Vida

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19 de abril de 2017

Desde que o raciocínio crítico começou a nortear os habitantes do planeta Terra, existem pelo menos duas grandes questões fundamentais no decorrer da existência. Nesse âmbito de teorias e incertezas, a vida após a morte e/ou vida em outro planeta são polêmicas cada vez mais distantes do fim. O cinema, terreno fértil para fantasias das mais variadas formas, acaba se tornando uma ferramenta de reflexão ou discussão, ou simplesmente uma plataforma para o desenvolvimento da imaginação do espectador, graças à criatividade de seus realizadores. O maior exemplo disso é a ficção científica, gênero que toca na fantasia, mas sem necessariamente abandonar as interrogações fundamentais que se escondem na essência do ser humano. O filme “Vida”, dirigido por Daniel Espinosa, espécie de filho temporão do “Alien” (1979) de Ridley Scott (o primeiro de uma pródiga franquia), segue essa fórmula: seis astronautas, trancafiados em uma estação espacial, devem observar e estudar um ser unicelular coletado no solo de Marte. O ser, a princípio microscópico, ganha até nome: Calvin. O elemento inesperado, inclusive para o cientista Hugh Derry (Ariyon Bakare), fica por conta do desenvolvimento acelerado da espécie, dona de uma inteligência agressiva.

A forma como o filme “Vida” gera a crise do enredo já é bastante conhecida: o público, já devidamente familiarizado com os personagens, observa a ascensão de um monstro irrefreável que começa a selecionar suas vítimas. Cabe ao espectador escolher um preferido e, se julgar apropriado, torcer pela sua sobrevivência. Do grupo que povoa a estação espacial, ganham destaque David Jordan (Jake Gyllenhaal) e Miranda North (Rebecca Ferguson) por, digamos, serem os que melhor sabem lidar com os caprichos destrutivos de Calvin; criatura asquerosa que, durante o crescimento, ganha tentáculos semelhantes aos de um polvo. Ryan Reynolds interpreta Rory Adams, o impetuoso e engraçadinho do grupo, cujos maneirismos, guardadas as devidas proporções, lembram a caracterização de seu debochado Deadpool. Sem querer citar (mas já falando) a possibilidade de um estigma, os roteiristas de “Vida”, Rhett Reese e Paul Wernick, são os mesmos do bem sucedido “Deadpool” (2016).

A busca dos personagens pela sobrevivência no espaço traça um paralelo interessante com a forma que o filme interage com a questão da vida, título do longa de Espinosa. Com o desenrolar dos acontecimentos, pouco importa a relevância da descoberta comprovada de vida alienígena. É a preservação da vida humana, em extinção naquele espaço confinado, que salta para o primeiro plano. Sem grandes ambições cinematográficas, o longa tem êxito ao sustentar a tensão do público nos momentos de suspense, por mais que os meios para isso não sejam exatamente os mais inovadores. Sem a profundidade de um “Interestelar” (2014), ou o apuro visual de “Gravidade” (2013), somente para citar exemplos célebres e bem recentes, “Vida” contenta-se com o correto — não corre riscos para garantir a aterrissagem segura.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3