VII Olhar de Cinema: Ansiosa Tradução

Minimalismo e micromanagement em evidência

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09 de junho de 2018

Para além do tema principal da curadoria desta 7ª edição do Festival Olhar de Cinema, sobre identidades em deslocamento ou em trânsito, há decerto um subtexto, especialmente nos filmes dirigidos por mulheres, sobre a microgerência do registro destas identidades através da escrevivência, cartografia e colagem de dados. São micropolíticas a fazer parte do ser que muitas vezes passam despercebidas sob o fardo das macropolíticas do cotidiano, mas que a história das minorias sabe muito bem como lidar para não permitir o seu apagamento. Recentemente fui lembrado por um amigo mestrando em história, Leonam Monteiro, sobre a teoria de Stuart Hall envolvendo a divisão entre memórias dominantes e as memórias ‘subalternas’ que, por operarem nesta base de micropolíticas, conseguem passar por baixo das imposições hegemônicas e reorganizar e recriar não apenas a si mesmas para sobreviver, como reconfigurar as próprias macropolíticas em torno de si. Por isso tamanho o medo que o macro possui do micro, medo de as micropolíticas se unirem e agregarem tamanha força que nada poderá contê-las.

Os filmes da homenageada principal do Festival, Janie Geiser, recaem perfeitamente nesta chave, brincando de redimensionar o próprio cinema através da reivindicação de identidade da memória. Assim como há longas-metragens em competição que estendem esta lógica curatorial, provavelmente estimulada pela adição na curadoria neste ano de uma pensadora e pesquisadora de resistência e questões afirmativas, que é Carla Italiano. Sob esta premissa, fica bem mais evidente compreender como o filme “Ansiosa Tradução” de Shireen Seno, realizadora de origem filipina que fez parte da diáspora para o Japão, onde residiu por muitos anos, e agora entrega este filme excêntrico e minimalista para resgatar sua identidade em deslocamento.

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Na trama, seguimos tudo pelo olhar da protagonista, uma criança tímida de oito anos de idade vive e estuda durante o período de pós-ditadura nas Filipinas, em 1988. Imersa em seu próprio mundo, como se não pudesse fazer parte do outro, pertencente aos adultos ainda imersos em outro período que ela não viveu da mesma forma, a câmera acompanha a menina bem de perto, através de seus micromovimentos rotineiros do dia-a-dia; banalidades que talvez nenhum adulto prestasse atenção. Shireen amplia isso de duas formas, com planos-detalhes extremamente aproximados de movimentações minúsculas da personagem, como mãos e dedos, bem como com montagem que edita os movimentos longos em curtos, como se comprimisse nosso olhar para caber no tamanho daquela infante representada no filme — da mesma forma que, por tamanho não ser documento, a partir do momento em ela posiciona esse microscópio, as pequenas partes que perdem o foco do quadro geral ganham liberdade para se reordenar e a imaginação engrandece.