VII Olhar de Cinema 2018: Abertura Mostra Competitiva de Curtas-Metragens

Curtas-Metragens lidam com temas desde a luta contra o esquecimento histórico como pelo resgate de ancestralidade

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08 de junho de 2018

Introdução da primeira sessão competitiva de curtas-metragens do VII Olhar de Cinema – Curitiba Int’l Film Festival, nas palavras de uma de suas curadoras Carol Almeida:

1) “Imfura” de Samuel Ishmwe, produção Suíça/Ruanda
2) “Nosso Canto de Guerra” de Juanita Onzaga, produção da Bélgica/Colômbia
3) “Caminhada Solar” de Réka Bucsi, produção da Dinamarca
4) “Espreita” de Farnoosh Samadi, produção do Irã/Itália
5) “Eles vêm aí!” De Ezequiel Reyes, produção do México

1) “Imfura” de Samuel Ishmwe, produção Suíça/Ruanda

Premiado com o Prêmio do Júri na competição de curtas-metragens no 68º Festival de Berlim 2018, “Imfura” é uma pequena joia sobre a memória e a medida de tempo e pertencimento em meio aos escombros de traumas do passado, mais especificamente os fantasmas deixados pelo genocídio da etnia dos tutsis por hutus extremistas. Período nefasto da história, onde até mesmo a ONU demorou a agir e não quis se envolver até que fosse tarde demais, os sobreviventes de ambos os lados tiveram de continuar convivendo em um território partido. Herdeiros daquela violência, hoje, continuam possuindo uma terra paradisíaca pelo toque de Deus, como o curta-metragem “Imfura” bem demonstra em fotografia apurada, seu diretor regressa às raízes em Ruanda, com coprodução Suíça, para tentar demonstrar seu lugar de fala como um destes herdeiros da memória, metaforizado no protagonista que fica dividido entre seus dois tios com posições opostas entre vender o terreno onde sua mãe havia tentado construir sua morada familiar antes de ser morta no genocídio ou tentar reconstruir a casa em meio aos escombros como preservação da lembrança e símbolo de um futuro munido da força e consciência do passado. Destaque para a cena sob trovões na penumbra com dois personagens dialogando diante de mural sobre a parede com a imagem de Jesus Cristo, Nossa Senhora e o Papa Francisco — três imagens sagradas diferentes para tentar tatear no que se pode acreditar quando seu chão lhe é tirado de você. A imagem é seguida de cântico folclórico da região cuja letra arremata muito bem o amor à terra que os prende a todos lá e lhes estimula a resistir e lutar.

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2) “Nosso Canto de Guerra” de Juanita Onzaga, produção da Bélgica/Colômbia

Seguido do poderoso “Imfura”, “Nosso Canto de Guerra” pode até parecer menos posante, porém não se engane. A imagem que começa e a que termina o filme, em posições invertidas uma à outra em sentido anti-horário, mostra um rio filmado com a câmera de lado, no limite do horizonte entre o céu e o reflexo da natureza ao redor na água. Início e fim, duas metades da laranja que se invertem. No meio, acompanhamos especialmente crianças que cantam no extracampo, com áudio dessincronizado das imagens como uma narração lúdica em off, cantando e contando alguns mitos populares ligados à natureza, e demonstrando que relembrar a ancestralidade é estar preparado para enfrentar o futuro, uma vez mais, reforçando a ideia do curta anterior, mesmo que de maneira mais sutil.

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3) “Caminhada Solar” de Réka Bucsi, produção da Dinamarca

A curadora Carol Almeida introduziu a sessão prometendo que se tratava de uma das animações mais ensandecidas e imprevisíveis que se poderia ver neste Festival, mas decerto é a mais original de fato. Uma viagem alucinógena através de figuras geométricas aparentemente soltas no cosmos e que depois irão demonstrar seu sentido ligado à origem da vida e dos seres humanos. Melhor não dizer mais nada para não estragar as surpresas de construções visuais inusitadas. Basta dizer que as imagens se desdobram em outras concepções bizarras que começam a fazer sentido aos poucos, numa brincadeira e homenagem ao mesmo tempo com alguns dos grandes pensadores e filósofos astrofísicos que primeiro sonharam nossa criação universal. Vale destacar que os desdobramentos se utilizam de várias técnicas de animação, e se intercalam ou intercruzam de formas sempre inesperadas, misturando as técnicas de formas muito originais. Um colírio para os olhos que ainda acompanham a questão temática da sessão pelos assuntos da memória e da ligação temporal de forma macro.

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4) “Espreita” de Farnoosh Samadi, produção do Irã/Itália

Que pequeno grande filme intrigante. Em meio a produções extremamente politizadas que flertam com o naturalismo, o documental ou a abstração total (caso da animação “Caminhada Solar”), enfim um refresco com pegada mais declaradamente de cinema de gênero, no caso de suspense, mas ainda assim engajado em questões identitárias sem precisar sequer pronunciar as questões, e simplesmente sendo o que é. Uma história que seguiria normalmente a protagonista iraniana que sai do trabalho tarde da noite e impede um assalto no ônibus de volta para casa. Porém, o assaltante frustrado começa a seguir o coletivo com a moto de um amigo, de forma a querer se vingar daquela que o denunciou. Com uma construção linear sem surpresas ou arroubos, a diretora Farnoosh comprova que a técnica e habilidade podem transformar oque poderia ser uma sinopse banal ou mesmo exploratória do sofrimento da mulher em um thriller de tirar o fôlego, e não apenas pelo prazer masoquista do espectador, e sim para denunciar uma condição ainda debilitante de uma sociedade que permite que figuras masculinas tentem se impor à constituição e força basilares femininas, como no caso a metáfora da protagonista e de sua filha, para a qual ela apenas queria poder voltar para casa para assegurar o zelo e proteção. — na formação das novas gerações que melhorem as condições sociais legadas.

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5) “Eles vêm aí!” De Ezequiel Reyes, produção do México

Que golpe pesado foi deixado para o final da primeira sessão de curtas competitiva no VII Olhar de Cinema, mas de golpe acertadíssimo e intencionalmente desestabilizador. “Eles vêm aí!” de Ezequiel Reyes fala das raízes históricas do México de forma diferenciada. Mais uma vez explorando a aparente dessincronização entre imagem e som, como uso de narração em off, é melhor não adiantar muito do que se escuta ou do que se vê na tela, mas basta dizer que será um grande choque de encontros. Tanto no que diz respeito às imagens de arquivo escolhidas para representar o México, como de qual discurso se faz valer para contar sua história. Basta dizer que o contraste de tensões gera uma nova vertente de denúncia poderosa que só o cinema pode proporcionar. Doloroso, denunciativo e humano.