cão”, assim como no “Estômago”, eu tento discutir o tema da ‘ética’ no universo da classe média-baixa brasileira, classe que me fascina por ser a que concentra as maiores mudanças e onde pode ser visto com mais clareza o país que estamos construindo. E se justamente por isso “Mundo Cão” se passa na periferia, como vários outros filmes brasileiros, a periferia que eu tento colocar na tela é completamente diferente da do “favela movie” que quase virou sinônimo de cinema brasileiro (sobretudo lá fora). A família de meu protagonista vive no subúrbio de uma grande metrópole, e embora tenha uma vida complicada, até mesmo difícil (como a maioria dos brasileiros, aliás), não tem que lidar cotidianamente com traficantes e com a prepotência policial. Mas está sujeita, como todos nós, à barbárie que nos cerca.

Como foi seu encontro com a dimensão fabular de Jorge Amado em “O Duelo”? De que forma a estrutura de efeitos digitais empregadas pelo filme dialoga com o imaginário mítico do autor baiano?

Se por dimensão fabular entendermos a capacidade extraordinária de Amado de criar histórias exemplares da experiência humana, posso dizer que fui bastante influenciado pelo mestre baiano.  Conheci sua literatura quando era pré-adolescente, e na época li praticamente todos os seus livros. Lembro muito bem de quando, ainda quase um menino, saí da biblioteca com um desejado exemplar de ‘Dona Flor e seus Dois Maridos’. Eu tinha ouvido falar muito daquele livro e estava louco para lê-lo. E ainda me lembro perfeitamente do prazer que tive em devorar suas páginas, coisa que fiz em poucos dias. De fato, para mim os livros de Amado eram puro deleite, inclusive no sentido de que me ajudaram a descobrir o prazer de conhecer e entender a natureza humana. Então, reencontrá-lo agora, e com a incumbência deliciosa de adaptá-lo para o cinema, foi uma experiência maravilhosa.

Quando começou sua jornada de regresso ao universo de Amado com “O duelo”, que marca a última aparição nas telas de José Wilker, um dos maiores atores do Brasil, morto em abril, aos 67 anos?

Essa experiência começou em meados de 2009, quando a Total Filmes me telefonou perguntando se poderia me interessar realizar um filme à partir do romance “Os Velhos Marinheiros ou O Capitão De Longo Curso”. Confesso que fiquei imediatamente intrigado pois só me lembrava vagamente deste romance. Pedi alguns dias para reler o livro e ao fazê-lo a empatia foi imediata. Simplesmente deliciei-me com as aventuras do Comandante Vasco e com seu conflito com Chico Pacheco. Mas ao chegar perto do final do romance foi que tive certeza de que queria fazer o filme: ao ler a cena da chegada do navio do Comandante ao Cais de Belém, revivi com detalhes o momento em que, adolescente, me emocionara ao ler a mesma cena. Pensei que se eu conseguisse fazer com que os espectadores sentissem a mesma comoção que eu, naquele momento, estava sentindo pela segunda vez, poderia fazer um filme muito especial.

Como você avalia o lugar do romance “Os Velhos Marinheiros ou O Capitão De Longo Curso” na tradição cinematográfica de se arrancar (bons) filmes da obra de Jorge Amado?

Em “O duelo”, a cada vez que uma história é contada por algum personagem, vemos, junto com as pessoas que estão ouvindo a narração, a ação narrada se desenrolando em nossa frente, confundindo-se com a realidade. Isso estabelece para o filme um estilo visual inconfundível, essencialmente gráfico, que foge do realismo e estabelece um mundo mágico, feito de tempos alterados, cores surpreendentes e luzes impossíveis, efeitos visuais que foram descritos no roteiro, planejados na filmagem e obtidos na pós-produção. Como exemplo desta interação posso citar uma cena logo no início do filme

Qual?
Vasco Moscoso, recém chegado a Periperi, comparece ao velório de uma anciã e lá encontra, entristecidos, alguns de seus novos amigos, conhecidos há pouco tempo na praça da cidade. Para fazer passar o tempo e a tristeza, começa a contar aos presentes uma de suas muitas aventuras, mais especificamente a história da dançarina Soraya, encantadora performer de um cabaret do oriente, e de como o seu copiloto Johann por ela se apaixonara e se perdera. À medida que Vasco conta a história, encantando e distraindo os presentes, vemos, junto com eles, o velório transformar-se num cabaret, e a dançarina Soraya realizar seus passos de dança em volta do caixão da falecida. A transformação é sutil e progressiva, seduzindo e confundindo o espectador, e foi obtida com o uso de cenografias móveis e efeitos visuais de pós-produção, como em diversos outros momentos do filme em que ocorre algo semelhante.

Como seguem seus vínculos cinematográficos com a Itália, país que te formou? Há projetos por lá? 

Minha ligação com a Itália é muito importante, formadora mesmo de minha identidade como diretor, e portanto posso dizer que praticamente tudo que faço tem uma relação com aquele país riquíssimo de cultura e arte. Mas esta ligação certamente é mais sutil nestes meus dois últimos filmes do que em “Estômago”.  Tenho sim um projeto mais diretamente ligado à Itália e que possivelmente rodarei por lá daqui a algum tempo, mas ainda é prematuro anunciá-lo.