VII Olhar de Cinema: A Casa Lobo

Poeticamente macabro

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14 de junho de 2018

“A Casa Lobo” de Cristóbal León e Joaquín Cochiña é definitivamente o filme mais original de toda a 7° edição do Festival Olhar de Cinema 2018. Animação chilena em stop motion que usa a técnica da forma mais inusitada já vista para a ambientação de gênero, demonstrando que animação e terror podem caminhar de mãos juntas e se potencializar.

FB_IMG_1528928476299Metafórico até as veias pulsantes que ainda vibram em crítica às Ditaduras na América Latina, o filme parte de uma premissa básica de contos de fadas, como já enuncia o título, e perpassa várias outras fábulas mais sutilmente, contando a história de uma família cerceada dentro de casa por vários males que impotencializam sua liberdade. O que começa com a história de uma mulher que foge de Colônia alemã para o Chile é de repente invadida pelo conto dos ‘Três Porquinhos’, de forma mais assumida, e depois começa a pegar emprestado de signos e códigos desde ‘Pinóquio’, ‘Branca de Neve’ e até da mesa de jantar da família urso.

Porém, o que dá o tom sombrio que começa a gelar a espinha afora do encanto original que essas obras trazem consigo é a técnica com que essa história é contada. Nem tanto pelo stop motion per si, ou pelo material com que os bonecos são animados, ora feitos de fita crepe, porcelana ou de papier machê e etc, mas sim a forma como isto se dá. Os corpos a interagir na tela vão se desfazendo e reconstruindo de forma visceral, como se fossem linhas que se esticam e voltam a descosturar tecido e membros dos personagens de volta em um novelo de lã que os tenha originado. Ou seja, não há praticamente nenhuma cena em que eles são “inteiros”, pois viram esqueletos de si mesmos sendo constantemente reconstruídos a todo instante. Sem falar que o ambiente também acompanha as mudanças, jamais completo e sempre descascando e desbotando. Em raros momentos, o cenário se completa, mas apenas para se destruir tudo de novo.

Outra força manipulativa da percepção do espectador é o som, que, para além dos efeitos nefastos, parece funcionar como uma narração em off por cima dos bonecos animados, cujas bocas e olhos não se mexem, apenas se desconstroem constantemente, como já dito acima. A combinação descasada das vozes compassivas com a imagem em inércia caótica faz com que o imaginário sonoro pareça uma cantiga de ninar hipnótica e demoníaca. A própria casa retorce como se fosse feita apenas de assoalhos velhos e dobradiças enferrujadas. Assustador. E aquela família que começa com 3 porquinhos e vai se transformando em três pessoas de verdade, disputando por comida e pela paz da casa com o espírito de um lobo, sempre presente e à espreita para possuí-los, demonstra o quão fácil uma Ditadura pode desarmar a própria vontade das pessoas de dentro para fora. Uma impotência tamanha até que o indivíduo se deixe levar pelo destino traçado pela mão pesada do autoritarismo paternalista, o que já marcou o século passado da América Latina e periga retornar se não fizermos algo para impedir.

Perfeita cereja do bolo ante o tema artístico contemplado pela curadoria do Festival, no que tange a técnica cubista, de colagem ou de miniaturas que vários filmes da edição deste ano demonstraram, o registro histórico na reconfabulação do imaginário é muito poderoso para o momento em que vivemos. Isto é prova de que filmes de animação podem e devem ser politizados também, independente se para crianças ou adultos. Sem falar no fato de ser a maior inovação em uso de stop motion da década (juntamente com “Anomalisa” de Kauffman). Uma obra-prima, ainda mais a serviço do cinema de gênero de terror. Poeticamente macabro ❤