Vida em Família

Brincando de casinha

por

09 de outubro de 2017

Comédia chilena simpática e sem final fácil, “Vida em Família” é baseado em um conto de Alejandro Zambra, adaptado pelo próprio autor para os cinemas, com direção de Alicia Scherson e Cristian Jimenez.

Existe de fato uma ótima química na dupla de diretores e a forma de lidar com os personagens. De personas ordinárias que se veria proliferar no dia-a-dia, passíveis de serem vizinhos de porta meus e seus, o elemento surpresa vai ser jogado na forma de um antigo amigo do patriarca da família central da história que está desempregado, e a quem é oferecido cuidar da casa durante a viagem familiar. É no desalinho que já havia no casamento dos donos daquele lar que nasce a sementinha de desconfiança na projeção com a vida alheia, havendo uma transferência psicológica dos pais certinhos para o amigo solteirão e jovial que não aparenta o que pensa estampado em seu rosto opaco. E, da mesma forma, será vivenciando os hábitos mais cotidianos da casa que o amigo irá experimentar o que seria viver em família e fingir que a família das fotos é a sua.

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A premissa inicial é super interessante e lembra um pouco o mote do soberbo “Casa Vazia” do mestre coreano Kim Ki-Duk, porém sem o lado sombrio do novo cult. Portanto, enquanto o filme coreano vai para outro lado de abandono social e diferença de classes, este exemplar chileno passeia mais pelas raias internas do psicológico humano, e como é difícil se livrar dos traumas do não-crescer quando a própria família vira fantasmas que lhe impedem de crescer. E até o faz com uma razoável leveza e cenas apaixonadas que tornam natural a potência carnal que o filme acrescenta no cotidiano. As personagens pouco conhecem a si mesmas, ainda que não hesitem em aliviar o peso da vida no espelhamento do próximo, criando até uma ligeira tensão sobre como se desenrolará a descoberta da farsa quando a família regressar ao lar que o amigo usurpou e está mentindo para terceiro como sendo seu. Neste quesito lembra um pouco o excelente “Minha Amiga do Parque” de Ana Katz, do Festival do Rio de 2016, mas empalidecendo um pouco por comparação a este.

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Porém, os arquétipos ali colocados possuem uma boa complexidade que poderia ser melhor trabalhada (como nas fotos rabiscadas de infância do protagonista e na interação dele com a esposa do amigo), apesar de que, como previamente dito, o final sem respostas fáceis colabore em amarrar algumas pontas soltas intencionais. Vale lembrar menção honrosa para a interpretação das duas atrizes principais do filme (Gabriela Arancibia e Blanca Lewin), excelentes em seus papéis, mesmo que o tempo em tela seja reduzido para priorizar o ponto-de-vista do amigo perdido na vida. Um filme de bom potencial, e até aplicação de humor interessante entre o constrangimento e a inocência, que não decepciona.

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